Opinião de Eduardo Moreira da Silva
Nos festejos da conquista do campeonato de futebol pelo Sporting Clube de Portugal, o país assistiu atónito a manifestações muito para além do que recomendam as regras de segurança relativas à pandemia que, lembremos, ainda graça e faz vítimas todos os dias; e até a outras regras de segurança, estas mais habituais em situações do género.
O assombro, a incredulidade, a desilusão, o sentimento de absoluta impunidade apoderou-se de todos aqueles, a maioria, que não participou nesses ajuntamentos. A culpa a que o direito condena, essa foi sujeita a uma sucessão de passes até ao alívio para fora do estádio, aquele que se configura como opinião pública. Não há irracionalidade no desejo de manifestação do seu regozijo nos foliões, o que existe é a certeza da falta de outra punição que não seja o cansaço, uma ou outra escoriação motivada por algum excesso e uma eventual ressaca no dia seguinte. No caso vertente, a possibilidade de uma punição adicional aparece pelo efeito de eventual infeção que se pode tornar letal. Não há punição do Direito, este não pune, apenas atribui culpa.
A violência apareceu neste caso com uma ambivalência chocante: por um lado a violência do desrespeito pelas regras sanitárias e sobretudo pelo sacrifício de todos nós; por outro, aquela violência bem mais opressiva, a violência estrutural da política. Esta última não se sente, entra pela vida de todos como se a ela pertencesse. Uma violência que pertence ao Estado enquanto poder. Poder que abre as portas à violência mais ou menos explícita quando esse mesmo poder é colocado em causa. Quando as suas configurações correm o risco de ser alteradas. O futebol já nos habituou a este enquadramento na violência estrutural da política. A força dos sentimentos que produz em massas de votantes é por demais conhecida dos políticos que a tentam canalizar a favor do seu projeto de poder. A promiscuidade entre política e futebol é pornográfica (bem como outras que poderia enunciar), num aproveitamento da ação que vai muito mais além daqueles que deviam ser os protagonistas: os jogadores. Os adeptos, os simpatizantes, para não falar da fauna que gira à volta das direções dos clubes, em conjunto com esse instrumento do estado que é a polícia, performam todo um espetáculo de violência que estimula o eros, mas que conforma na sua exteriorização. No fim não é a violência explícita que interessa, mas aquela que institui e/ou mantém o poder.
Esta é uma crítica, mas não no sentido de dizer o que está mal, mas sim no sentido da análise, da análise que leva à práxis, à prática. Uma prática que assim advém da reflexão da melhor forma de vivermos juntos em comunidade, ou seja, uma análise de dimensão ética, a qual deve escavar bem fundo naquilo que é a violência estrutural da política. O futebol é um dos seus lugares onde se consegue ver essa dimensão do direito, já mencionada, não a da punição, mas apenas a de atribuir culpa.












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