por | 5 Set, 2022 | Desporto

José Magalhães – O atleta olímpico

Atleta olímpico, nasceu em 1954, em Vilar do Torno e Alentém, no concelho de Lousada. Feita a mocidade mudou-se de malas e bagagens para Alfena onde começou a dar os primeiros passos, literalmente, no atletismo. A 5 de maio de 1975 estreava-se José Magalhães, especialista na disciplina da marcha atlética, com dois jogos olímpicos realizados e vários triunfos na carreira. 

Tudo começou quando transitou para Alfena, cidade portuguesa do município de Valongo, aos 19 anos de idade. O seu pai trabalhava nas redondezas e decidiu mudar a família para junto dele. Em Vilar do Torno e Alentém, sua terra natal, já trabalhava como serralheiro e continuou o mesmo caminho, independentemente da mudança. Durante 48 anos trabalhou na mesma fábrica ligada à área do ferro onde foi subindo de cargo até se aposentar. 

“Sempre tive paixão pelo desporto”, inicia. Primeiramente, surgiu o gosto pelo ciclismo, mas nunca possuiu uma bicicleta. Anos mais tarde, o Aparecida Futebol Clube fez captações de futebol para o escalão de juniores. O lousadense iria realizá-las dada as suas valências como guarda-redes, mas devido a uma situação infeliz com um colega não as fez. 

Entretanto mudou-se para Alfena e foi convidado pelo Atlético Clube Alfenense para guarda-redes dos seniores. Todavia, durante este intervalo entre as captações participou numa prova de atletismo. Desde então, tudo mudou. “Eu achei que o atletismo se acentuava mais à minha maneira de ser e era mais individual”, afirma. 

Em boa hora começou a fazer corridas, segundo relata o próprio, e começou a tirar uns cursos de monitores. Em 1980, foi duas semanas para Coimbra tirar o curso de treinador. O atletismo é apenas uma modalidade, mas bastante complexa pois engloba 24 disciplinas olímpicas – para ambos os gêneros. “Dentro de cada um deles entendi que qualquer pessoa encaixa”, sublinha. 

José tornou-se uma pessoa mais sociável e independente graças a esta prática. “Comecei a tirar os jovens da minha idade da rua”, conta. Na altura que começou no atletismo haviam os apelidados “filhos da rua” que, infelizmente, não tinham a melhor conduta. A falta de informação não ajudava e o lousadense decidiu arrastá-los para o atletismo. 

“Foi também graças a esses miúdos que ganhei motivação”, declara. O atleta considera que foi um êxito, visto que mostravam que bem guiados eram capazes de fazer coisas boas no desporto. 

Na época, o Atlético Clube Alfenense só tinha a modalidade do futebol e José em conjunto com um colega agruparam-se ao clube. Assim sendo, formaram a secção de atletismo que ainda hoje persiste, embora de maneira bem diferente. Esta foi federada na Associação de Atletismo do Porto, mas continuaram a ser amadores. “Eu fazia o meu trabalho e depois ia treinar”, explica. 

Ao longo da entrevista, José enaltece alguns nomes. Abílio Alves foi merecedor de tal, uma vez que que acompanhou e motivou a equipa de atletismo nos primeiros tempos. Devido a questões de mudança de residência acabou por abandonar este. O lousadense com a saída foi abaixo. “Deixou-me muito pena”, reforça. 

José quando ingressou no atletismo, como referido, uma das razões foi por se tratar de um desporto mais individual. Contudo, existem duas facetas. De acordo com o próprio, as provas que mais gosta de fazer são as estafetas e nelas estão empregues o esforço individual e o trabalho coletivo. “No resultado final está o suor de todos”, afirma. 

“Marcha atlética foi a minha disciplina”, conta. Na altura que frequentou os cursos tirou 23 disciplinas e faltava a marcha atlética, logo era a que menos informações aferia. Mas a vida surpreende-nos e através desta foi a dois jogos olímpicos, porém, é preciso abordar a história até lá chegar. 

No final dos anos 80, começou-se a fazer provas de marcha. Esta disciplina já existia há mais de 100 anos, mas não era tão divulgada. Amante de integrar todas as disciplinas à feição das capacidades do atleta, assim o fez. Na época apareceu-lhe um jovem que tinha ido para ser lançador, contudo passado uma semana iria haver uma prova de marcha e José levou-o. O jovem ganhou a prova na qual participou. 

José Magalhães quando era mais novo enquanto marchador

Dado isto, como atleta e treinador, o lousadense começou a estudar e pesquisar mais sobre marcha atlética. Após dois meses da prova, deu-se o campeonato nacional e o atleta de José foi campeão nacional. Até então estava a observá-lo enquanto treinador, mas tudo mudou adiante. 

Devido à falta de condições para treinar marcha no Alfenense, o lousadense pediu ao jovem para fazer 50 minutos de marcha atlética na rua. No entanto, veio a saber que este tinha sido insultado. Dada a sua personalidade muito própria, José não se ficou e acompanhou-o nos restantes treinos onde o insulto se manteve. “Eu sei aquilo que sou e nada me afetava”, confidência.

José Magalhães no Atlético Clube Alfenense

Passados alguns anos a marcha atlética começou a ser conhecida e os insultos passaram a elogios. José participou nos 50 km e ficou em segundo lugar e, no ano seguinte, a Federação convidou-o para representar pela primeira vez a seleção. Com 35 anos, foi a um encontro internacional à Corunha. “Este evento motivou-me e comecei a fazer mais sacrifícios para treinar mais tempo”, afirma. 

Após três anos foi aos jogos olímpicos a Barcelona e aos 42 anos a Atlanta. Aos 46 anos, apesar de possuir marca para ir, a Federação receava que acontecesse alguma coisa acontecesse e devido à idade e não foi. Questionado sobre a experiência, refere que teve os dois lados da moeda. 

Devido a um episódio com um jornalista, José sentiu-se desprezado por ser atleta do Atlético Clube Alfenense. “O símbolo ao peito conta muito”, refere. Naturalmente, se fosse atleta do Benfica ou do Boavista o mesmo não se sucedia. A motivação com que ia, de imediato, desvaneceu. 

Segundo o lousadense, o tratamento é muito importante. De qualquer das formas, acredita que todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de estar nos jogos olímpicos para sentirem a união entre todos os atletas. 

No passado dia 10 de julho, domingo, foi realizada uma prova de atletismo organizada pelo Ama – Associação Macieira Atletismo em homenagem a José Magalhães. Esta deu-se na sua terra natal, Vilar do Torno e Alentém. “Deixou-me com a lágrima no olho”, conta visivelmente feliz. 

Esta adveio de conhecer Filipe Ferreira, Presidente da AMA, há dois anos e ele ter decidido surpreender o lousadense. Além deste, o Presidente de Vilar do Torno e Alentém e os primos de José marcaram presença e estiveram envolvidos na homenagem. Posto isto, agradece a todos e ao Vereador do Desporto, António Augusto Silva. José conheceu o Vereador há 6 anos numa gala do desporto em Lousada, na qualidade de vice-presidente da Associação de Atletismo do Porto. Passado meio ano desta ocorrência, foi também homenageado pela Câmara Municipal de Lousada com uma medalha de prata. No fundo, estes reconhecimentos são o que realmente importa.  

José Magalhães, vice-presidente da Associação de Atletismo do Porto

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