por | 5 Mai, 2021 | Economia, Sociedade

Raspar: a linha ténue entre a sorte e o vício

Todos os dias são vendidas milhares de raspadinhas em Portugal. De fácil acesso, é um dos jogos preferidos e dos que mais se vende nos quiosques e papelarias por todo o país. O que parece um ato simples de raspar um cartão, pode tornar-se num vício que os psiquiatras já comparam ao álcool. 

Pelos quiosques e papelarias do concelho, multiplicam-se as pessoas que procuram o jogo diariamente. São de todas as classes etárias, géneros e idades. Buscam os prémios prometidos que são rápidos e instantâneos, no entanto, incertos. 

O perfil do jogador está a mudar e as raspadinhas surgem, cada vez mais, como um vício que pode levar a dívidas, doenças e problemas familiares. Em média, os apostadores portugueses gastam, por ano, 11 vezes mais do que, por exemplo, os vizinhos espanhóis. 

Armando Cunha tem 62 anos e confessa que compra raspadinhas “para ver se sai qualquer coisa”, mas de forma pouco regular. “Só compro às vezes, uma ou duas vezes por semana, mas está a tornar-se num vício nas pessoas”, garante Armando. 

Armando Cunha

“Só compro às vezes, uma ou duas vezes por semana, mas está a tornar-se num vicio nas pessoas.” – Armando Cunha 

Em 2018, foram vendidos 1.594 milhões de euros em raspadinhas. O que significa que, em média, foram gastos 160 euros por português em raspadinhas. A raspadinha está a aumentar o número de pessoas que chegam aos consultórios médicos com o vício de jogar. O alerta vem de um estudo do Hospital de Braga, publicado na revista científica The Lancet Psychiatry, que fala de uma “epidemia de raspadinhas” no país.

Desde 2010 que o valor gasto em raspadinhas tem aumentado. Se há 10 anos os portugueses gastaram pouco mais de 100 milhões de euros nesse jogo, em 2018 o investimento já tinha chegado aos 1.594 milhões. É uma média de 160 euros por cada português, um valor muito acima dos 14 euros que cada espanhol gastou em raspadinhas no mesmo ano.

Segundo os autores do estudo, com o aumento das apostas em raspadinhas tem aumentado também o número de pessoas com doenças associadas ao jogo patológico. Portugal é o país da Europa que mais dinheiro gasta, per capita, em raspadinhas. A facilidade e a não exigência de conhecimento do jogo podem levar ao encorajamento do jogo excessivo. 

A sede de ganhar 

Os profissionais de saúde mental têm vindo a defender o jogo responsável, com mais e melhor prevenção, mais cuidado com a publicidade e com a legislação, e o sistema de autoexclusão na raspadinha, que atualmente não existe, ao contrário do que acontece em outros jogos de sorte ou azar. 

O vício do jogo é um problema comportamental que altera de forma significativa os comportamentos. Trocam-se prioridades e há uma grande dificuldade em parar. Não se sabe quantos viciados em raspadinhas existem em concreto em Portugal e a procura de ajuda é ainda muito recente e, até, de forma constrangida. 

Ainda assim, os telefonemas para a Linha de Apoio da Santa Casa, operada pelo Instituto de Apoio ao Jogador, estão a aumentar. Em 2018, registaram-se 262 chamadas que resultaram em 135 contactos para apoio psicológico. Em 2017, contaram-se 227 chamadas e 117 contactos alvo de ajuda psicológica, mais do que os 189 telefonemas e os 76 apoios psicológicos do ano anterior. 

Orlando Pinto é um dos gerentes de um estabelecimento que disponibiliza este e outros jogos a dinheiro e conta que a venda da raspadinha tem crescido cada vez mais, a par do Placard, de apostas desportivas. 

“O placard tem crescido muito também, mas a raspadinha é o jogo que se vende mais. Isto deve preocupar as pessoas, porque há quem não se consiga controlar, percebemos que há muitas pessoas que têm o vício e não conseguem parar”, reflete Orlando. 

Orlando Pinto

O gerente explica, ainda, que, quando se apercebem que estão perante uma pessoa com adição ao jogo, “podemos alertar para jogar com moderação e só aquilo que podem jogar, mas há pessoas que não têm noção”. 

“Há pessoas que só param quando não têm mais dinheiro na carteira.” – Orlando Pinto

“Há pessoas que só param quando não têm mais dinheiro na carteira. Outros vão ganhando e investindo e controlam os gastos, nunca gastando mais do que podem. Mas há outros que só jogam até não ter mais”, lamenta. 

Apesar de o perfil do jogador não ser único, Orlando sublinha “as pessoas de mais idade, sobretudo mulheres. Chegam a estar aqui uma hora sempre a jogar, é muito complicado”. 

E o vício não desaparece tão facilmente: é um bicho difícil de dominar e pode provocar ansiedade, inquietação, alterações de humor, cansaço, exaustão. É um ciclo vicioso que se repete. Há cada vez mais pessoas a pedirem ajuda para tratar o vício. A maioria dos pedidos é feita junto de hospitais e Centros de Apoio a Toxicodependentes, que têm experiência no tratamento de comportamentos aditivos. 

Caso tenha problemas relacionados com o jogo a dinheiro, ou identifique alguém que os possa ter, pode utilizar este serviço de apoio psicológico independente, anónimo e confidencial.

Pode contactar: 214 193 721 (custo de chamada para rede fixa) em dias úteis, das 14h às 18h ou o email: linhadeapoio@iajpt.eu

Em alternativa, pode ainda contactar a Linha Vida, um serviço de encaminhamento anónimo, gratuito e confidencial, do Ministério da Saúde, através de uma chamada gratuita para o 1414, em dias úteis, das 14h às 18h, ou através do email: 1414@sicad.min-saude.pt

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Vera Silva e Ana Sousa ultrapassam com êxito desafio do Hybrid Day em Beja 

Num ambiente com temperatura nos 38°, as atletas lousadenses Vera Silva e Ana Sousa lançam-se no...

AMBIENTE & PATRIMÓNIO, POR ERNESTO GONÇALVES ________________ A UVA — Entre a terra, o trabalho e a memória

A uva, o cacho, a vide, a videira, a ramada, o bardo, o esteio, a vindima, o vinho, o bagaço, a...

Casa do Rio: quando preservar o passado é também preparar o futuro

Há datas que ficam na memória de uma casa. Na Casa do Rio, em Torno, Lousada, a de 22 de agosto de...

Cool Dance levou dança e emoção ao Euro RX em Lousada

O grupo de dança Cool Dance, a convite do Clube Automóvel de Lousada (CAL), marcou presença no...

Chega setembro, regressam as aulas e, com elas, algumas das memórias de infância e juventude desse...

NOVOS BOMBOS EM LOUSADA (1)

Os Magnetenses: a tradição que ganha nova força Um novo grupo de bombos nasceu em Meinedo com 20...

O ESCUDO INVISÍVEL NO CIRCUITO INTERNACIONAL DE LOUSADA

ED4 levou a segurança no desporto automóvel ao patamar mundial Vamos falar de uma equipa que não...

Edifício da Adega nasceu há 70 anos

OBRA CUSTOU “DOIS MIL CONTOS” Assinalam-se este mês 70 anos do início de um dos projetos mais...

Grande Entrevista a LUÍS MARINHO (CAL)

“Não procuro ficar na história, procuro continuar a fazer mais e melhor” Aos 38 anos,...

JULIANA COSTA, UMA ARTISTA QUE SE REVELA FORA DE LOUSADA

Das raízes em Figueiras à afirmação na arte texturizada Natural de Figueiras, no concelho de...

Siga-nos nas redes sociais