Joaquim Gonçalves: o amor pelo Senhor dos Aflitos

Nasceu, cresceu e viveu sempre em Silvares. É um apaixonado pelas Festas em Honra do Senhor dos Aflitos, de quem nutre grande devoção. Foi Presidente das Festas Grandes e esteve durante vários anos ligado à sua organização, a par da presidência da LADEC.  Foi, ainda, vice-presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada, treinador das camadas jovens de futebol em diversos clubes e esteve na direção da AD Lousada. 

Nascido no coração da vila, em 1960, Joaquim Gonçalves define-se como uma pessoa simples, trabalhadora e que se dedica às causas públicas. Gosta de ajudar os que se aproximam de si e dedica-se na totalidade a tudo o que se propõe, ainda que, às vezes, “em prejuízo da família”, conta. 

A sua infância, acredita, “foi como a de todos os jovens, os meus pais sempre trabalharam muito e crescemos com as mínimas condições, trabalharam muito para dar o melhor aos quatro filhos”. 

Terminou a 4.ª classe e preferiu não prosseguir estudos, dando entrada no mercado de trabalho aos 12 anos, numa ourivesaria em frente à sua atual escola. “Devo muito ao meu pai tudo o que me ensinou, tudo o que fez por mim. Mas tenho de reconhecer que a minha mãe também foi uma heroína, porque na altura era doméstica e só o meu pai é que trabalhava”, conta. 

“Não havia as condições que há hoje, não havia máquinas de lavar. Ela, muito cedo, ia para os tanques, com neve, lavar as roupas dos bombeiros, que ela tratava para ganhar algum dinheiro”, refere. 

Ainda muito novo, a paixão pela ourivesaria já se fazia sentir nos pequenos pormenores. “Na escola onde andei, ao lado dos bombeiros, havia uma ourivesaria, a ‘Ourivesaria António Lousada’, e quando vínhamos ao recreio jogar à bola tirava uns minutos, com a minha curiosidade, a olhar para dentro da ourivesaria a ver os que viriam a ser meus colegas a soldar o ouro”, conta o ourives. 

Assim, depois de terminar a 4.ª classe dedicou-se à ourivesaria: “quando o meu pai me perguntou se queria estudar disse que queria ir para a ourivesaria. Estive na ‘António Lousada’ até aos 30 anos”, revela. 

“Quando entrei, comecei como relojoeiro. Hoje ser relojoeiro requer muito esforço, porque é um trabalho muito minucioso. Tenho muito orgulho de ter trabalhado nessa casa, porque na altura era das melhores ourivesarias do distrito do Porto, com grandes profissionais. Tive a sorte de ter esses profissionais a ensinarem-me”, orgulha-se. 

Aos 30 anos, decidiu mudar um pouco a sua vida. “Depois de casar, houve mais um desafio na minha vida: abrir a minha ourivesaria, na Rua de Santo António. Mais tarde, mudamos para a Rua Palmira Meireles”, testemunha. 

Paixão pelas Festas Grandes 

Do seu pai herdou a paixão pelas Festas Grandes, em Honra do Senhor dos Aflitos. “Uma das coisas que o meu pai fazia está relacionada com as festas e daí esta minha paixão. Foi um lutador e aprendi muito com ele. Orgulho-me do pai que tive, porque foi sempre um homem muito trabalhador, bairrista e com muitos amigos”, orgulha-se. 

Como a sua entrega é total, conta que “um dia marquei uma reunião com a Comissão de Festas e nem me lembrei que nesse dia fazia 25 anos de casado. Não sei se haveria algum lousadense que o fizesse”. 

E, se por um lado, estava “feliz por trabalhar para esta causa”, por outro “fiquei triste, porque não vi os meus filhos crescerem”, lamenta. Acredita ter uma grande paixão pelas festas por ter crescido no meio: “com cinco anos adormeci no meio da festa, porque os meus pais tinham um bar para ganharem dinheiro. Todos os anos montavam esse bar”. 

“Com cinco anos adormeci no meio da festa, porque os meus pais tinham um bar para ganharem dinheiro.” 

É orgulhosamente um filho das festas e considera que “todos os lousadenses se devem orgulhar, porque como as nossas não há. É uma festa que tem a sua mística, as suas raízes. O Monte do Senhor dos Aflitos é ímpar e não há nada igual. Adormecia encostado ao coreto da banda de música, comecei as minhas raízes aí. Mais tarde, as vacas de fogo e o mel. É uma paixão já desde criança”. 

Mais tarde, “tive um problema de saúde e prometi que um dia iria ajudar a fazer as festas do concelho. Nunca imaginei ser presidente, mas pelo menos ajudar para cumprir com aquilo que o Senhor dos Aflitos me ajudou. Se hoje sou uma pessoa feliz e se tenho uma família da qual me orgulho, é porque o Senhor dos Aflitos esteve sempre nos bons momentos e nos mais difíceis”, revela. 

A aventura começou em 2005 quando foi convidado pelo Eng. Tavares de Oliveira para ser vice-presidente pela primeira vez. Como gostou da experiência, ofereceu um jantar ao grupo e foi desafiado, por Humberto Fernandes, a ser presidente no ano seguinte, em 2006. 

“Pela primeira vez, decidimos fazer a terça-feira com o saldo positivo que tivemos. Foi uma marca que ficou dessa comissão. Nessa sexta-feira recebi uma carta que me desafia, dizendo que nunca mais seria presidente. Para provar que seria capaz, fui presidente no ano seguinte, em 2007”, explica. 

Nascimento da LADEC 

Em 2008 e 2009 esteve fora da lista da Comissão de Festas e regressou em 2010, na função de vice-presidente. “Na altura, fomos aconselhados a criar uma associação para que o dinheiro público viesse de uma forma legal. Assim, fui convidado a liderar a associação LADEC, com o objetivo de que as festas entrassem num rumo de organização e de disciplinar as contas das festas”, explica. 

“Era nossa ideia que a LADEC fosse uma associação de apoio às Comissões de Festas. Nunca iríamos escolher as comissões, quem quisesse podia, de facto, fazê-lo e, se quisesse, tinha a LADEC como suporte e como parceiro. Podíamos apoiar como LADEC, mas não organizaríamos”, relata. 

“Nunca iriamos escolher as comissões, quem quisesse podia, de facto, fazê-lo e, se quisesse, tinha a LADEC como suporte e como parceiro.” 

Em 2013 deveria encerrar o ciclo de participação nas comissões de festas. Assumiu, nesse ano, a presidência, mas, quando achava que a porta se tinha fechado, eis que em março de 2014 foi chamado de novo, por não haver quem organizasse as festividades.

“Mesmo depois de sair das festas, ajudo sempre quando me batem à porta. Dou sempre o meu melhor e as melhores indicações, embora não esteja na Comissão desde 2015. Estou sempre atento e sempre ao lado de quem me bate à porta”, garante. 

Este ano termina o seu mandato na LADEC, em dezembro, revelando que a sua continuidade na direção está a ser ponderada. “Gostava de ter concretizado o sonho de ter uma sede própria. Infelizmente, não se proporcionou por causa da pandemia e há cerca de dois anos que não fazemos qualquer atividade”, lamenta. 

Questionado sobre se está arrependido de alguma coisa, afirma que se sente realizado, porém, lamenta que “nas festas seguintes ao ano em que saí, a LADEC iria apoiar uma Comissão de Festas e depois acabou por ter que se retirar por falta de palavra e de compromisso desse presidente. Só tenho pena de, naquele ano, não ter subido as escadas da Câmara Municipal e ter dito que a LADEC iria organizar novamente as Festas, porque tenho a certeza que não iriam baixar de nível como aconteceu”.  

Veia desportiva 

Com uma grande paixão pelo futebol, começou a dar os primeiros chutos na bola na formação da AD Lousada. “Fiz a minha formação na AD Lousada, e ainda estive inscrito nos iniciados, mas tenho de reconhecer que com as minhas qualidades não ia muito além, ao contrário dos meus irmãos que foram jogadores, eu nunca passei do futebol jovem. Mas a paixão ficou sempre e dediquei-me a outras vertentes do futebol”, revela. 

Por convite do Dr. Jorge Magalhães e Dr. Mário Fonseca, “fiz parte da direção do futebol jovem. Acima de tudo aceitei porque era trabalhar para minha terra com dois grandes lousadenses e grandes amigos. Juntou-se o útil ao agradável”, conta. 

Para conseguir ter mais estabilidade financeira, e aliando a sua paixão pelo futebol, tirou o curso de treinador de futebol nível 1. “Fui treinador em todos os escalões da formação”, revela, passando por clubes como AD Lousada, FC Paços de Ferreira, SC Freamunde e Aparecida FC. Foi, ainda, olheiro das camadas jovens no Vitória Sport Clube, em Guimarães. 

Para além disso, pertenceu ao Conselho Técnico da Associação de Futebol do Porto, durante cerca de 10 anos e foi vice-presidente da AD Lousada.

“Não foi fácil, na altura, lançar o futebol jovem, mas senti-me muito satisfeito e nunca me irei esquecer que foi na AD Lousada que dei os meus primeiros passos e das pessoas que me ajudaram”, confirma. 

Passagem pelos Bombeiros 

Entre a sua atividade na sociedade, o percurso de Joaquim Gonçalves é marcado pela passagem na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada, onde foi convidado pelo presidente, Eng. Tavares de Oliveira para ocupar o cargo de vice-presidente durante dois mandatos, entre 2008 e 2014. 

“É uma instituição da qual me orgulho, porque sou filho de bombeiro, sou irmão de bombeiro e sou pai de bombeiro. É uma instituição que todos nós devemos ajudar, sempre que possível. Dei o meu melhor, mas chegou a hora de me retirar para dar a vez a outros, mas é uma casa que todos nós precisamos e todos temos que ajudar”, refere. 

“É uma instituição da qual me orgulho, porque sou filho de bombeiro, sou irmão de bombeiro e sou pai de bombeiro. É uma instituição que todos nós devemos ajudar.” 

Joaquim Gonçalves termina referindo que “chegou a hora de eu descansar, tenho muito orgulho pelo que fiz pela minha terra”. 

“Tenho de pedir desculpa, publicamente, aos meus filhos e à minha esposa, porque não convivi com eles muitos anos, não vi os meus filhos crescerem, a minha esposa foi mãe e pai. Tínhamos reuniões todos os dias”, afirma, dando o exemplo de 2013 em que era Presidente das Festas Grandes, Presidente da LADEC, vice-presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada e estava no Conselho Técnico da AFP. 

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