As memórias de quem viveu a conquista da liberdade
Alfredo Ferreira nasceu em 1929, na freguesia de Frazão, em Paços de Ferreira, onde iniciou o seu percurso escolar, já numa turma mista. Em 1940 acabou por se mudar para Lousada, onde permanece hoje, depois de uma vida profissional que o levou a viajar pelo país. Alfredo e a sua esposa, Maria Leopoldina, contam como viveram a ditadura e as mudanças que aconteceram depois da Revolução dos Cravos. 

O casal Alfredo e Maria Leopoldina Ferreira casaram em fevereiro de 1959 e desde então permanecem juntos, independentemente das dificuldades ultrapassadas. Alfredo de Sousa Barbosa Ferreira foi engenheiro eletrotécnico e Maria Leopoldina Alves Teixeira da Mota Ferreira, nascida em 1927, apesar do sonho de fazer o curso de enfermagem, permaneceu toda a sua vida como doméstica. 

Desses tempos, recordam histórias, vivências e momentos nem sempre fáceis de ultrapassar para a população portuguesa e lousadense. “Lembro-me que com quatro, cinco, seis anos, era uma miséria. As pessoas iam para a escola descalças, em pleno inverno. Vivia-se muito mal. Nessa altura, quando fiz a quarta classe”, lembra o engenheiro.

Já Maria Leopoldina, que tinha o sonho de tirar o curso de enfermeira, mas nunca andou na escola de enfermagem. “Gostava de ter tirado um curso de enfermagem, mas o meu pai não aceitava”, lamenta Leopoldina. 

Alfredo Ferreira depois de terminar a 4.º classe, foi estudar e, mais tarde, viver para o Porto. “O meu pai tinha um amigo que queria que eu fosse para o Seminário e fazia lá o 7.º ano, mas eu disse que não. Então, a ideia foi seguir engenharia. Acabei por seguir o ensino das escolas comerciais, que hoje chamamos ensino politécnico, e fui para a Escola Industrial Infante D. Henrique”, explica, acrescentando que “fiz lá o curso de cinco anos, quem quisesse a equivalência do 7.º fazia dois anos complementares. Andei lá sete anos.”  

Alfredo Ferreira

“Fui fazer exame de admissão ao que hoje é o Instituto Superior de Engenharia e acabei lá o curso de Eletrotecnia, em 1952/53”, refere. E porquê engenharia? “O meu pai estava ligado a uma empresa de transportes, que havia duas empresas em Paços de Ferreira, o meu pai era gerente e a ideia era eu ter uma base para um dia ir para as oficinas e tratar dos camiões e autocarros. Mais tarde, o meu pai conseguiu fundir as duas empresas”, confirma.  

No princípio, os seus dias eram entre o Porto e Lousada. “Ia para o Porto de manhã, saía daqui às 7 horas e vinha às 18:30 horas para casa. Até que chegou a altura que disse: ‘pai, isto nem dá para estudar nem para dormir, não dá para nada’. Passei a dormir lá no Porto. Entretanto, o meu irmão também foi para lá atrás de mim e acabei por viver no Porto até 1952”, comenta. 

A procura pelo emprego na área 

Depois de terminar o curso, regressou, mas não encontrava emprego na área, conta o engenheiro: “nessa altura, o país tecnicamente não tinha nada, não havia infraestruturas nenhumas, portanto, acabei o curso e estive em casa e não arranjava emprego. Por isso, fiquei em casa. Entretanto, o meu pai tinha em Lousada um posto de gasolina e uma garagem e fez lá uma oficina de automóveis e estive lá a trabalhar, já tinha umas bases para fazer uma série de coisas, porque o meu pai paralelamente também tinha camiões”.  

“Nessa altura, o país tecnicamente não tinha nada, não havia infraestruturas nenhumas, portanto, acabei o curso e estive em casa e não arranjava emprego.” – Alfredo Ferreira 

Durante esse período, acabou por abrir um concurso para os Correios de Portugal (CTT). “Tinha acabado o curso e o meu ramo era Eletrotecnia, que era incipiente para a época. Só depois dessa altura é que as grandes invenções da Guerra começaram a chegar a Portugal. Os correios abriram um concurso para 100 técnicos das mais variadas áreas. Como tinha eletrotecnia havia uma direção geral à parte dos outros edifícios todos, muito perto do aeroporto em Lisboa, era o que chamamos hoje uma daquelas empresas de empreendedorismo que fazem esses programas de computadores. Fui trabalhar para aí, não havia grandes técnicos naquela altura”, relata. 

O engenheiro explica, ainda, como funcionava fazer um telefonema naquela época: “as centrais naquele tempo eram por magneto, havia uma linha, a telefonista pegava na manivela e mandava um impulso elétrico para avisar a seguinte para meter a cavilha para ligar a alguém. Havia um amigo meu, o Engenheiro Fernando Gorgel do Amaral, que foi o primeiro homem a montar os primeiros telefones de disco”. 

Depois de dois anos a trabalhar nos CTT, acabou por sair em busca de melhores condições, apesar de lembrar com saudade esses dias. “Ainda hoje tenho saudades de trabalhar lá, trabalhávamos na tecnologia de ponta para a época, porque foi nessa altura que foram 100 para os correios, mas os Melos, da CUF, já tinham 500 engenheiros.”, explica. 

“Entretanto, apareceu a CP que quis começar a eletrificar a linha do Norte e era preciso técnicos para fazer o arranque da eletrificação da linha do Norte, eram precisos técnicos e apareceu também a televisão: assisti ao primeiro ensaio da televisão em 1955/56, a primeira emissão da televisão em Portugal”, lembra. 

Já em 1957, saiu dos correios e foi trabalhar para a “Shell Portugal”, uma multinacional: “entrei e três meses depois de estágio em Lisboa mandaram-me como responsável pela área de Trás-os-Montes: Vila Real, Bragança, Viseu e Guarda. Em Lisboa a vida já era cara”.  

Casaram a 28 de fevereiro de 1959, ficaram a viver em Lisboa, onde nasceu a filha mais velha, mas a vontade era voltar para o Norte de Portugal. “A Shell fez um acordo com o Estado Maior do Exército e eu andava a fazer cursos nas Unidades Militares, sobretudo nas que eram mecanizadas, por exemplo Santa Margarida, onde havia carros de combate. Só aí fiz treze cursos, cada um demorava uma semana. Não tendo chegado a ir efetivamente para a Guerra”, revela. 

Mais tarde, teve a possibilidade de voltar ao Porto: “houve um administrador que era de Lisboa e veio para o Porto, quando soube que eu tinha sido mandado para Beja, propôs que viesse para o Porto”, acrescenta, referindo que, ao fim de dois anos, “mandaram-me para Guimarães. Depois, ficamos no Porto até sair da companhia, em 1987”. 

Em 1987, acabou por reformar-se. 

Viver no 25 de abril 

Até à década de 60, em Lousada, “até os ricos eram pobres”, lamenta, explicando que “não havia indústria nenhuma, havia uma fábrica que fazia chancas e botas. Havia dezenas de homens que estavam em casa e essa fábrica entregava-lhes essas bases, chamados os tamanqueiros. Havia um condicionamento industrial, só os grandes grupos é que tinham essas capacidades de formar indústrias”.  

No ano da Revolução dos Cravos, ainda residiam no Porto, mas, confirma, “eu não fui nada afetado. A família do meu sogro, o avô dela [Maria Leopoldina], foram sempre gente de esquerda, o meu sogro tinha um jornal que era ‘O jornal de Lousada’, eles não sentiram muito. Mas sabíamos que havia em Lousada informadores da PIDE”. 

“O meu pai era contra Salazar e toda a gente sabia, ele era funcionário da Câmara, não se escondia, mas nunca ninguém o prendeu nem fez nada, porque ele nunca se meteu em problemas.” – Maria Leopoldina 

Maria Leopoldina acrescenta: “o meu pai era contra Salazar e toda a gente sabia, ele era funcionário da Câmara, não se escondia, mas nunca ninguém o prendeu nem fez nada, porque ele nunca se meteu em problemas”.  

O casal, apesar de não ter participado em nenhuma associação, colaboraram em diversas coisas como “brincadeiras, bailes, gincanas e fui vogal na Adega Cooperativa de Lousada”, afirma o engenheiro.  

3 Comments

  1. Antonio N. Patricio

    Uma vida cheia de experiências excecionais. Um verdadeiro oráculo de saber e saber-fazer, que poderá ser exemplo para tantas gerações em busca de um projeto de vida lúcido, culto e adulto.

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  2. Ana Sofia Oliveira

    Parabéns aos meus tios-avós!! 😘 em dose dupla: o irmão que refere o Sr. Eng. – para mim, Tio Alfredo – é o meu avô, também ele Eng.º (civil e minas) e a Sr.a Leopoldina – para mim, Tia Dina – é irmã da minha avô, Maria José. Ainda hoje têm uma vida cheia e a família muitas histórias para contar. Um beijo muito grande

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  3. Núria

    Parabéns! Una vida muy interesante y una pareja ejemplar!

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