por | 24 Abr, 2022 | Canto do saber, Opinião

O chamamento para uma ética ambiental global – 25 de abril de todos e d’ O Louzadense

Canto do saber 43 – Por Eduardo Moreira da Silva

Aproxima-se o dia 25 de Abril, uma data de grandes comemorações. Desde logo, aquela fundamental, a que diz respeito à memória da revolução que devolveu a Portugal o espírito, que mais do que reviver, pretendemos ter sempre presente. O espírito dos valores primeiros da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. A partir destes, toda uma sistematização de valorações pode ser feita. É dentro desta sistematização que se enquadra outra das comemorações a que referi acima: a do aniversário da publicação do primeiro número do jornal O Louzadense. De facto, os valores primeiros não podem subsistir sem meios de comunicação social e a necessária liberdade de expressão de que todos devem usufruir. O Lousadense tem sabido ao longo da sua curta, mas profícua, vida, dar voz à comunidade que serve – Lousada – aproximando os seus elementos, independentemente da diversidade de opiniões expressas. No que toca a estas, mesmo aquelas que podem ser vistas, por vezes, como tendenciosas, são absolutamente legítimas, já que a neutralidade dificilmente traz progresso. O assumir de posições e o confronto de ideias, não só é saudável, como é desejável, para um debate que se quer aceso em ordem a melhorar a qualidade vida neste concelho que é o nosso – por consequência melhorar a qualidade de vida em geral.

O progresso tem sido medido pela taxa de consumo de energia e pela capacidade de aquisição e acumulação de bens materiais. Aquilo que parece serem os requisitos materiais para uma “vida boa” assume a prioridade sem que se questione se a vida é experienciada como boa. A riqueza garante uma alta qualidade de vida, não necessariamente um alto padrão de vida. A narrativa mais comum por parte de políticos, economistas e especialistas em energia é a de que existe um crescimento exponencial na demanda por energia dos seres humanos, quando ela se constitui apenas como necessidade de mercado. Padrão material de vida e qualidade de vida acabam por ser confundidos como sendo o mesmo. A ideologia de mercado constrói-se a partir da indução de necessidade de produtos nos clientes de modo a aumentar o consumo. Se este não aumenta é a crise económica e o desemprego. Alterações a esta ideologia só se tornam possíveis com alterações profundas na máquina económica. Uma máquina que requer e produz uma atitude distorcida com a vida. 

A perpetuação por meio de formas de produção e consumo firmemente estabelecidas e falta de políticas adequadas para o aumento da população humana leva ao aumento exponencial , parcialmente ou totalmente  irreversível  da deterioração ou devastação ambiental. As degradações ambientais em conjunto com as alterações naturais conduzirão a problemas que afetarão toda a ecosfera. 

A preocupação não só com o nosso padrão de vida como com o das gerações futuras implica a noção de uma responsabilidade que vai muito mais além do “ecologismo”. A situação requer um tipo de resposta abrangente: o especialista tem lugar na especificação deste ou aquele problema. A necessidade é holística. No entanto, deve partir de generalidades, dos conceitos apreendidos através da experienciação, daquilo que se intui, no sentido de estabelecer pressupostos para a busca da sistematização de normas, as quais serão passíveis de revisão contínua, para alcançar o padrão de vida equilibrado dentro da ecosfera. Assim, nós, seres humanos somos parte integrante do sistema. O impacto desta visão possui implicações políticas enormes. A exigência é a de uma ética que tenta deixar o antropocentrismo (pelo menos em termos conceptuais) de lado e vai em direção ao biocentrismo, uma integração do Homem na ecosfera, entendida esta, como composta tanto por seres vivos como não vivos que existem e se pretende que continuem a existir no processo de evolução. 

É esta ética, de caráter individual para o global, que deve ser objeto de implementação em termos de discussão, ao invés de ações avulsas que, tendo o seu mérito, pouco ou nenhum efeito ( algumas vezes até contraproducente) benéfico têm sobre o padrão de vida das populações. Este é um dos passos em frente, possíveis, no desenvolvimento sistemático da valoração do que torna a vida boa, a partir dos valores primeiros da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que para muitos, nos foram devolvidos nessa revolução do 25 de abril de 1974. 

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

NOVOS BOMBOS EM LOUSADA (1)

Os Magnetenses: a tradição que ganha nova força Um novo grupo de bombos nasceu em Meinedo com 20...

O ESCUDO INVISÍVEL NO CIRCUITO INTERNACIONAL DE LOUSADA

ED4 levou a segurança no desporto automóvel ao patamar mundial Vamos falar de uma equipa que não...

Edifício da Adega nasceu há 70 anos

OBRA CUSTOU “DOIS MIL CONTOS” Assinalam-se este mês 70 anos do início de um dos projetos mais...

Grande Entrevista a LUÍS MARINHO (CAL)

“Não procuro ficar na história, procuro continuar a fazer mais e melhor” Aos 38 anos,...

JULIANA COSTA, UMA ARTISTA QUE SE REVELA FORA DE LOUSADA

Das raízes em Figueiras à afirmação na arte texturizada Natural de Figueiras, no concelho de...

DECATHLON LIGA PRO JÁ COMEÇOU

Lousada e Aparecida entraram com o pé esquerdo num campeonato que se espera espetacular. Os...

Câmara reforça apoio ao CAL para o Euro RX

A Câmara Municipal de Lousada reforçou em 428.721,27 euros o apoio financeiro ao Clube Automóvel...

EURO RX PROMETE GRANDE ESPETÁCULO

Lousada decide títulos europeus de Ralicross com estreia de corrida noturna O Circuito...

Há palavras que, quando entram na linguagem politica, correm o risco de perder o seu verdadeiro...

Quando caminhar é andar à descoberta, um desafio ou um estilo de vidaHá quem caminhe para fazer...

Siga-nos nas redes sociais