José Dias, um empresário que deixou um legado histórico
José Dias nasceu na Quinta do Loreto, Cristelos, a 2 de setembro de 1922, filho de José Domingos Dias e de Glória Ignácia de Araújo, proprietários do primeiro talho da Vila. Estudante no Colégio Lousadense (mais tarde designado Colégio Eça de Queirós) e no Colégio Brotero, na Foz, veio a cursar Medicina em Coimbra por pressão paterna, mas desistiu no 2.º ano por falta de vocação, emigrando para o Brasil, onde se fixou em S. Paulo, junto de familiares. Ali permaneceu cerca de 10 anos.

O falecimento do pai fê-lo regressar, enveredando pela vida empresarial, primeiro como diretor comercial de uma empresa de espumas, depois como quadro da fábrica de colchões Molaflex, a convite do proprietário, Rui Moreira, pai do atual Presidente da Câmara Municipal do Porto.

No entanto, os projetos de José Dias já se orientavam para a criação da Estofex e a participação na vida local.

O seu nome ficou, acima de tudo, associado à Estofex. A empresa de estofos, por si criada em 1966, funcionou inicialmente em frente da atual FAMO, no lugar de Arcas, no limite da freguesia de Cristelos com a de Boim, que um incêndio em 1973 destruiu quase totalmente. Em 1974, passou a indústria de mobiliário, já nas novas instalações, um pouco mais acima, no lugar de Pinheiro Novo, já na freguesia de Silvares, distribuídas por uma área de 17 mil m2. Era o início do período de maior fulgor da empresa, com quase duas centenas de trabalhadores e grande afirmação no mercado. 

No início da década de 1980, José Dias vendeu a fábrica ao Grupo Mello, de José Manuel de Mello, proprietário da Fábrica da União Fabril (CUF). Estofex acabou por fechar em Maio de 1982, tendo o tribunal decretado a sua insolvência em Janeiro do ano seguinte. Após um longo e sinuoso percurso judicial, a massa falida viria a ser comprada pela Câmara Municipal em 1992, permitindo, através da criação do primeiro parque industrial do concelho, assim como a reabsorção de parte da mão-de-obra e a fixação definitiva das empresas entretanto instaladas nos pavilhões devolutos.

Destacado dirigente associativo

José Domingos de Araújo Dias foi um dos fundadores da Associação Desportiva de Lousada, da qual veio a ser o segundo presidente da Direção, em 1950. Também foi dirigente da Associação Humanitária dos Bombeiros, da Santa Casa da Misericórdia, Associação de Cultura Musical e da Assembleia Recreativa Lousadense.

Foi diretor do Jornal de Lousada, quando a Estofex se tornou associada da empresa gráfica do jornal, propriedade de Manuel Afonso da Silva. Foi o primeiro presidente da Assembleia Municipal, eleito como independente em 1976, pela lista do Partido Popular Democrático, ao mesmo tempo que Amílcar Neto era eleito presidente da Câmara. Não completou o mandato, sendo substituído por Adriano Pinto. 

Para a história fica também o seu patrocínio para o final da etapa da 37ª Volta a Portugal em Bicicleta, em 1974, um dos maiores acontecimentos desportivos realizados no concelho, ajudando ele próprio, protocolarmente, a vestir a camisola amarela ao novo líder, António Martins, do Benfica, numa tirada ganha por Custódio Gomes, do FC Porto.

Conhecedor da história social das últimas gerações lousadenses, foi palestrante, em 1998, na homenagem da Câmara ao escritor e cronista António Augusto de Castro Gorgel.

Benemérito cultural

Já na década de 2000, tornou-se benemérito da Biblioteca Municipal, à qual doou mais de 10 mil volumes, figurando o seu nome na Sala de Adultos desde 2003, ano em que também foi agraciado com a Medalha de Prata de Mérito Municipal. Na fundamentação, entre outras razões, como a contribuição para o reforço do acervo e o envolvimento na vida pública, foi salientado “o papel relevante na promoção sociocultural do concelho” e a “permanente disponibilidade em colaborar em iniciativas de caráter cultural”.

José Dias era casado em segundas núpcias com D. Otília Monsanto Pereira Dias, e deixou três filhos (Drs. Gonçalo Cristóvão, José Vítor e Maria Teresa Meireles Araújo Dias), sete netos e 12 bisnetos.

Foi a sepultar na tarde de 26 de outubro, no cemitério de Cristelos, e Lousada voltou a perder mais uma importante figura da sua história recente.

Nota – A fotografia que acompanha este texto foi gentilmente cedida por Manuel José Correia Fernandes, afilhado de José Domingos de Araújo Dias.

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