por | 24 Mai, 2021 | Canto do saber, Opinião

Futebol, outro dos lugares da violência estrutural da política

Opinião de Eduardo Moreira da Silva

Nos festejos da conquista do campeonato de futebol pelo Sporting Clube de Portugal, o país assistiu atónito a manifestações muito para além do que recomendam as regras de segurança relativas à pandemia que, lembremos, ainda graça e faz vítimas todos os dias; e até a outras regras de segurança, estas mais habituais em situações do género.

O assombro, a incredulidade, a desilusão, o sentimento de absoluta impunidade apoderou-se de todos aqueles, a maioria, que não participou nesses ajuntamentos. A culpa a que o direito condena, essa foi sujeita a uma sucessão de passes até ao alívio para fora do estádio, aquele que se configura como opinião pública. Não há irracionalidade no desejo de manifestação do seu regozijo nos foliões, o que existe é a certeza da falta de outra punição que não seja o cansaço, uma ou outra escoriação motivada por algum excesso e uma eventual ressaca no dia seguinte. No caso vertente, a possibilidade de uma punição adicional aparece pelo efeito de eventual infeção que se pode tornar letal. Não há punição do Direito, este não pune, apenas atribui culpa.

A violência apareceu neste caso com uma ambivalência chocante: por um lado a violência do desrespeito pelas regras sanitárias e sobretudo pelo sacrifício de todos nós; por outro, aquela violência bem mais opressiva, a violência estrutural da política. Esta última não se sente, entra pela vida de todos como se a ela pertencesse. Uma violência que pertence ao Estado enquanto poder. Poder que abre as portas à violência mais ou menos explícita quando esse mesmo poder é colocado em causa. Quando as suas configurações correm o risco de ser alteradas. O futebol já nos habituou a este enquadramento na violência estrutural da política. A força dos sentimentos que produz em massas de votantes é por demais conhecida dos políticos que a tentam canalizar a favor do seu projeto de poder. A promiscuidade entre política e futebol é pornográfica (bem como outras que poderia enunciar), num aproveitamento da ação que vai muito mais além daqueles que deviam ser os protagonistas: os jogadores. Os adeptos, os simpatizantes, para não falar da fauna que gira à volta das direções dos clubes, em conjunto com esse instrumento do estado que é a polícia, performam todo um espetáculo de violência que estimula o eros, mas que conforma na sua exteriorização. No fim não é a violência explícita que interessa, mas aquela que institui e/ou mantém o poder.

Esta é uma crítica, mas não no sentido de dizer o que está mal, mas sim no sentido da análise, da análise que leva à práxis, à prática. Uma prática que assim advém da reflexão da melhor forma de vivermos juntos em comunidade, ou seja, uma análise de dimensão ética, a qual deve escavar bem fundo naquilo que é a violência estrutural da política. O futebol é um dos seus lugares onde se consegue ver essa dimensão do direito, já mencionada, não a da punição, mas apenas a de atribuir culpa. 

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