Francisco Xavier Pires: O cidadão curioso e introspetivo

Residente e natural de Silvares, Francisco Xavier Teixeira Pires, carrega um trajeto marcado também por outras freguesias ao longo do país. Com 59 anos de idade, é pai de três filhos e avô de dois netos. Ao longo da sua vida, exerceu alguns papéis como: sindicalista da CGTP e vereador do CDU. Conheça este cidadão que não se contenta com o imposto e, de todo, vai atrás do rebanho. 

Francisco Xavier é funcionário da Ascendi, operadora de infraestruturas de transporte em Portugal, e desempenha o cargo de supervisor de portagens. 

“A minha família era dotada de um catolicismo muito exacerbado, aliás, quase um fanatismo”, principia acerca da interrogação sobre os seus primeiros tempos de vida. Neste sentido, a sua educação seguiu o caminho da fé, tendo parentes párocos e freiras. O cidadão conta que o facto de ser filho único fez com que não tivesse ninguém para dialogar e demonstrar o seu contentamento descontente, passando a expressão. 

A sua curiosidade e inquietação perante tal situação manifestou-se cedo e questionou o porquê de tal motivação desregulada para a igreja católica. Pergunta esta retórica, na medida em que estimulava a sua reflexão. 

“Nunca compreendi”, afirma. Ainda criança saiu de Lousada pois o seu progenitor era diretor de futebol e devido a complicações financeiras mudou-se para o Porto, a fim de fazer face aos compromissos. Nesta altura, os seus pais colocaram-no no Colégio São João de Deus e este sentiu uma tamanha clausura que após uma semana saiu. 

Entretanto, foi para uma escola do estado e começou a sentir-se um pouco melhor, mas não de todo, na medida em que a igreja católica estava presente em todos os cantos. “Em todas as salas de aula havia uma fotografia de Salazar e Marcello Caetano”, conta. Segundo o próprio, a religião e a política estão inteiramente interligadas. 

Nesta época, não exercia consciência política mas como uma criança curiosa o interesse despertou e empenhou-se para entender qual a mensagem que a fotografia pretendia transmitir. A seguir ao 4º ano, findo o ensino básico, foi colocado num Seminário em Gaia e tal era a sua revolta que no primeiro dia fugiu e o seu progenitor encontrou-o no tabuleiro superior da Ponte Dom Luís. “Era uma prisão, era uma obrigação”, sublinha. 

Devido ao fanatismo da sua família tornou-se ateu. Foi Deus que criou o homem ou o homem que criou Deus? Eis a questão que coloca. “Cada pessoa tem a sua conceção, mas na minha opinião Deus existe para manter as hostes”, sublinha. 

A revolução do 25 de abril foi também abordada ao longo da conversa, na medida em que o lousadense viveu de perto muitos episódios. “Eu vivi muitas situações da revolução que serviram de catalisador para o meu despertar”, reforça. 

Quando residiu no Porto a sua habitação situava-se em frente à sede da PIDE e, muitas vezes, questionava os seus pais sobre o porquê de certos e determinados ambientes. Novamente, a curiosidade estava presente. 

“Houve uma altura em que o meu pai necessitou de recorrer a um advogado e eu fui com ele. No escritório encontrei o Dr. Arnaldo Mesquita bastante maltratado, cheio de hematomas na cara e sem unhas. Com apenas 8 anos, ao ver o estado dele, perguntei-lhe com receio o que tinha acontecido e ele não me respondeu nada em específico”, conta. Após o 25 de abril, o lousadense soube que este tinha sido preso e torturado pela PIDE. 

A partir desse momento, o seu comunismo despertou perante tal desumanidade. De acordo com o próprio, Karl Marx é a sua referência. Contudo, todos os episódios foram vivenciados enquanto morava no Porto e quando regressou a Lousada, depois da revolução, sentiu uma indiferença e falta de conhecimento da maioria das pessoas. 

Anos mais tarde, foi convidado para ser militante do Partido Comunista Português mas os seus pais não souberam devido ao estigma e preconceito da religião. “Antigamente, muita gente ia perguntar aos padres em quem votar. Além disso, só podia ler um livro depois do padre dar autorização”, declara evidenciando o respeito da sua família para com a igreja católica. 

Apesar de tudo, aceitou o convite. Para mais, o seu pai também pertencia a outra força política o que fazia com que fosse mais difícil expor as suas ideologias. Desta forma, para não entrar em conflito tornou-se militante do PSD e do partido ao qual pertencia o progenitor.  

À medida do tempo, os seus pais foram aceitando. “Há tantos interesses no meio político”, realça. Nesta sequência, aborda um livro seu que retrata bem a força política do concelho de Lousada, conforme o próprio. 

Antes da reorganização administrativa, pertenceu à assembleia municipal de 2009 a 2014 eleito pela CDU. “Foi uma experiência interessante e acredito que contribui bastante, além de ter ganho amizades”, salienta. Em 2014, aquando das novas eleições, deixou o seu papel, pois a reorganização administrativa impôs que a assembleia tivesse menos elementos. 

“Nós só podemos ter consciência política após termos consciência de classe”, afirma. A finalizar o tópico, Francisco Xavier acredita que existe falta de literacia e apoio em casa neste aspeto pois valoriza-se mais o preço do que propriamente a coisa. 

O lousadense trabalha na Brisa e aquando da assinatura do contrato perguntaram-lhe a qual sindicato queria pertencer. “Apesar da surpresa, de imediato, respondi que era à CGTP porque é quem defende intrinsecamente os interesses dos trabalhadores”, salienta. Em 1999, foi dirigente sindical e no momento em que a Brisa foi vendida às parcelas por decreto do governo, insurgiu-se. 

“A privatização para o povo e para as classes operárias não é nada favorável e então tive à frente de tudo”, afirma. O lousadense foi o primeiro a dar a cara, a fazer greves e a chamar a comunicação social. De acordo com o próprio, a “luta” não dá logo frutos e é necessário ser persistente para se chegar a um bom porto. Ademais, refere a importância da não resignação, porém, sempre mantendo o máximo respeito pelos outros. 

“É preciso ter coragem para ser sindicalista”, declara. Esta deve sarar e suplantar o medo para que depois haja um orgulho pelo feito. Segundo o próprio, nunca sofreu represálias pelo seu papel e sempre que chega à sede da empresa é recebido afavelmente. 

“Acho que toda a gente deve fazer um bocadinho para uma sociedade melhor e esse é o meu intuito. Eu não tenho medo daqueles que demonstram ser contra mim, mas sim dos que estão calados”, finaliza Francisco Xavier Pires.

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