Por José Carlos Carvalheiras
Esta lousadense ficou conhecida como “A Severa”, pelos motivos que mais adiante se descortinará. Era natural de Santa Margarida, onde nasceu em 17 de novembro de 1901 e faleceu com 67 anos em 12 maio de 1968.
Aos 14 anos foi servir para a Pensão Avenida e ali se manteve até casar, aos 16 anos de idade, com António Leite dos Santos, natural de Serzedelo, mas trabalhava na serração de Santa Margarida. Ali viveram durante quatro anos, altura em que ele foi para o Brasil, de onde não mais voltou.
Felicidade Pinto era uma mulher determinada, com personalidade forte e construiu um negócio e uma família por si só, a pulso.
Era unanimemente tida como uma pessoa justa, dinâmica e muito trabalhadora, dotada de um grande sentido de responsabilidade e extremamente respeitadora. Era mulher de poucas brincadeiras, pois a experiência da vida impunha-lhe seriedade.
Tiveram um filho, António Leite dos Santos Júnior, que casaria com Maria Adelaide Fonseca Santos. Quando ficou viúva, em 1977, esta senhora herdou o negócio da sua sogra, que ainda mantém quando falta uma década para o centenário daquela que é uma das casas comerciais mais antigas de Louzada. Trata-se da Casa Severa, situada na esquina da rua Afonso Quintela com a avenida Humberto Delgado.
Maria Adelaide Fonseca Santos é mãe de António e Carlos Santos, ambos ex-futebolistas de renome da Associação Desportiva de Louzada, a também de Vitória e José. Foi também mãe de Jorge (Joca) Santos, já falecido. Todos se identificam informalmente por “Severa”, alcunha que foi passando de geração em geração.
É precisamente Adelaide Santos, quem desvenda a história da Severa. Diz que “depois do casamento, a Felicidade Pinto dedicou-se à criação de perus, em Santa Margarida, mas acabou por voltar para a Vila de Louzada onde abriu uma taberna que se transformou em pensão, porque nessa época, há mais de 70 anos, Louzada era muito procurada por turistas e a pensão Avenida não conseguia hospedar toda a gente que aparecia lá e então a dona Maria da Paixão mandava os hóspedes para a minha sogra”.
Quando a feira franca louzadense dos dias 9 e 25 de cada mês passou a realizar-se onde ainda se faz hoje, defronte para A Severa, esta casa passou a ser ainda mais concorrida e ganhou ainda mais nome na praça.
O negócio floresceu de tal maneira que Felicidade Pinto abriu o Café Louzadense. Adelaide Santos considera que “este foi o primeiro café que houve em Louzada, anterior até ao Café Avenida, e o resto era tudo tascas e tabernas”. O Café Louzadense funcionava onde está hoje implantada uma tradicional oficina de sapataria, com porta para a rua Afonso Quintela, paredes meias com a Casa Severa.
Nas décadas de 1940 e 1950 cantava-se o fado nos baixos do edifício, que estão desde há alguns anos convertidos em sala de almoços e jantares. “Os irmãos Moreira, principalmente o Augusto, mas também o Adão, eram os mais populares na cantadoria do fado e deram fama a este sítio onde os petiscos e o vinho eram muito apreciados”, lembra Adelaide Santos.
No livro “Centenário da Festa Grande (CML, 2000), é citado Adão José Moreira no artigo intitulado “Fado castiço no café da Severa”: “quando eu tinha 18 anos (na década de 1930) não havia instrumentos, só a voz do fadista que, do alto de uma cadeira, interpretava temas da época que ouvíamos no rádio”.
Adelaide Santos também recorda que “a Felicidade Pinto também vendia vinho e petiscos nas festas e romarias, principalmente na Senhora Aparecida, no Santo Ovídeo e na Santa Águeda, onde tinha fama de vender uma pipa de vinho em cada uma delas e meia na Santa Águeda”.
Esta herdeira do estabelecimento confirma que “isto ainda não tinha um nome certo e um dia ficou a chamar-se “A Severa” por causa do Dr. António José de Sousa Magalhães, que foi advogado e Notário”. Com uma lucidez perfeita Adelaide Santos diz que a sua sogra contava que “o Dr. Magalhães, que era muito viajado e conhecia o fado em Lisboa, disse em certa noite de cantoria cá em casa: «Isto parece o retiro da Severa» e assim ficou esta casa a chamar-se A Severa”.












História duma família de tempos muito difíceis mas verdadeira realmente a severa ficou na história de Lousada obrigada!