Por José Carlos Carvalheiras
Através da toponímia (nomes das vias públicas), as localidades distinguem figuras que merecem ser recordadas pelas gerações vindouras. Ao atribuir o nome de alguém a uma artéria no centro da Vila, em Maio de 1940, os lousadenses pretenderam perpetuar o nome de Afonso Pinto Coelho Soares de Moura Quintela, já que foi um exemplo não apenas pela obra deixada (nomeadamente a instalação do telefone e da eletricidade), mas acima de tudo pela nobreza do seu carácter, pela vastidão da sua inteligência e o pelo profundo bairrismo que o movia.
Afonso Pinto Coelho Soares de Moura Quintela nasceu no dia 2 de Janeiro de 1879, na Casa do Cárcere, em Nespereira. Era filho do Visconde de Lousada, Luís Pinto Coelho Soares de Moura, e de Maria da Conceição Coelho de Meireles. Faleceu com 60 anos, no dia 4 de Agosto de 1939.
Tal como o seu pai, era formado em Direito pela Universidade de Coimbra, onde se matriculou em 1897, embora nunca tenha exercido advocacia. A sua vida ativa pautou-se pela dedicação à causa pública e à política. Aos 30 anos foi eleito deputado pelo círculo de Viana do Castelo, nas últimas eleições da Monarquia, em Setembro de 1910, não chegando a tomar posse, por ter sido proclamada a República e, portanto, dissolvido o Parlamento. Por essa ocasião, foi-lhe oferecido em Lousada um banquete em que este conterrâneo foi muito aclamado.
Em 1918 e 1919, foi vereador da Câmara Municipal de Lousada, então presidida por Miguel Sá e Melo. A 23 de abril de 1927, fez parte de uma Comissão Administrativa nomeada pelo governador civil para o Município de Lousada. A presidência ficou entregue a Gaspar António Pereira Guimarães e a vice-presidência a Afonso Quintela. Com o falecimento de Gaspar Guimarães, a 28 de setembro de 1927, Afonso Quintela assumiu a presidência, que manteve até julho de 1931, sendo demitido pelo Governador para que tomasse posse uma nova Comissão, presidida pelo 3.º Conde de Alentém. Com o falecimento do Conde, vagou o lugar de presidente da Câmara e, após muitas diligências da autoridade civil do Porto, Afonso Quintela aceitou a gerência dos destinos de Lousada.
A instalação do primeiro telefone
O herdeiro da Casa do Cárcere viria a desempenhar o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Lousada, em duas fases distintas, primeiro entre 18 de Outubro de 1927 e 21 de Março de 1929 e, mais tarde, entre 1935 e 1939. Entre estes dois mandatos foi provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lousada.
Nos mandatos à frente do município foi responsável por notáveis melhoramentos em Lousada, mormente a implantação da luz elétrica, em 1929, que começou por servir o Monte do Senhor dos Aflitos e área circundante, a partir do posto de abastecimento situado na rua S. Sebastião.
É de relevar também a ligação de Lousada à rede telefónica nacional, no dia 1 de Julho de 1938 foi inaugurado o telefone em Lousada. Referem as crónicas da época que o feito teve lugar na Estação dos Correios (sediada num prédio da esquina da atual rua Afonso Quintela e a Rua Amaro da Costa), encontrando-se na ocasião o recinto daquele serviço e o respetivo largo fronteiro coalhados de gente.
Foi queimado muito fogo e a Banda Musical Lousadense abrilhantou a inauguração, que foi simbolicamente efetuada pelo presidente da Câmara Municipal, Dr. Afonso Quintela, que cortou as fitas que cercavam a cabine telefónica. Refere o Jornal de Lousada que “a vistosa tesoura, colocada numa bandeja de prata, foi-lhe entregue pela menina Maria Antónia”, refere o Jornal de Lousada (8 de julho de 1038).
Cortadas as fitas, o Inspetor dos Correios, Oliveira e Costa, discursou sobre as vantagens da estação telefónica, enaltecendo os esforços despendidos pelo presidente da Câmara para que este melhoramento fosse inaugurado, pois se não fosse a sua tenacidade sem desfalecimentos, tal não teria sido possível.
Os três primeiros telefonemas realizados a partir de Lousada foram efetuados pelo Dr. Afonso Quintela, que ligou para o Ministério das Obras Públicas e Comunicações, para a Administração Geral dos Correios e Telégrafos, e para o Governo Civil do Porto, agradecendo aos titulares destes departamentos oficiais o melhoramento que acabava de ser inaugurado e que constituía desde há seis anos uma das mais justas aspirações do povo de Lousada, como o provava o entusiasmo manifestado pelo povo aglomerado em volta da Estação.
De seguida, várias pessoas serviram-se do telefone para uso particular, posto o que a comitiva de honra se dirigiu para o Hotel Avenida, onde o presidente da Câmara ofereceu um copo-d’água.
Também de grande significado foi a mudança do local da feira, que, desde o século XIX e durante várias décadas do século XX, se fez na atual Praça Dom António Meireles e área circundante, transitando, em 1939, para o local onde se realiza na atualidade.
Heráldica do município de Lousada
Nesse mesmo ano viu coroada a constituição da heráldica das armas, bandeira e selo, que o município não possuía, sendo até então o único do distrito do Porto nessa situação. Tal viria a ser aprovado em 11 de Abril de 1939. Desde então as cores da vila de Lousada são o amarelo ou dourado escuro e a púrpura.
Embora tal requisição tivesse sido efetuada em 1935, pelo presidente Eurico Malafaia, foi através de persistentes diligências desenvolvidas no mandato presidencial do Dr. Afonso Quintela, que se consumou o processo relativo à heráldica. Tal iniciativa foi iniciada 18 de Junho de 1936 através de carta dirigida ao presidente da Associação de Arqueólogos de Lisboa fazendo-lhe constar o seguinte: “Presidindo há poucas semanas a esta Câmara Municipal, interessa-me particularmente que o Município de Lousada tenha a sua bandeira, armas e selos privativos e oficialmente aprovados. Informa-me a Secretaria da Câmara de que já houve troca de correspondência entre ela e a ilustre Associação a que V. Exª preside, mas que tal correspondência se encontra em poder de quem, no tempo, tratou de tal assunto, em nome da Câmara e que estabeleceu em Angola. Em presença do exposto, venho solicitar a V. Exª o alto favor de nos indicar a constituição heráldica da bandeira, armas e selo que devem ser adotados pelo Município de Lousada que, se não estou em erro é o único concelho do distrito do Porto, a quem não foi ainda designado o seu brasão de armas”.
Três anos depois, foi publicado no Diário do Governo que “Atendendo ao que representou a Câmara Municipal de Lousada e tendo em vista o parecer da Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministério do Interior, aprovar, nos termos do Código Administrativo, a Constituição Heráldica das Armas, Bandeira e Selo daquele Município (…)”, lê-se naquele documento de 1939.
Fontes consultadas: O Século XX em Lousada (CML, 1999), Jornal de Louzada (8 de julho de 1939) e Jornal Yes (24 de setembro de 2017).












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