por | 25 Jun, 2021 | Cultura

Casas Nobres de Louzada: Casa de Real

Por José Carlos Silva

Sendo Lousada um concelho “entre rios” – Sousa e Mesio – agruparemos as casas nobres em dois grandes grupos: casas edificadas na área do Rio Sousa e casas construídas em território do Rio Mesio. Faremos a sua descrição arquitetónica, recordaremos momentos da sua história e memórias dos seus proprietários. As tipologias das casas nobres sugerem várias definições. A capela e a sua diferente posição em relação à fachada, a escadaria, a pedra de armas e a torre, eis alguns dos elementos arquitetónicos que nos vão permitir criar uma tipologia de fachadas.

Começaremos pelas Casas Edificadas na área do Rio Mesio, de que é exemplo a Casa de Rio de Moinhos, já publicada.

Casa de Real

Foi seu proprietário, José Freire Vieira Teixeira de Queirós, que nasceu em 1762 e nela faleceu em 1829 – Fidalgo da Casa Real, Cavaleiro da Ordem de Cristo, Capitão-mor de Leça do Balio e Donatário de S. Miguel de Cacerilhe, concelho de Celorico de Basto, e de Santiago de Rande;513 sucedeu-lhe João Pinto de Almeida Soares Faria, que faleceu em 1879, e foi Fidalgo da Casa Real.514 E à casa de Real pertenceu D. Frei Manuel da Cruz, Bispo de Mariana (Brasil), que nasceu na casa do Carvalhal e foi batizado em 1690, nesta freguesia, Bacharel pela Universidade de Coimbra, Dom Abade do Colégio do Espírito Santo de Coimbra (1732), Definidor e Mestre do Mosteiro de Alcobaça (1738), Bispo do Maranhão, no mesmo ano, e primeiro Bispo de Mariana por Decreto de 25-4-1745;515 a ele se ficando a dever (em 1758) a reconstrução da Casa de Real, datando dessa época a capela e a estrutura do edifício que ainda hoje existe.516

Em 1758, José Freire da Costa, abade de Vilarinho, fez, seguindo as instruções de seu tio, o bispo de Mariana, um contrato de obra com os mestres Galegos pedreiros, Pedro Gomes e Manuel Solha:” (…) Dizem-nos Pedro Gomes e Manuel Solha, mestres pedreiros naturais do reino da Galiza que nós estamos contratados com José Freire da Costa, abade de Vilarinho, de lhe fazer uma capela e casa na forma dos apontamentos e risco, tudo bem feito e seguro na forma da ley e nos obrigamos toda a pedra que for necessária para a obra tanto de escoadria como de alvenaria; a pedra de escoadria hade ser colouada no monte de S. João (…) e elle Reverendo Abbade nos dara a pedra das do Carvalhal e mais o sobrado melhor da caza e escadas do portal fronho e mais a pedra da caza de Lagoeiros (…) eu Reverendo Abbade me obrigo a dar-lhes o caldo feito de manhã e à noite e cozer-lhe o pão dando os mestres o gram.517

Esta casa viveu, por esta altura o seu período áureo, tendo o ouro do Brasil contribuído para o seu esplendor e fortuna. O custo total das obras ascendeu aos 868$300 réis.518

Desenho de Carolina. Casa de Real – Pormenor da fachada principal, com escadaria lançada contra a fachada, com volutas na parte terminal e degraus semicirculares no início.

Tipologicamente é uma casa quadrangular com capela adossada no topo esquerdo da fachada Oeste, com pátio interior.

A fachada principal foi dividida por pilastras, em três zonas, criando dois panos simétricos que flanqueiam um pano central onde foi adossada uma escadaria perpendicular à fachada, de um só lanço, com patim, e volutas na parte terminal, sendo que os primeiros degraus são semicirculares. No rés-do-chão do pano central, a ladear a escadaria, ostenta duas aberturas gradeadas, e no andar nobre, ao centro, uma portada com lintel curvilíneo ladeada por duas janelas de sacada, todas molduradas a sobrepujar cachorrada.

No pano do lado direito, apresenta uma janela de sacada com lintel curvilíneo, e no pano do lado esquerdo, no rés-do-chão, evidencia uma portada moldurada com um lintel; no primeiro andar repete o ritmo com uma janela de sacada com lintel curvilíneo. A fachada Norte tem uma janela de peitoril gradeada. No rés-do-chão da fachada Este tem cinco portadas e no primeiro andar, uma janela de peitoril moldurada e do lado direito uma abertura gradeada.

A fachada Sul foi dividida, verticalmente, por uma pilastra que criou duas zonas e dois panos simétricos. Apresenta no rés-do-chão, seis janelas de peitoril molduradas e gradeadas (três/três, pano direito/pano esquerdo), num ritmo certo, e no segundo andar, seis janelas de sacada com lintel curvilíneo que sobrepujam cachorrada (três/três, pano direito/pano esquerdo). A capela está adossada ao topo esquerdo da fachada principal, virada a Oeste, tendo como invocação Nossa Senhora das Mercês apresenta; ao centro da fachada um portal arquitravado com cornija e painel superior, e frontão interrompido por volutas. A sobrepujar o portal há um óculo polifólio, moldurado e gradeado. O frontão é triangular, interrompido na base, pelo óculo; uma cruz embolada, cuja base toma forma de volutas sobreleva o frontão. E a fachada Norte apresenta uma janela retangular moldurada e gradeada, na fachada Este nota-se a falta da haste horizontal da cruz, (só tem a haste vertical e a base); tudo o resto está partido. As pilastras são encimadas por urnas fechadas.

513 – FREITAS, Eugéneo de Andrea da Cunha e – o. c., p. 31. Cf. A.D.P., Secção Notarial, Po-2, 1ª
Série, Livro n.º 116, 1814, fl. 82; DINIZ, M. Vieira – A Casa De Real. Jornal de Lousada. (24 de abril), p. 1.
514 – DINIZ, M. Vieira – A Casa De Real. Jornal de Lousada. (24 de abril de 1948), p. 1.
515 – DINIZ, M. Vieira – A Casa De Real. Jornal de Lousada. (24 de abril de 1948), p. 1.
516 – Procurámos este documento nos Arquivos Distritais do Porto e de Braga e não o encontrámos, por isso recorremos ao artigo do Jornal de Lousada como a melhor fonte para este trabalho.
517 – DINIZ, M. Vieira – A Casa De Real. Jornal de Lousada. (24 de abril de 1948), p. 1; Cf. FREITAS, Eugéneo de Andrea da Cunha e – o. c., p. 31.
518 – FREITAS, Eugéneo de Andrea da Cunha e – o. c., p. 31.

4 Comments

  1. Ana Maria de Queiroz Dumont Vilares Salgueiro

    Nesta casa viveu minha Mãe, Solange Faria Queiroz Dumont Vilares. Sendo na altura proprietário da Casa de Real seu pai José de Faria Queiroz meu Avô.

    Reply
  2. Cristina Mafalda de Portugal da Silveira Queiroz Neves Correia

    Muito interessante trazer à memória o Património Cultural das Casas Nobres do Concelho de Lousada.
    Parabéns pela excelente iniciativa!
    Cristina Mafalda de Portugal da Silveira Queiroz Neves Correia

    Reply
  3. Cristina Mafalda de Portugal da Silveira Queiroz Neves Correia

    Muito interessante recordar o Património Cultural das Casa Nobres do Concelho de Lousada.
    Parabéns pela excelente iniciativa!

    Reply
  4. António Abílio de Faria Queiroz e Menezes

    Na Capela desta casa casaram o meu Avô, Joaquim de Faria Soares de Almeida Queiroz que nela habitava, e a minha Avó Maria Guilhermina professora primária na Ordem durante cerca de 35 anos

    Reply

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