por | 25 Abr, 2022 | Cultura

25 de abril de 1974: Portugal vive há mais dias em democracia quantos viveu em ditadura

A 25 de Abril de 1974 um grupo de jovens capitães levou a cabo um golpe de Estado que derrubou uma ditadura que dominava Portugal há mais de quatro décadas. O descontentamento dos militares face às alterações de carreira e ao desgaste da guerra colonial foram questões que encaminharam o movimento. Tratou-se de uma revolução em prol da liberdade, e, no dia 24 de março do corrente ano celebrou-se o momento em que país cumpriu 17.500 dias em liberdade, mais um do que os que durou a ditadura. 

Ninguém melhor do que António de Sousa Ribeiro Pacheco, natural do concelho de Lousada com 70 anos de idade, para traduzir a situação de quem recorda um acontecimento que continua a ser fonte de emoções e reações apaixonadas. A Revolução dos Cravos, como ficou conhecida, quebrou a estrutura social vigente na época, insubordinando valores, crenças, comportamentos e modelos políticos.

António Pacheco

A memória individual de quem viveu a experiência revolucionária caracteriza-se por uma intensa dimensão afetiva e emocional. António Pacheco ingressou no serviço militar no Centro de Instrução de Condução Auto 5 em Lagos,  como afirma o próprio. 

A par das vivências ao redor do 25 de abril, uma situação chamou-lhe, particularmente, atenção. Na madrugada de 16 de março de 1974, dia do seu aniversário, ocorreu o Levantamento militar nas Caldas da Rainha. Cerca de duas centenas de soldados comandados pelo major Armando Ramos saíram do Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha, e tomaram a estrada a caminho de Lisboa. O objetivo deste movimento era derrubar o governo de Marcello Caetano, porém, foi abortado. 

Nesse dia, António Pacheco preparava-se para regressar à sua terra e por volta das 4h da madrugada recebeu uma chamada do Quartel General da Região Militar de Évora a comunicar que o mesmo iria entrar em prevenção. 

“Na minha opinião o movimento das Caldas foi uma espécie de teste e como fracassou acabou por funcionar a favor do movimento dos capitães”, explica António Pacheco. 

A 23 de abril de 1974 chegou ao CICA5 em aspirante miliciano oriundo das Caldas da Rainha para cumprir castigo. E, à noite, foi-lhe pedido para ir para o Emissor da Fóia, um posto transmissor situado no topo da Serra de Monchique. Após esta solicitação, encaminhou-se até António e apresentou as suas dúvidas quanto àquilo que se estava a passar. “Eu também andava meio desconfiado porque via, constantemente, várias reuniões a acontecer”, reforça António Pacheco. 

Até que chegou o “Dia D”. Sempre muito preciso e específico, António Pacheco revelou ao Louzadense que às 23h do dia 24 de abril de 1974, teve que se dirigir ao quartel juntamente com os seus colegas. “Chegamos lá e o segundo comandante disse que estávamos num período revolucionário”, declara. A unidade deste aderiu e, desta forma, o lousadense preparou-se para enfrentar qualquer situação. 

“Passado um bocado ouvimos a canção de Paulo de Carvalho, E Depois do Adeus. A partir da meia noite escutamos a Grândola, Vila Morena de Zeca Afonso”, conta. Esta última foi a segunda senha transmitida pela rádio, e serviu para confirmar o arranque das operações.

Por volta das 4h da madrugada as comunicações foram abaixo, tendo voltado às 9h da manhã. A partir destas, começaram também a receber imagens. “Ao fim da tarde quando houve a comunicação da rendição de Marcello Caetano tivemos a certeza”, sublinha. 

O facto de não se poder expressar livremente devido ao receio que tinha originou numa das maiores marcas do fim da ditadura. No entanto, a intensidade com que viveu esta revolução levou-o a sentir as situações de forma especial e diferente. A libertação dos presos, que esboçaram um olhar aterrorizante, no momento da libertação foi também um dos acontecimentos que mais recorda. 

Mas não fica por aqui. No dia 27 de abril de 1974, António Pacheco juntamente com soldados foi desocupar as instalações da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) na cidade de Portimão, trazer os respetivos pertences, bem como prender quem fazia parte da mesma. 

“Que bem-haja o 25 de abril que em boa hora veio”, afirma António Pacheco demonstrando a importância que este movimento revolucionário representa para si, espetador de primeira fila. 

Hoje mais do que nunca, é necessário falar do 25 de Abril. Um acontecimento histórico, ao nível dos maiores da história, e que a memória desses dias é um capital simbólico. E, falar da Democracia é pronunciar com todas as letras a revolução de 25 de abril de 1974. 

“O objetivo das forças armadas era democratizar, descolonizar e desenvolver”,  finda António Pacheco que, neste sentido, contribuiu para o desenvolvimento da democracia na função de Presidente da Junta de Freguesia de Boim, durante 10 anos, e de 1º secretário da Assembleia Municipal.

O regime democrático está em vigor desde a aprovação da Constituição da República em 1976. A transição para a Democracia estabeleceu pela primeira vez a igualdade total dos géneros, assim como várias outras leis que abriram caminho para a igualdade dos direitos cívicos, sociais e políticos. A participação das mulheres na política portuguesa foi uma das mudanças mais significativas. 

A Revolução dos Cravos foi um golpe militar. Realizada e consolidada a transição democrática, foi preciso trabalhar, pensar e lutar pela democracia. O Louzadense abordou sete cidadãos para perceber o que pensam acerca deste tema.

Foram realizadas três perguntas para dar o mote para o desenvolvimento: como caracteriza a importância da Revolução do 25 de abril de 1974, individualmente e coletivamente?; o que mudou em Portugal depois do 25 de abril?; e o dia 24 de março de 2022 marca o momento em que a democracia ultrapassa, num dia, os anos da ditadura, o que este símbolo representa na história?. 

Beatriz Meneses

  • 20 anos
  • Santo Estêvão
  • Estudante no curso de Solicitadoria e Administração
  1. A nível individual, e como mulher, vejo o 25 de Abril como sendo um marco muito importante na história do feminismo, uma vez que antes deste as mulheres ganhavam significativamente menos que os homens, apenas podiam trabalhar com a autorização do marido devendo estas viver para os maridos, e para a família, entre muitas outras injustiças. Nesta perspetiva individual o 25 de abril abriu para as mulheres um mundo novo sem restrições e baseada na igualdade. Numa perspetiva coletiva, o 25 de abril significou o fim da opressão, o fim do medo e a liberdade para toda a população.
  2. Eleições livres; voto livre; liberdade de expressão; igualdade entre homens e mulheres; criou-se um sistema nacional de saúde e entrou em vigor a constituição que temos hoje.
  3. O ultrapassar da democracia à ditadura significa uma vitória para Portugal que passou tantos anos em ditadura onde a liberdade parecia nunca chegar, no entanto a democracia que temos hoje em dia não está livre de aperfeiçoamento, é preciso continuar a trabalhar nela, continuar a trabalhar na liberdade na igualdade, fazer com que possamos celebrar mais 50 anos de democracia.
Beatriz Meneses

Micaela Santos

  • 36 anos 
  • Boim
  • Empregada de escritório
  1. A Revolução do 25 de abril de 1974 foi um evento absolutamente decisivo na história coletiva do nosso país, passando de um regime ditatorial para um regime democrático. 
  2. O 25 de abril trouxe a democracia e a liberdade a Portugal. Abriu portas ao desenvolvimento na área da saúde, da educação, na liberdade das mulheres e numa mudança de valores que perfilam o país que temos hoje. 
  3. O dia 24 de março de 2022 é o começo das comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de abril, da liberdade com Portugal. Passados 50 anos constata-se que ainda existem países no mundo com regimes ditatoriais com enorme prejuízo para a humanidade, como é o caso da Rússia. O que eu mais desejo é que estes países possam também ter o seu 25 de abril o mais rapidamente possível.
Micaela Santos

José Pinto Nogueira

  • 63 anos
  • Silvares
  • Gestor Tributário Aduaneiro
  1. A Revolução foi de extrema importância para os portugueses em geral porque lhes concedeu direitos, liberdades e garantias fundamentais que estão vertidos na lei fundamental que é a Constituição. 
  2. As mudanças foram várias e a vários níveis como o direito à associação, a possibilidade de participar na vida social e política e, para mim o principal, ter o direito de voto e escolha. 
  3. Se a democracia prevalece ao fim deste tempo é porque de facto é o melhor sistema e as pessoas sentem que vale a pena.
José Nogueira

Lígia Maria de Jesus Leite Costa

  • 42 anos
  • Nevogilde
  • Empresária
  1. A importância da Revolução do 25 de abril de 1974, a nível individual: cada um pode ter o seu ponto de vista e pode expressá-lo sem medo das represálias. No panorama coletivo: tornaram-se possíveis manifestações. 
  2. Antes do 25 de abril de 1974 não se podia dizer mal do governo, mas dizia-se mal da oposição. Depois deste acontecimento, pode dizer-se o que se quer de ambas as partes, do governo e da oposição. 
  3. A meu ver entendo que a democracia foi boa, porém, tem que ser combatida na corrupção. A fragilidade na democracia faz com que esta fique mais vulnerável e o povo perca a esperança. 
Lígia Costa

Ricardo Coelho

  • 44 anos
  • Cristelos 
  • Engenheiro
  1. O dia 25 de abril de 1974 foi um marco histórico. Perderam-se coisas e, em contrapartida, ganharam-se outras. Na minha opinião, foram mais as que se ganharam do que aquelas que se perderam, sem dúvida. 
  2. A liberdade de expressão e o facto de os cidadãos poderem escolher os seus representantes, entre outras coisas. A autonomia para sermos nós a decidir é, indubitavelmente, preciosa.
  3. O dia 24 de março de 2022 é de facto importante porque é o virar da página de mais dias de liberdade do que de opressão. 
Ricardo Coelho

Maria João Fonseca Gomes

  • 46 anos
  • Silvares
  • Empregada de escritório
  1. A revolução do 25 de abril de 1974 foi extremamente importante para as famílias portuguesas, como a maior parte da população era analfabeta existia uma grande submissão e opressão, os direitos eram diminutos para a esmagadora maioria da população. No caso das mulheres principalmente, pois eram inexistentes. A fome e a miséria eram generalizadas, e o trabalho fora de casa era visto como uma ameaça perante a sociedade e perante a família. O papel da mulher resumia-se a procriar e a respeitar a autoridade máxima exercida pelos homens. Mães solteiras não tinham qualquer proteção legal.
  2. Portugal vivia um regime de ditadura em que a liberdade estava vedada aos portugueses. Foi na madrugada de 25 de abril de 1974 que o movimento de capitães liderado por Salgueiro Maia, saiu à rua e colocou um ponto final no regime. Antes não havia eleições livres e as mulheres só podiam votar se tivessem o secundário. Agora todos os maiores de 18 podem votar. Durante a ditadura, não podia haver notícias contra o governo que controlava os jornais através da censura.
  3. Foi de fato um marco histórico os dias de liberdade ultrapassaram os dias de ditadura, é importante olhar para as conquistas de liberdade e democracia que permitiram a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Maria João Fonseca

Carla Sofia Borges Coelho 

  • 42 anos 
  • Casais 
  • Empregada têxtil 
  1. Foi muito importante porque sem a liberdade associada à democracia não podíamos crescer economicamente, social e culturalmente. E pensar num futuro. Acreditar em nós e nas nossas capacidades como povo e país. Melhorar as nossas condições de vida, apostar na formação profissional e académica para que a nossa mão de obra seja mais qualificada e competitiva. 
  2. Passamos a ter eleições livres com o direito ao voto. 
  3. Representa o símbolo mais importante para um estado de direito, a liberdade associada à democracia no nosso país. Com a conquista dessa liberdade podemos ver tudo de bom que ela trouxe ao nosso dia a dia
Carla Coelho

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