Sandra Silva: Uma justiceira diplomática

Ativista lousadense ajuda povos desfavorecidos 

Quando assistiu pela TV à libertação de Nelson Mandela, em 11 de Fevereiro de 1990, Sandra Patrícia Alves Lopes da Silva, começou a desenvolver aos 14 anos, um sentimento de justiça pelos oprimidos e fragilizados. Esta lousadense natural de Silvares é funcionária da ONU (Organização das Nações Unidas). Começou por exercer Psicologia em Portugal, ajudando toxicodependentes na Cadeia de Custóias, adolescentes e jovens desfavorecidos no bairro da Pasteleira (Porto).  Quando parecia que Angola seria o destino para esta ativista, deu o salto para Timor-Leste, onde contribuiu para capacitar política e socialmente o povo Maubere para o desenvolvimento. Dali seguiu para o Médio-Oriente, onde se encontra, ao serviço da OIT – Organização Internacional do Trabalho, num programa de favorecimento das medidas laborais e da proteção social dos trabalhadores e refugiados. É uma neomarxista apaixonada por causas onde há falta de justiça e direitos humanos. O seu futuro deverá passar pela ajuda a outro povo oprimido, os Palestinianos.

Os estudos foram sempre uma riqueza cultivada por Sandra Silva, que é apologista da máxima: “quanto mais estudamos mais nos capacitamos para aquilo que gostamos ou procuramos”.  Terminou o curso de Psicologia em 1998 e fez uma pós-graduação em criminologia na Faculdade de Direito do Porto. Ajudar vítimas e desprotegidos estava na sua essência e iria manifestar-se no seu percurso profissional pela vida fora.

O seu primeiro emprego foi na Cadeia de Custóias, onde esteve 5 anos e fez parte da equipa que implementou a primeira unidade prisional livre de drogas em Portugal. Ao mesmo tempo trabalhou no centro comunitário do histórico e problemático bairro portuense da Pasteleira, onde primeiro executou tarefas em part-time e depois como Coordenadora. Apaixonou-se pelo trabalho comunitário e ficou lá a tempo inteiro, na Pasteleira, para seu prejuízo financeiro, pois se continuasse em Custóias ganhava mais. 

Para melhorar o ordenado que ganhava no Centro Comunitário da Pasteleira trabalhou num programa de reabilitação da Prevenção Rodoviária Portuguesa, com condutores que cometiam infrações graves e muito graves, para a reabilitação dos mesmos. Ademais, deu consultas de Psicologia, em Lousada, na clínica de Sónia Costa, e no Porto em duas ou três outras clínicas privadas. 

Os ideais e as pessoas motivam-na mais que o dinheiro. Uma dessas pessoas foi o icónico Padre Vermelho, o reverendo portuense José Lopes Batista, fervoroso aficionado do povo timorense e ativista de causas justas por natureza.

Sandra Silva vivia como se o mundo chamasse por si. “Desde muito pequena que eu queria viajar e conhecer outros países, outros povos. Adorava voar e ir de férias para Angola, onde o meu pai trabalhava. Quando era miúda queria ser hospedeira de bordo e conhecer o mundo inteiro. Estranhamente, agora que viajo muito, cada vez tenho mais medo de voar”, conta. 

Ajuda ao povo maubere

É na Pasteleira que, por influência do presidente do Centro Social da Paróquia de Nossa Senhora da Ajuda, conhecido como o Padre Vermelho, toma contacto com a causa do povo de Timor-Leste. Posto isto, acaba por concorrer em 2006 para um trabalho com o governo daquela que era àquela data a nação mais jovem do Mundo.

“Esse incentivo aconteceu depois de uma amiga minha, a Fátima, me dizer que a embaixada de Portugal em Timor estava a anunciar vagas para um trabalho na Secretaria de Estado dos Antigos Combatentes naquela antiga colónia portuguesa”, recorda.

Concorreu e foi admitida. Segundo a própria, a sua mãe ficou em choque, porém, o seu pai nem tanto, pois estava em Angola. Apesar de tudo, Sandra abraçou o desafio e foi. “Era uma ida por nove meses e acabei por ficar onze anos. Comecei por trabalhar nos Direitos dos Antigos Combatentes, na criação de medidas de apoio à desmobilização, reintegração na vida civil, tratamento do stress pós-traumático de guerra e proteção social dos antigos combatentes e suas famílias, para ajudar na recuperação de Timor depois dos 24 anos de opressão pela Indonésia. O governo enfrentava grandes lacunas em termos de capacidade e recursos humanos, assim, procurei ajudar o mais possível”, acrescenta.

Um aspeto que favoreceu a sua integração no país do povo Maubere foi a ideologia de esquerda. Em Timor, conheceu e casou pela primeira vez com o pai da sua filha, que faleceu quando a criança tinha 11 meses. “Ele estava bem inserido na sociedade de Timor e era também uma pessoa de esquerda radical, muito bem relacionado com Xanana Gusmão e Mari Alkatiri”, declara Sandra Silva.

Sandra Silva com Xanana Gusmão/ Timor Leste, Agosto de 2011

O marido adoeceu gravemente e vieram para Portugal, onde acabou por falecer. “Na altura eu sentia que Timor era a minha casa e voltei para lá. Quando a minha filha tinha quatro anos, casei novamente com um arqueólogo, natural de Lisboa, o qual viveu e estudou na Austrália, e trabalha hoje para a UNESCO no Afeganistão”, revela.

Depois de trabalhar com o governo de Timor, Sandra Silva continuou a trabalhar para o desenvolvimento humano e económico daquela nação, através de projetos financiados pelo Banco Mundial e depois pela cooperação australiana (AUSAid). Em 2018, o seu marido foi trabalhar para o Afeganistão e ela foi para a Holanda fazer a componente curricular de um Mestrado, cuja tese (ainda) não concluiu. Entretanto, lançou-se para um doutoramento em Investigação e Prática de Políticas Públicas, na Universidade de Bath em Inglaterra. Estudar para capacitar.

Sandra Silva com o marido e a filha

O Médio Oriente é outro mundo 

Paralelamente a estas mudanças fez parte de um projeto da UNICEF, em Timor, num trabalho à distância, para melhorar o sistema de registos de nascimentos das crianças e garantir o direito universal à identidade. Após isso, em 2020, decidiu concorrer a uma iniciativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) na Jordânia, no Médio-Oriente.

“Ao longo destes anos, acabei por me afastar gradualmente da psicologia e da criminologia, para me especializar nas áreas da Proteção Social e do Desenvolvimento Humano. Na Jordânia, coordeno uma equipa que trabalha na preparação de medidas e programas para o governo da Jordânia implementar e que consistem essencialmente em incentivar o governo, as entidades empregadoras e os sindicatos a registar os trabalhadores na Segurança Social e assim garantir este que é um direito consagrado na Declaração Universal dos Direitos do Homem”, explica a ativista lousadense.

“Os países europeus investem muito neste tipo de programas naquele país e países vizinhos, não só por motivos humanitários e cívicos mas principalmente porque funcionam como um tampão à passagem de refugiados e imigrantes para a Europa”, expõe.

A paixão pelo que faz transparece facilmente no seu discurso, de que é exemplo esta declaração: “Gosto muito deste trabalho e da OIT porque é um organismo onde as decisões são tripartidas entre governos, trabalhadores e entidades empregadoras, para a criação de um diálogo social e portanto, é um mecanismo muito democrático, para a promoção e formalização do trabalho e garantia de condições de trabalho decente para todos, sem discriminação baseada no género, nacionalidade, ou qualquer outra condição”.

À primeira vista, tendo em conta o que lemos nas notícias e vemos nas televisões, pode-se pensar que o Médio-Oriente é uma área geográfica complicada para viver, sobretudo devido às guerras e ao terrorismo. Contudo, de acordo com Sandra Silva, essa interpretação está errada. “A perceção que aqui se tem deste lado do mundo é acima de tudo resultado de uma narrativa construída pelo Ocidente. A Jordânia é um país seguro para se viver com família. Eu vivo numa casa situada num bairro típico de Amã, equiparável ao Bairro Alto, em Lisboa. Saio à rua de noite com a minha filha e não sinto perigo. No Porto, moro num segundo andar e tenho que ter alarme, por causa dos assaltos. O Médio-Oriente é outro mundo. Na Jordânia, há muita tolerância entre religiões, que vivem em harmonia. A igreja católica fica mesmo ao lado da Mesquita. Eles convivem bem com as celebrações cristãs e na festa do Ramadão convidam pessoas de outras religiões. Gosto muito que a minha filha tenha oportunidade de viver tudo isto”, salienta. 

Sandra Silva

As ligações a Lousada

Aos 12 anos, a filha de Sandra é uma cidadã do mundo, com amigos de infância em Dili (Timor-Leste), Porto, Maastricht (Holanda), e as atuais melhores amigas em Amã (Jordânia). Em meados deste Julho passa férias no Algarve, com os avós e a prima. Este ano não conseguiu vir à Festa Grande de Lousada, onde guarda boas memórias de edições anteriores. Sem atender à sobreposição de datas, os pais marcaram-lhe um campo de férias nos Pirenéus, num centro hípico internacional. O hipismo é uma das suas atividades prediletas.

“À medida que a vida avança vou perdendo algumas ligações a Lousada, mas as mais fortes ficam, como a família e as minhas amigas de infância e de faculdade. Gosto muito da Festa Grande, que procuro nunca perder. Quando vivia no Porto, também tinha por hábito tentar vir cá no Dia de Todos os Santos, que é sempre um momento de espiritualidade e de reencontro”, revela a lousadense.

Sandra Silva com a irmã nas Farturas Armando na Festa Grande de Lousada de 2019

Assume-se como pessoa metódica e organizada, “talvez em demasia, segundo alguns, mas em contrapartida, uma das coisas que mais gosto na vida é a imprevisibilidade do surgimento de novas possibilidades”, justifica. 

Isto remete para a questão sobre o seu futuro imediato, na qual afirma que ainda não tem uma decisão tomada. “Estou a estudar uma proposta para continuar na Jordânia, mas a trabalhar num outro projeto muito aliciante que consiste em apoiar os refugiados da Palestina, no âmbito do tipo humanitário”, afirma. Além do mais, considera que fazer carreira na estrutura funcional da ONU, até atingir o sossego hierárquico dos headquarters ou gabinetes de comando na Europa ou Estados Unidos, não é necessariamente o seu objetivo. Desta forma, “estou muito tentada em aceitar esta proposta porque sou uma apaixonada pela causa palestiniana e além de tudo o mais considero que o mundo é tão grande e a vida tão pequena”, conclui. 

Sandra Silva

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