por | 17 Set, 2021 | Educação, Sociedade

“Tudo a postos” para o regresso às aulas 

Em 2020, as ruas cheias deram lugar à solidão e a vida de milhões de pessoas mudou completamente. O trabalho presencial deu lugar ao teletrabalho e as aulas presenciais deram lugar às aulas online. Recreios e escolas foram, durante meses, apenas silêncio. Prestes a iniciar mais um ano letivo, a comunidade escolar já só espera um aproximar da normalidade. 

Passado um ano e meio, a população vê as suas vidas voltarem à normalidade, apesar de algumas das restrições se manterem. Se para os mais velhos foi difícil, para os mais novos foi pior. Como alguns afirmam, “finalmente” estão de regresso à escola, num ano que se aproxima da normalidade.  

Cláudio Coelho, de 16 anos, estuda na Escola Básica e Secundária de Lousada Norte, e frequenta o 11.º ano. Tendo de se adaptar a um ensino diferente, Cláudio admite ter sido um ano bastante difícil, “adaptamo-nos a um modo de ensino que mais tarde não queremos mudar”, comenta. 

“Termos medidas mais alargadas, como podermos sair das salas de aula todos os intervalos, dá-me mais motivação.” – Cláudio Coelho 

Cláudio Coelho

O facto de “termos medidas mais alargadas, como podermos sair das salas de aula todos os intervalos”, revela, é uma forma de regressar às aulas com mais motivação. Apesar de mais ansioso, está ainda mais motivado por ver os colegas e admite que “as aulas presenciais acabam por ser mais fáceis”. Pretende, por isso, que todos estes fatores o ajudem a atingir uma média de 17 valores. 

Já Lara Campos, de 10 anos, enfrenta este ano um novo desafio. Estuda no Colégio São José de Bairros e começa a frequentar o 5.º ano. Se a mudança de ciclo pode ser, por si, uma mudança difícil, entre máscaras e álcool gel piora.  

Se para os alunos a adaptação não foi fácil, para os pais também não. Porém, Libânia Sousa, mãe e encarregada de educação de Lara Campos, acredita que o “o colégio foi uma grande ajuda e a direção foi incansável para que as crianças tivessem o máximo de apoio”. 

“Uma vez que a maioria da população está vacinada, acredito que não vamos recuar e os meus filhos poderão ter um ano letivo tranquilo.” – Libânia Sousa 

Para a encarregada de educação o mais difícil foi não conseguir acompanhar os seus filhos em casa, “pois também tive de me reinventar no meu trabalho. As expectativas para este ano letivo estão em alta, “uma vez que a maioria da população está vacinada, acredito que não vamos recuar e os meus filhos poderão ter um ano letivo tranquilo e com um melhor aproveitamento”, afirma. 

Libânia Sousa e Lara Campos

Os preparativos para esta etapa estão encaminhados, “já está tudo organizado, e com grande entusiasmo”. Para além de Lara, Libânia tem mais dois filhos a frequentar o ensino secundário, “que se torna mais dispendioso, mas organizei-me financeiramente para que nada lhes faltasse”, conclui. 

Professores estão preparados para enfrentar mais um desafio 

Assim como os alunos e pais, os professores também tiveram as suas dificuldades. Elsa Bessa, de 45 anos, leciona o quinto e o sexto ano no Agrupamento de Escolas Lousada Oeste. Para a professora, o primeiro confinamento foi mais difícil, “porque não estávamos preparados para o ensino à distância e o período em que a escolas fecharam foi dedicado ao estudo/exploração da plataforma de ensino online”. 

 “Foi uma partilha interessante entre alunos e professores, pois sentíamos todos as mesmas dificuldades”, comenta, acrescentando que “nessa fase, a par da transmissão de conteúdos, privilegiei a interação com os alunos e entre estes com os seus pares. Era importante colmatar o isolamento, tornando a sala de aula virtual uma partilha, um espaço de diálogo, de aproximação”. 

“Espero que a imunidade de grupo saia mais reforçada e que consigamos evitar os isolamentos profiláticos sistemáticos.” – Elsa Bessa 

Este ano, Elsa Bessa acredita que será mais tranquilo e mais seguro voltar às aulas presenciais. “Com a vacinação das crianças em curso, espero que a imunidade de grupo saia mais reforçada e que consigamos evitar os isolamentos profiláticos sistemáticos”, comenta confiante. 

Elsa Bessa

Para um professor, o regresso às aulas também exige planificação e rigor, com a preparação de “novos projetos, do plano anual de atividades e a revisão das regras de segurança para toda a comunidade”, conta. No entanto, Elsa também dá conselhos de ouro aos seus alunos, que passam por “aproveitarem bem as aulas e as partilhas que vão fazendo”, afirma. 

Com algumas regras que ainda estão em vigor, “não é um regresso à normalidade, mas também já não paira no ar aquele medo que se fez sentir nestes dois últimos anos letivos”, acredita.  

Inês Fernandes tem 60 anos, leciona no Agrupamento de Escolas de Lousada e também ela lembra que os dois últimos anos escolares “foram um caminho árduo a percorrer”. Recorda que “não estava minimamente preparada para lecionar neste modelo de ensino”, uma vez que privilegia “as relações interpessoais, o olhar olhos nos olhos, perceber a pessoa que mora nos alunos, sentir as suas emoções, os seus desalentos e as suas alegrias”. 

Apesar de tudo, a professora está com as expectativas altas para um novo recomeço e afirma que “não me revejo a exercer outra profissão. Ser professor, para mim, é uma paixão”. Enfrentado obstáculos e desafios ao longo de cada ano letivo, Inês acredita que essa é umas das suas principais funções enquanto agente educativa. 

“Prefiro as relações interpessoais, o olhar olhos nos olhos, perceber a pessoa que mora nos alunos, sentir as suas emoções, os seus desalentos e as suas alegrias.” – Inês Fernandes 

“Atualmente, sou diretora do curso profissional técnico de Cozinha e Pastelaria e tem sido o meu maior desafio: alargar horizontes, criar expectativas positivas nos meus alunos: sonhar e fazê-los sonhar”, explana. Confiante de que tudo irá correr bem, admite que será um desafio trabalhar com os alunos que irão frequentar o 10.º ano. 

Inês Fernandes

 “É neste ano curricular onde se manifesta mais o abandono, a vontade de desistir dos seus sonhos, o desinteresse pela cultura escolar e, direi mesmo, a angústia de um novo ciclo de estudos”, lamenta. 

 A palavra de ordem para o regresso às aulas é “a motivação” e a sua palavra-chave é “a partilha”. Assim como todos os anos, pretende “criar um bom clima relacional, promover e intensificar o trabalho colaborativo, prevenir o abandono e fazê-los sair da zona de conforto e voar”, enumera. Para finalizar, a professora deseja a todos um bom regresso para este novo ano letivo e deseja que os alunos vejam a escola como o seu segundo lar. 

Como preparar o regresso às aulas 

Tânia Nunes tem 36 anos, é psicóloga no Agrupamento de Escolas de Cristelo, em Paredes, e explica como se pode preparar um regresso às aulas em grande. Para que se tenha uma boa preparação no regresso às aulas, acredita que o primeiro passo é ganhar a confiança dos pais e conseguir tranquilizá-los. 

Após dois anos em que a vida escolar dos alunos mudou radicalmente, “as nossas escolas estão equipadas com recursos humanos e materiais cada vez mais sofisticados e humanizados, que garantem o bem-estar dos alunos e alunas. Importa confiar e comunicar positivamente”, explana.

“Um dos passos mais importantes é que os alunos vejam a escola como um segundo lar e um lugar seguro.” – Tânia Nunes 

 Mesmo que um começo às aulas possa, no início, ser difícil, “pelo desconhecido”, a psicóloga acredita que “existem já várias evidências de algumas estratégias que, implementadas de forma consistente, facilitarão esta fase tão bonita e importante para o desenvolvimento global dos alunos”. Um dos passos mais importantes é que os alunos “vejam a escola como um segundo lar e um lugar seguro e que os pais ou cuidadores falem da escola com entusiasmo, confiança e tranquilidade”, revela. 

Tânia Nunes

Tânia Nunes deixa algumas dicas para que isto tudo seja possível: “antes do início das aulas, é importante que os alunos voltem às rotinas semelhantes às vividas em período escolar” e alerta os alunos que gostam de escolher os seus materiais “que essa tarefa pode ir sendo adiantada, em conjunto, previamente ao início das aulas, sendo importante evitar o stress das filas”, lembrando que “deverá haver lugar à organização do local de estudo do aluno”. 

No início do ano letivo, Tânia Nunes dá sessões de promoção do bem-estar sócio emocional, tentando transmitir aos alunos “o objetivo de promover a integração, o espírito de grupo e a cooperação entre pares”, confirma, dando também alguns conselhos para que consigam ter um bom sucesso escolar, “a importância de terem uma participação ativa na sala de aula, de registarem apontamentos no caderno, de exporem as dúvidas, de terem um estudo autónomo e regular, de serem, no fundo, eles, o principal piloto das suas aprendizagens”. 

Para todos os alunos, a psicóloga deixa uma mensagem que considera muito importante, como “ser autorregulado”. Revela que não se nasce autorregulado, “aprende-se a ser autorregulado”. Apela, ainda, “para a solidariedade e para a bondade para com os pares. Ser bondoso faz bem à saúde mental. Quando temos uma boa saúde mental, estamos preparados para todos os dias nas nossas vidas, sejam eles arco-íris ou cinzentos”. Aos pais,  alerta para que “mantenham um espírito positivo e uma comunicação aberta” e aos professores deseja “força e perseverança, nesta tão nobre arte de ajudar a mudar o mundo”. 

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