por | 22 Jun, 2022 | Louzadense com Alma

António Mário Sampaio Bessa: Amou Louzada de uma forma única

A partir de finais da década de 1970, com pouco mais de 20 anos, começou a desenvolver um gosto especial pela filmagem. Gostava de gravar em vídeo eventos desportivos, culturais (sobretudo musicais), sociais e políticos. A filmagem era uma forma de registar o seu amor por Louzada.

António Mário Sampaio Ferreira Bessa nasceu a 5 de Junho de 1957 e faleceu a 13 de Setembro de 2015, com 58 anos. Era irmão de Pedro José, Maria Teresa (Bé), Clarisse (Cinha), Cláudia e Ana Alexandra. Esta última faleceu aos 4 anos de idade, a 4 de Agosto de 1970.

A mãe, Maria Teresa da Silva Sampaio, era sobrinha de Palmira da Silva Sampaio, conceituada e muito estimada comerciante dos anos 60 e 70, na rua de Santo António (na esquina com a Rua José Teixeira da Mota). A mãe de Toni tinha ascendência espanhola, pois era filha de Valentin e Julieta Sampayo, eram de Sevilha (Espanha) e vieram para Lousada fugindo da Guerra Civil Espanhola. Maria Teresa da Silva Sampaio dava aulas como regente escolar e, para ser professora oficial, frequentava a Escola do Magistério Primário quando teve um enfarte miocárdio e faleceu, com 41 anos.

O seu marido, Joaquim Ferreira Bessa, foi um competentíssimo guarda-livros, tendo exercido essa atividade na indústria FAMO e diversas entidades públicas e firmas privadas que recorriam amiúde à sua sapiência e rigor. Faleceu a 29 de Julho de 2020, com 90 anos.

António Bessa herdou do pai o gosto pelos números e pela contabilidade, formando-se como Técnico Oficial de Contas e foi Bacharel em  Contabilidade e Administração, no ISCAP – Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto. Trabalhou sobretudo no ramo da indústria têxtil, mas também numa empresa de vinhos de Lousada.

No que ao lazer e passatempo diz respeito, foi um profundo apreciador de música rock. Filmou imensos concertos em Lousada e não só. Uma das suas primeiras filmagens deste tipo aconteceu em 1982, no festival de Vilar de Mouros, onde gravou a atuação dos U2 e dos Stranglers. Era um apaixonado por todos os géneros musicais, sobretudo heavy metal e rock sinfónico e tinha uma predileção especial pela banda alemã Rammstein e pelos finlandeses Apocalyptica, que filmou no Porto, na Casa da Música, em 12 de Outubro de 2010. Uma dessas filmagens está no seu canal do YouTube com o título APOCALYPTICA LIVE PORTO 3 – MASTER OF PUPPETS (dos Metallica).

DE CÂMARA AO OMBRO

Em termos formais, a filmagem era para António Bessa uma gravação da História que estava a acontecer no presente e registava isso em vídeo para a posteridade. Mas, numa perspetiva mais pessoal, ele filmava as emoções e paixões da sua amada Louzada. “Esta rua nunca mais vai ser a mesma”, dizia ele de câmara ao ombro, na manhã de 14 de Maio de 1996*, filmando a demolição da casa da esquina da rua S. Sebastião com a Rua de Santo António, onde foi edificado o atual edifício dos serviços municipais de Lousada.

Desde a década de 1980 até ao ano da sua morte, em 2015, foi acompanhando a evolução dos equipamentos de filmar. Começou com as grandes câmaras de fita (nos formatos VHS e Super-VHS, da JVC, e Super 8, da Sony) e terminou com a minúscula Handycam digital. Nesta área havia algo que o incomodava: o tripé. Ele reconhecia a necessidade dessa geringonça para colocar a câmara de filmar de modo a estabilizar a captação de imagem. Mas era, como ele dizia, “uma chatice e um empecilho”. Não lhe dava jeito ter que transportar e montar e desmontar e mudar de sítio, além de que ocupava espaço em sítios normalmente apinhados de gente como eram os eventos que filmava. Chegava a acontecer tropeções nos tripés. Era o cabo dos trabalhos. Até que no domingo da Festa Grande de 2010, Toni Bessa surgiu sorridente no adro da igreja, para filmar o concerto da Banda Musical de Lousada. Naquele evento estreou um monopé, que além de proporcionar estabilidade para a câmara de filmar, era uma única barra, como no nome indica e encolhia ao ponto de ficar quase do tamanho de uma caneta. Cabia no bolso. Inesquecível é o sorriso de Toni Bessa a exemplificar pela primeira vez essa utilização.

Além de concertos, Toni Bessa marcava presença frequente em eventos institucionais e acontecimentos espontâneos. Além da música, tinha como temas prediletos para apreciar e filmar, a política (principalmente comícios) e o desporto automóvel.

“ARMA SECRETA” NOS JUNIORES

O associativismo dizia-lhe muito e acreditava que o bom funcionamento das instituições era um garante da estabilidade da sociedade. Além de jogar hóquei em campo, também foi futebolista das camadas jovens do Lousada, sob orientação de António Magalhães (Xabrega), no início da década de 1970. “Embora o Toni fosse quase sempre suplente, pois não era um futebolista nato, ele era uma espécie de arma secreta da equipa, pois quando entrava normalmente marcava golos”, recorda o amigo e colega de equipa Fernando Sampaio.

Fez parte da direção da Associação Desportiva de Lousada, no mandato de 1985/86 e integrou várias direções de uma entidade que lhe era muito querida e onde viveu grande parte da sua mocidade, a Assembleia Louzadense. Nessa fase da sua vida fez fortes amizades entre as quais se conta Carlos Jorge Pinto, que fala desse amigo como “um homem bom, cheio de tranquilidade”. Recorda que “tal como eu, ele era benfiquista e , em 1999, fomos a Vigo ver o Benfica num jogo da Taça UEFA, que ficou célebre por termos perdido por 7-0 e viemos embora com uma grande deceção; ele ultrapassou isso depressa porque não era uma pessoa de muito stress

Como grande bairrista que era, devotava uma grande paixão pela Festa Grande e pelo Senhor dos Aflitos, na qual costumava instalar um bar com o nome Tarrão, designação secular desta localidade antes de se chamar Lousada. Era defensor da identidade cultural da sua terra.

António Mário Sampaio de Bessa deixou descendência no seu filho, António Joaquim Wanderlley Sampaio Bessa, à data desta edição com 15 anos de idade, para o qual foi um pai extremoso e dedicado.

DOIS SAMPAIOS A VER SUPERTRAMP EM CASCAIS

Com mesmo apelido, mas sem laços familiares, Toni e Fernando Sampaio foram amigos “desde sempre”. Como tal, tiveram aventuras e peripécias, festas e concertos, enfim vivências próprias de uma forte amizade. Um dos concertos a que assistiram nem foi combinado, encontraram-se por acaso em… Cascais, em 16 de Novembro de 1979, para ver Supertramp.

“Estávamos ambos na tropa. Eu estava em Mafra, na Escola Prática de Infantaria, e o Toni em Queluz, no Regimento de Artilharia e, sem nada combinar, encontramo-nos por acaso na entrada para o pavilhão do Dramático de Cascais, para um concerto dos Supertramp. Na altura tinham acabado de lançar o álbum espetacular Breakfast in America, que veio a ser um dos maiores sucessos da história da música”, narra Fernando Sampaio.

“A primeira memória que me ocorre desse concerto é o aperto. A organização vendeu mais bilhetes que a lotação do pavilhão e foi complicado meter toda a gente lá dentro. Ficamos numa das bancadas e o sufoco era tanto que houve gente a encavalitar-se para partir as telhas da cobertura, para o ar circular”, descreve.

“Aquela cena a acontecer, um grande stress em toda a gente e o Toni a tentar sossegar o pessoal, só dizia «Malta, malta, tenham calma, tenham calma», naquele seu estilo sereno”, recorda Fernando Sampaio.

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