por | 27 Fev, 2021 | Cultura

“Os Beatles de Lousada”

Por José Carlos Carvalheiras

O primeiro grupo de música rock desta localidade chamava-se OS MOSCAS (1965-1969) e eram por muitos conhecidos como “os Beatles de Lousada”. A formação original era constituída pelos irmãos António Bessa Machado (guitarra) e José Carlos Bessa Machado (viola baixo), e pelos primos Manuel Melo (guitarra) e José António Melo dos Santos (baterista e voz). Também fizeram parte Joaquim Bessa (viola baixo) e José Mota (guitarra). O nome dessa banda ou conjunto não advém dos insetos, mas sim de um tipo de beijo que os namorados davam naquela época, muito ao de leve. Eis uma entrevista do projeto LOUZAROCK – História do Rock em Lousada, com o Eng.º José Carlos Bessa Machado, fundador d’Os Moscas.

Louzarock – Em que contexto social surgiu a banda Os Moscas?

Eng.º Bessa Machado – Naquela época não havia criação de riqueza e a maioria da população vivia na pobreza. Que música era possível ouvir-se se não havia sequer rádios, pois eram muito poucos os que existiam em cada freguesia? Para as pessoas ouvirem as cerimónias do 13 de Maio em Fátima, a minha mãe punha o rádio na janela, virado para o caminho (ninguém lhe chamava rua) e as mulheres juntavam-se em frente a ouvir e rezar. Provavelmente só haveria 5 ou 6 rádios na aldeia.

O povo ouvia o Abílio do Abel a tocar viola ao fim das tardes de verão pelos caminhos da aldeia ou as mulheres a cantar nos lavadouros. Pelos poucos rádios chegava nos anos 50/60 O Rui de Mascarenhas, Toni de Matos, António Calvário, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, Tristão da Silva e Artur Ribeiro, para não falar nos fadistas como Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro ou no folclore. Quando a grande preocupação do povo era sobreviver, a música ligeira mal chegava ao povo e quase sempre assente no reportório dos cantores nacionais, pois promovia-se a música portuguesa. 

LOUZAROCK – Onde aprendeu a tocar e quais foram os seus primeiros avanços musicais?

Eng.º Bessa Machado – Só quando fui estudar para Coimbra é que comecei a ouvir mais música, especialmente estrangeira e a que passava mais era sobretudo francesa, italiana e brasileira. Foi em 1962 que me interessei por aprender a tocar viola. Um colega da Escola tinha uma muito usada. Emprestou-ma e ensinou-me três acordes, que nesse dia repeti vezes sem conta durante algumas horas. O resultado disso foi ter ganho bolhas nos dedos da mão esquerda que não me deixaram tocar durante uns dias. E, como havia três colegas que sabiam tocar – e quando digo “tocar” quero dizer fazer-se acompanhar numa canção simples, sem que soubessem música – fui sendo ajudado ora por um, ora por outro, mas com os acordes base para tocar músicas simples. Acabei por comprar uma viola antiga a um deles, que não durou muito pois abriu a caixa a meio e foi para o lixo. Posteriormente comprei outra e como tinha um quarto individual, acabou por ser um ponto de encontro para um grupo de amigos que lá iam cantando enquanto eu me esforçava por os acompanhar. 

O Quarteto 1111, Os Conchas e os Sheiks

LOUZAROCK – Que tipo de espetáculos havia na época?

Eng.º Bessa Machado – Os artistas atuavam, em regra, em Programas de Variedades, e os grupos, que nessa altura eram conhecidos por “Conjunto Musical” e não “Banda” (este nome era reservado para as Bandas de Música), ou tocavam nesses programas de variedades ou em bailes. O “mercado” principal dos “conjuntos musicais” era o dos “bailes”, que iam desde os Bailes de Finalistas, Bailes de Coletividades consagradas como o “Clube Fenianos” e o “Ateneu Comercial”, ambos no Porto, “Assembleias Recreativas”, como a Assembleia de Lousada, para além de bailes em momentos próprios como Carnaval, Fim de Ano, em Hotéis, Clubes Recreativos e outros. No meu Baile de Finalista, em que a música estava a cargo de um Conjunto Musical, esteve connosco o Conjunto de Shegundo Galarza, um pianista profissional espanhol que já vivia em Portugal há muitos anos e por cá continuou. Na mesma linha estava o grupo do José Cid, o Quarteto 1111 – um dos primeiros a não se denominar “conjunto”, Os Conchas, Os Sheiks e outros grupos profissionais. 

De França ouvia Françoise Hardy (Tous les garçons et les filles e Les temps de l´amour), Gilbert Becaud (Et maintenant e Nathalie), Charles Aznavour (La bohéme e La mamma), Edith Piaf (Non, je ne regrette rien e Millord), Christophe (Aline e Je suis parti), Adamo (Tombe la neige e Inch Allah), Dalida (Histoire d’un amour e Hava nagila), Johnny Hallyday (Que je t’aime e Pardonne-moi) e outros.

De Itália ouvia Domenico Modugno (Volare e Nel blu, dipinto di blu), Gianni Morandi (Non son degno di te e In ginocchio da te), Rita Pavone (Datemi um martelo e Cuore), Adriano Calentano (Pregheró e L’arcobaleno), Claudio Villa (Chitarra romana e O sole mio), Gigliola Cinquette (Non ho l’etá e Dio, come ti amo) e Marino Marini (Come Prima e Kriminal tango).

LOUZAROCK – Como surgiram Os Moscas?

Eng.º Bessa Machado – Foi no final de 1963 que o Manuel Melo, que nós conhecíamos por Nelo e morava em Bustelo e era primo dos irmãos Eurico e José Melo regressou da Alemanha onde passou férias a trabalhar. Com o dinheiro que lá juntou, comprou um amplificador Dynacord, com uma coluna também Dynacord B40, um baixo Klira e uma outra viola elétrica também Klira. Era uma coisa invulgar, pois contava-se quase pelos dedos quem tinha material assim. Quando em Setembro do ano seguinte regressei de Angola, eu e o meu irmão António, que também já tocava viola, juntamo-nos ao Manuel Melo (Nelo) e ao José Melo (para nós Zé Melo) para fazer um Conjunto. Faltava a bateria. Depois de várias diligências, soubemos que havia uma à venda em Riba D’Ave e o Joaquim Valinhas, que também andava connosco, comprou-a. Assim nascia o Conjunto “Os Moscas”, constituído pelo Nelo, na viola ritmo, o Tónio, meu irmão, na viola solo, o Zé Melo na bateria e voz e eu na viola baixo.

The Animals, The Shadows, etc.

LOUZAROCK – Onde ensaiavam e o que tocavam?

Eng.º Bessa Machado – Ensaiávamos em Bustelo, numa casa da mãe do Nelo e foi já em 1965, num Baile particular organizado em casa da D. Palmira Meireles, na Rua Visconde de Alentem, em Lousada, que tocamos as primeiras músicas, “The house of the rising sun, dos Animals, um dos grupos pioneiros da invasão britânica na música ligeira e sua conquista, “Apache”, dos Shadows, “Moliendo café”, de Hugo Blanco e “Alecrim”. 

A partir daí continuamos a ensaiar com regularidade e depressa tivemos de comprar uma bateria nova Premier, porque a outra cedo se revelou ser insuficiente. O reportório era variado, mas visava, como não podia deixar de ser, música para dançar, sobretudo slow, tango, bolero, além de alguma mais animada como viria a ser o twist e o rock, num tempo em que na maioria dos bailes consagrados as moças eram acompanhadas pelos pais. Estes compravam os lugares de uma das mesas à volta da pista de dança, onde ficavam sentados junto dela para “controlar” os candidatos a dançar com a menina.

LOUZAROCK – Qual foi a primeira atuação ao vivo d’Os Moscas?

Eng.º Bessa Machado – Em 1965 começamos por tocar na Assembleia Lousadense, no Baile das Festas Grandes. Nesse ano ainda tivemos mais algumas atuações, sempre em bailes. Em 1966, o meu irmão António partiu para Angola em Comissão Militar de dois anos. Para o substituir no grupo, entrou um primo meu, Quim Bessa, que passou a tocar o baixo, enquanto eu passava para viola solo. Nesse ano animamos vários Bailes, desde os das Assembleias Recreativas de Lousada, Paredes e Penafiel, ao Clube Fenianos do Porto, um baile muito considerado à época.

Por essa altura e por um acaso adquirimos uma viola elétrica fora de série. O cunhado de um primo meu recebeu de um familiar que vivia nos Estados Unidos uma viola elétrica Fender Stratocaster, além de um amplificador também da marca Fender, destinada a um sobrinho que não chegou a ficar com ela. Assim, disponibilizou-se para vender tudo por 15 contos, o que, naquele tempo, era muito dinheiro. Certo é que conseguimos arranjar dinheiro emprestado para a comprar, dado que era a melhor viola do mercado e só existiam 3 ou 4 em Portugal, todas nas mãos de profissionais. Era a marca de viola dos grandes conjuntos mundiais. Com esta viola e o novo amplificador, elevamos o nível do equipamento para outro patamar, com outras possibilidades.

Famosos espetáculos nos Bombeiros

LOUZAROCK – Consta que as vossas atuações nos Bombeiros de Lousada eram de arromba. Que tinham de especial esses eventos?

Eng.º Bessa Machado – Durante algum tempo ensaiamos no salão de espetáculos dos Bombeiros V. de Lousada, onde acabamos por organizar um espetáculo de variedades em que o Conjunto era o suporte principal para acompanhar alguns jovens e menos jovens candidatos a artistas lousadenses. Num cenário que recreava o ambiente de um café, Eurico Melo era o empregado de serviço, os clientes os artistas como o Biecas e a irmã, Lúcia Morais (cantava o “Mar Eterno”), Gilberto (“A Banda Está Borracha”), Teresinha Neto, Ana Maria (a tocar acordeão), Alfredo Valinhas (que, com o Eurico Melo, faziam algumas cenas cómicas), além de um ilusionista e de uma jovem artista de Vizela. A fazer a apresentação, um amigo de Roriz, António Maria. O fotógrafo de serviço, que colheu algumas imagens, era conhecido por Miguel “Trambolho”.

Como ocorrência digna de nota desse espetáculo, com lotação esgotada e de receita a dividir entre o Conjunto e os BVL, uma cena curiosa: durante a tarde fizemos o ensaio geral e o som estava excelente e ficou tudo regulado. À noite, quando começamos a tocar a primeira música, o som saiu horrível. Parecia desafinado. Mal correu o pano, o Nelo e o Zé Melo envolveram-se numa discussão, culpando-se um ao outro. Mas, como o espetáculo continuava, o pano abriu e todos nós passamos à música seguinte. Mal o pano se fechava, eles voltavam à briga, tendo isso acontecido toda a noite. Só mais tarde viríamos a descobrir que ninguém tinha culpa. Como ensaiamos de tarde e o consumo de eletricidade era baixo, a energia elétrica estava com a potência normal. Porém, à hora a que o espetáculo começou à noite, havia um grande consumo de eletricidade e, num tempo de fracas infraestruturas elétricas, a potência caía drasticamente e os amplificadores não conseguiam reproduzir com fidelidade o som. Não havia nada a fazer.

LOUZAROCK – Com a experiência e maturidade o grupo desenvolveu-se?

Eng.º Bessa Machado – Sim. Em 1967 instalamos o conjunto na casa expropriada ao sr. Adriano Neto, no centro da Vila, onde viria a ser construído o Palácio da Justiça de Lousada. Como a demolição só viria a ocorrer quase um ano depois, fizemos da casa local de ensaio e de festas, onde se juntavam os amigos de então. Continuamos a tocar nos Bailes das Assembleias da região, no Clube dos Fenianos no Porto e ainda fizemos a Passagem de Ano numa Pensão importante da Curia, tendo levado como segundo Conjunto “Os Aftas”, grupo recém formado de Penafiel que apoiamos e que integrava o Miguel Graça Moura nas teclas (mais tarde chegaria a maestro, mas nunca pôs no seu currículo essa sua passagem por este grupo). Organizamos também um Baile na Sra Aparecida no dia da Romaria, numa casa mesmo em frente à Capela, baile que viria a ser interrompido pela GNR quando entrou a perguntar pela licença. Houve lugar a multa apesar da entrada ser livre e fizemos uma coleta para ajudar ao prejuízo. 

Tanto tocávamos Bee Gees (Massachusetts, Words e To love somebody), The Shadows, o grupo que acompanhava Cliff Richard, (Apache e The young ones), The Monkeys (I’m A believer), como tocávamos Os Conchas (Sonhos) e Sheiks (Missing you), ou algumas de Roberto Carlos, muito em voga.   

Mas os bailes pediam muita música lenta, baladas, slows, para que o par “se aproximasse”, apesar dos olhares fiscalizadores das mamãs.

Mudança para o Porto e final

LOUZAROCK – O grupo teve atividade contínua ou sofreu interrupções?

Eng.º Bessa Machado – Em Janeiro de 1968 parti para Moçambique como militar em Comissão de Serviço, onde ficaria durante dois anos. Pouco depois de eu embarcar, regressava o meu irmão António, que retomaria o lugar de viola solo. Como pouco depois do seu regresso foi trabalhar para o Porto, ele arranjou forma de passarem a ensaiar nas instalações da Tuna Musical de Santa Marinha, em Gaia, quando a composição do grupo se alterava pois, além do Nelo e o António, entravam o Zé Grande para a bateria e um universitário para as teclas. O Conjunto passou a designar-se “Ritmo 4”. Nesse ano continuaram a tocar nos Fenianos, no Porto e Assembleias Recreativas. A Passagem de Ano foi no Grande Hotel da Curia, para além de um grande Baile na Casa da Cerca, em Amarante.

LOUZAROCK – Então Os Moscas deram lugar aos Ritmo 4 e como terminou?

Eng.º Bessa Machado – Em 1969, o conjunto continuou no Porto, mas com novas alterações. Mudou de nome para “Sistema”, passou a integrar o Amílcar, um estudante universitário que desistiria de estudar para se dedicar à música enquanto não fugiu para Inglaterra, para não cumprir serviço militar. Os ensaios passaram a ser feitos na cave do prédio do pai do Amílcar, na Rua da Alegria, sendo que ele, para além de tocar viola, era vocalista. Continuaram a fazer os mesmos Bailes na região.

Em 1970, já depois de eu regressar de Moçambique, ainda acompanhei o Conjunto Sistema em duas atuações nos Fenianos e na Assembleia Penafidelense.

Pouco tempo depois, com os elementos a dispersarem-se por razões profissionais, o grupo acabou. O Amílcar Borges Amaral chegou a integrar um conjunto nacional, “O Psyco” e depois foi para Inglaterra, onde viria a fazer parte da banda de suporte de David Bowie.

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