Jorge Gonzaga nasceu em Cristelos, em 1983, é Engenheiro Civil e um apaixonado pelo desporto automóvel. Inspirado por Ayrton Senna, venceu tudo o que havia para vencer no Kartcross e é atualmente tricampeão nacional. Esta época, luta pelo quarto campeonato e a terceira Taça de Portugal.
Joca Gonzaga, como é carinhosamente tratado, nasceu e cresceu em Cristelos, “fui criado em casa dos meus avós paternos, sempre rodeado de primos e amigos, que ainda podiam jogar à bola na rua e correr junto à Casa da Costilha, onde agora é a pista”, revela.
O seu percurso escolar foi todo realizado em Lousada até ingressar no Ensino Superior, no curso de Engenharia Civil, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. “Apesar de não ter sido um percurso de sucesso, na incerteza de ser o curso que realmente queria, a verdade é que era um curso que me garantia uma situação mais estável. Não sei se foi a melhor opção, mas permite-me viver como vivo, feliz”, afirma.
“Talvez tivesse feito uma escolha diferente, mas a vida é feita de escolhas. Sempre gostei muito de mecânica e acho que joguei pelo seguro e optei por seguir Engenharia Civil. Não me arrependo, mas se pudesse experimentar outro caminho, teria curiosidade em fazê-lo”, revela.
“Só não quero chegar aos 60 anos e pensar que não vivi”, testemunha, acrescentando que, talvez por isso, surge na sua vida a competição e as corridas de automobilismo. “As corridas, fazer muito desporto e fazer coisas diferentes é para desfrutar da vida. Se não for quando temos força e energia para o fazer, depois também passa esse tempo e acabamos por passar ao lado daquilo que, para mim, é a vida”, afirma.
Vida marcada pelo desporto
O desporto é palavra de ordem na vida de Jorge Gonzaga desde sempre. “O meu pai foi um dos sócios fundadores do Clube Automóvel de Lousada, sempre foi um entusiasta da competição e o desporto sempre fez parte da minha vida”, explica, revelando que começou por praticar Hóquei em Patins, no Centro Cultural e Desportivo da Ordem, aos sete anos.
“Sempre gostei de praticar desporto no geral. Depois, sendo de Lousada, é muito difícil não termos uma ligação ao desporto motorizado, sobretudo ao automobilismo, e recordo-me que aos oitos anos o meu pai comprou-me um Karting, que pratiquei durante alguns anos. Acabei por parar uns anos e voltei mais seriamente aos 16 anos. Chegamos a ponderar competir, mas quando soubemos os custos de fazer uma temporada ficou logo fora de hipótese, porque eram custos absurdos. A ideia de uma carreira no automobilismo ficou logo aí”, lamenta.

As competições “mais a sério” chegaram aos 18 anos, nas Resistências de Ralicross, sempre com a equipa da Afinauto. “Depois a oportunidade do Kartcross surgiu por acaso. Comprei o meu primeiro Kartcross, desmontei-o logo todo e remontei. Fiz uns treinos e fomos para Mação fazer a prova do Nacional”, conta.
“A primeira vez que andei de Kartcross em Lousada, venci a Taça de Portugal. Melhor era difícil.”
“Fiz a primeira prova em Mação, depois em Montalegre, fui a Mação outra vez e, aqui em Lousada, a última prova do ano e a primeira Taça de Portugal que se realizava, vencemos. A primeira vez que andei de Kartcross em Lousada, venci a Taça de Portugal. Melhor era difícil”, orgulha-se.
A partir daí, as conquistas foram somando. “Em 2016, ganhamos a Taça de Portugal. Em 2017, fomos vice-campeões nacionais e não participamos na Taça. Em 2018, ganhamos o campeonato e a Taça de Portugal. Em 2019, fomos campeões de Portugal e não participamos na Taça. Em 2020, fomos campeões nacionais. Este ano, estamos na luta pelo campeonato, estamos em primeiro lugar e com alguma margem. Somos tricampeões e vamos tentar o tetra”, assegura.
O piloto garante que o segredo para as conquistas está em perceber que “ninguém é tão grande que não possa aprender nem tão pequeno que não possa ensinar”. E é com esta frase que se guia no mundo da competição. “Quando entramos na competição, eu e o Soares, o meu mecânico, não percebíamos nada. Sempre fomos muito humildes, apesar de isso não transparecer”, revela.
“Como piloto, não tenho interesse em mostrar humildade nas corridas. Temos de ter uma posição de vantagem sobre os nossos adversários, estar num ponto em que nós, psicologicamente, somos fortes. Podemos não saber, mas temos sempre de fazer com que os outros pensem que sabemos ou que estamos confortáveis”, expressa.
A acrescentar a este lema, revela que a bagagem que a equipa carregava da competição, mesmo antes de competir, permitiu chegar mais longe.
A falta de apoio e visibilidade
Joca Gonzaga acredita que para praticar desporto federado é necessária “uma capacidade financeira que nos permita ter uma vida estável. Para ir correr, não podemos tirar pão da mesa. No dia em que não tiver uma folga que me permita praticar competição federada, eu paro e vou fazer outra coisa. Posso perfeitamente pegar numas sapatilhas e ir correr. Toda a gente pode fazer desporto dessa forma”.
“O nível que estou atualmente, em que luto por vitórias, exige um esforço financeiro maior, apesar de muitas vezes não ser tão elevado como as pessoas pensam, mas é sempre um esforço. As coisas não são gratuitas e por muitos apoios de patrocinadores, de empresas e de amigos, temos sempre muitas despesas”, lamenta.
Acredita que não é o desporto motorizado que é desvalorizado, mas o país “que é pequeno”. “Acho que não é uma questão de ser desvalorizado, mas de não ter uma clientela tão grande como seria bom ter. E depois o nosso trabalho como pilotos é um bocado desvalorizado, porque há muitos maus exemplos. Em Portugal, não há muitos pilotos, há muitos corredores”, esclarece.

Neste momento, o foco do piloto é divertir-se. “Esta época foi muito dura. Estou focado em divertir-me. Divirto-me a competir e a ganhar. Mas também me divirto quando vou competir e existem adversários mais fortes e me ganham. Não fico feliz, mas divirto-me, porque competição também é isso, é assumir que, às vezes, os outros são melhores. A única preocupação que tenho é provar a mim próprio que dei o meu melhor e tudo o que tinha”, testemunha.
“Aquilo que tinha a provar como piloto, já provei e comprovei. Venci tudo o que havia para fazer, em vários tipos de condições e situações.”
O foco está em terminar a época em Castelo Branco e participar na Taça de Portugal. Planos para o futuro, o piloto prefere não fazer. “A ideia é largar o compromisso de competir. Não quero ter um compromisso muito sério em termos competitivos, estar um pouco mais liberto para estar com a minha família, com os amigos e fazer atividades diferentes. Não quero largar o Kartcross e pretendo fazer algumas provas, nomeadamente Lousada, mas não assumir o compromisso do campeonato”, declara.
“Aquilo que tinha a provar como piloto, já provei e comprovei. Venci tudo o que havia para fazer, em vários tipos de condições e situações. Sei que contribuiu para o crescimento do Kartcross, sei que melhorou com ideias e erros meus. Mas acredito que a missão nunca esteja cumprida, porque há um conhecimento que fui adquirindo e que pode ser contribuir para melhorar a modalidade”, termina.












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