A Freguesia de S. Vicente de Boim nas Memórias Paroquiais

A Casa Nobre no seu contexto histórico IX

O Concelho de Lousada na segunda metade do século XVIII – Caracterização geral do concelho.

Casas Nobres de Louzada – Por José Carlos Silva, Professor e Historiador

Boim chamou-se antigamente «Gui e depois Goi, [e muito mais tarde Goim], e esta palavra celta significando – agárico – planta sagrada para esse povo primitivo, deixamos entrever em Boim ou Gui – a terra do agarico – solemnemente visitada pelos sacerdotes e povo celta, no sexto dia da lua no nevado mez de Dezembro. Era esse o dia marcado para a colheita da planta symbolica, a planta sagrada da nação guerreira, que os livros santos druidas só permitiam colher no sexto dia da lua de dezembro. Assim explicada a etymologia de Boim, a imaginação vê surgir além, por entre as carvalheiras que fecham estes vales, a procissão solemne que vem á colheita do gui. Marcham na frente dois adivinhos cantando hymnos sagrados e balladas patrióticas, de uma profunda suavidade lyrica. Segue-os o arauto empunhando o cadaceo symbolico, e logo depôs os tres sacerdotes druidas com os instrumentos necessários para o sacrifício. O pontifice magno, vestido de alva túnica de linho, fecha o religioso préstito, após o qual vem o povo, o grande visionário de todos os tempos, receber o talisman da ventura das mãos da religião. Chegam ao pé da arvore sagrada. O pontífice sobe ao carvalho e corta com a foice de oiro o gui, que os sacerdotes recebem em baixo, solemnente, no sagum branco, estendido em toalha. A cerimónia repete-se tantas vezes, quantas o sacerdote julga indispensável para poder distribuir pelo povo o agarico santo. A colheita findou, mas não concluiu a solemnidade. Ouvem-se mugir dois toiros brancos; são as victimas offerecidas ao bom Deus, que confiou o gui ao carvalho, para que este desse ao seu povo. Á immolação segue-se um esplêndido festim.» (VIEIRA, José Augusto – o. c., p. 362 – 363. Cf. COSTA, Américo – o. c., p. 758 – 759).

A terceira freguesia do concelho de Lousada situava-se num vale e «circuitada pela parte do Nascente com alguns montes de pouca entidade e com permediação de outros pela parte do Norte, donde se descobre a povoação da villa de Arrifana de Souza que fica distante huma légoa.» (Dicionário Geográfico, 1758, vol. 7, fl. 955), que mais parecia uma «campina raza, fria, mas saudável»1 encaixada que estava entre alguns montes, principalmente, o monte de S. Jorge, a Nascente, e o monte de Bade a Norte.2 S. Vicente de Boim compreendia dezanove lugares: Boim, Marecos, Sedoura, Penedo, Outeirinho, Barroca, Sá, Eiras, Campos, Ermeiro, Gerovila, Assento da Igreja, Real, Arcas, Corgo, Costa, Carcavelos, Tunim, Vila Chã. E tinha setenta e três fogos e duzentos e trinta e oito habitantes.3 

Era curato – povoação pastoreada por um cura – e a sua apresentação cabia ao Abade do mosteiro de Santo Tirso de Riba D’Ave, mosteiro que recebia de renda, anualmente, duzentos e cinquenta e seis mil réis. O cura desta igreja tinha o rendimento do pé-de-altar – rendimento que os párocos usufruem pelos serviços religiosos prestados aos paroquianos (COSTA, J. Almeida; MELO, A. Sampaio-Dicionário da Língua Portuguesa. 5ª edição, Porto: Porto Editora, LDA, [s/d], p. 403.); e do passal – terreno anexo à igreja ou à residência paroquial para rendimento do pároco  (COSTA, J. Almeida; MELO, A. Sampaio – o. c. , p. 1064) – de quarenta e cinco mil réis, por ano. A igreja abrigava a irmandade de Nossa Senhora do Rosário, no altar do lado esquerdo, e aquela era privilegiada, por ter uma bula que se reformava de sete em sete anos.4 Ao Senhor dos Desamparados, que ficava no altar do lado direito, faziam os fregueses de Boim romaria quase todos os domingos e dias santos. E a vinte e três de abril decorria a festa em honra de S. Jorge: «Santo fabuloso, originário da Capadócia. Guerreiro valente, salva a vida da filha do Rei matando o terrível dragão, que a queria devorar. Foi eventualmente martirizado de maneiras bizarras. A sua lenda foi rejeitada no século V por um concílio, mas persistiu e ganhou enorme popularidade no tempo das Cruzadas. Iconograficamente, é representado como um jovem imberbe, de armadura, tanto a pé como num cavalo branco, com cabelos compridos, um dragão aos pés e a lança quebrada. Tem por vezes uma espada nua e um estandarte branco com uma cruz vermelha.” (TAVARES, Jorge Campos – Dicionário de Santos. 3ª Edição (revista), Porto: Lello Editores, 2001, p. 88. Cf. HALLAM, Elizabeth – Os Santos. 1ª edição. Lisboa: 1998, p. 88). No dia da sua romaria havia sermão e missa cantada na igreja paroquial, e procissão até à capela da mesma invocação, que ficava no alto do monte de S. Jorge. A imagem do santo estava colocada no altar do Santo Nome, da igreja paroquial. No fim da festa era levada da igreja até à capela onde estava a outra imagem do mesmo santo, e aí ficava até ao fim do dia.

Uma imagem com edifício, céu, exterior, pedra
Descrição gerada automaticamente
Capela de São Jorge.
Crédito: Suplemento de Património da CML.

No monte de S. Jorge, ao redor da capela, havia também feira de bois, uma vez que S. Jorge era o protetor dos bovinos. A capela de S. Jorge vai ser ereta, muito mais tarde, precisamente nesse local, assim como a festa e a feira de bois aí vão surgir. (LEAL, Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho – o. c., p. 407).

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1 – LEAL, Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho – o. c., p. 407. Cf. I. A. N. /T. T. – Dicionário Geográfico. 1758, vol. 7, fl. 955. 

2 – I. A. N. T. T. – Dicionário Geográfico. 1758, vol. 7, fl. 955. 

3 – I. A. N. T. T. – Dicionário Geográfico. 1758, vol. 7, fl. 956. Cf. COSTA, Américo – o. c., p. 759; BAPTISTA, João Maria – o. c., p. 680-881. 

4 – I. A. N. /T. T. – Dicionário Geográfico. 1758, vol. 7, fl. 956.

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