por | 22 Fev, 2023 | Sociedade

Os perigos do vício do telemóvel: Há professores, analistas e psicólogos preocupados

A adição provocada pelo uso excessivo do telemóvel está a transformar as pessoas, as relações interpessoais e a sociedade avançada. Docentes e especialistas em ciências sociais dizem a O Louzadense que é urgente tomar medidas. Um sintoma do vício ou utilização excessiva é a Nomofobia ou medo de ficar sem o telemóvel, sem rede telefónica ou internet. É um termo muito recente e tem origem na expressão inglesa No-Mobile, que significa “sem telemóvel”.

A socialização está em acelerada mudança por causa do telemóvel, que tem tanto de bom como de nefasto. Em Lousada ou noutra localidade, quando entramos num bar escuro o que normalmente sobressai são os rostos iluminados pela luz que sai dos ecrãs dos telemóveis. O dono de um desses locais cansou-se da falta de convívio dos clientes e colocou um letreiro dizendo “Não temos Wi-Fi. Conversem entre vocês.”

O uso intenso e excessivo do telemóvel está a modificar a comunicação e o modo de vida das pessoas. Através das aplicações de comunicação, de trabalho (e-mail), bancárias, recreativas (jogos) e muitas outras apps, o telemóvel comporta múltiplas vertentes da vida quotidiana, de tal forma que são cada vez mais aqueles que não vivem sem ele. É quase como se o mundo e a vida pessoal se confinassem a esse aparelho.

Muitos de nós já vivenciamos desconforto ou pânico, por falta ou risco de ficar sem bateria no telemóvel e não ter um carregador ou corrente elétrica para o ligar. Nem sempre isso é justificado por uma necessidade urgente de estar ligado com  pessoas ou entidades. Muitas vezes estar sem telemóvel provoca uma sensação de ausência, de  estar incontactável, de estar de fora, impedido, não estar em sintonia. A isso chama-se Nomofobia e é a mais recente doença do comportamento humano.

ENCONTRAR O EQUILÍBRIO

A professora do ensino básico Sónia Oliveira entende que os telemóveis têm “cada vez mais funcionalidades, proporcionando-nos inúmeros benefícios ao tornar a comunicação mais rápida e otimizada”, mas também “com redes sociais que nos prendem horas aos pequenos ecrãs até se tornarem realmente viciantes”.

“Nas crianças e jovens, essa dependência e uso excessivo dos dispositivos móveis, pode criar problemas de saúde e complicações de âmbito social, podemos até chegar ao uso abusivo que provocará (em extremo) transtornos psíquicos como ansiedade ou depressão, provenientes do Cyberbullying, por exemplo”, acrescenta.

Esta docente e coordenadora escolar alerta que “são os jovens e os adolescentes que têm maior suscetibilidade de desenvolver problemas relacionados com a dependência dos telemóveis, devido à sua falta de maturidade cerebral”.

Sónia Oliveira salienta que as relações familiares e o diálogo em família são fortemente afetados. E chama a atenção para o isolamento social, a agressividade e baixo rendimento escolar, que são indicativos de problemas e merecem uma atenção especial. “Temos cada vez mais mais crianças e adolescentes com problemas de atenção, memória e capacidade de concentração. Já para não falar na falta de atividade física inerente ao uso do telemóvel, como um grande facilitador da obesidade. É urgente encontrar um equilíbrio para que possamos usufruir dos benefícios da tecnologia, minimizando os prejuízos”, conclui Sónia Oliveira.

Sónia Oliveira

PROBLEMAS FÍSICOS E PSÍQUICOS

A especialista em assuntos psíquicos e sociais, Magda Santos, da Ellus Saúde, considera que “hoje em dia aparecem patologias de índole sócio-emocional, como isolamento, distanciamento da vida real, das relações familiares e problemas em gerir as emoções. As pessoas prendem-se a uma vida digital e esquecem-se da vida real, deixando de investir o seu tempo de lazer em atividades com amigos e família”.

Madga Santos crê que “os problemas psicológicos mais  encontrados em jovens e adultos  que abusam de telemóveis são a depressão, irritabilidade, isolamento, ansiedade e impulsividade. Frequentemente apresentam também  problemas físicos relacionados com posturas viciosas dos utilizadores, como dores cervicais, devido à postura do pescoço para baixo, problemas oculares devido ao excesso de exposição à luz, tal como inflamações e infeções. A falta de atividade física inerente ao uso do telemóvel é prejudicial à saúde física e um grande facilitador da obesidade”.

Questionada sobre o que fazer para lidar com este problema, a especialista afirma que “na infância, recomenda-se que o uso destes dispositivos seja restrito a 2 horas por dia e que esse período não seja antes de dormir. A recomendação das entidades médicas é que as crianças não tenham contacto com os ecrãs até completarem dois anos. Entre 3 e 7 anos não devem jogar ou brincar no telemóvel por mais de 30 minutos por dia e sempre com a supervisão de um adulto. As mudanças de comportamento dos adolescentes (isolamento social, agressividade e baixo rendimento escolar) são indicativos de problemas e merecem uma atenção especial”.

Em jeito de síntese, Magda Santos afirma que “como fuga aos problemas da vida quotidiana deixa-se de viver a realidade para facilmente nos prendermos a um ecrã. Ainda precisamos de encontrar o equilíbrio para que possamos usufruir dos benefícios da tecnologia, minimizando os prejuízos”.

Magda Santos

Um telefone preso à parede

Marina Caldeira (psicóloga)

Do nada, o telemóvel enche-se de informação, que nos mantém lá, mais e mais tempo, até deixarmos de ser, de estar, de sentir e ninguém se apercebeu, pois já não conseguimos desviar a cabeça para olhar verdadeiramente o mundo. Informação importante ou não, verdadeira ou não, que nos alimenta a alma ou não, mas deixamos de filtrar, alimentando-nos de tudo o que nos servem.

Começou a interessar mostrar e não viver. O querer ser igual ao outro que mostra mais. E o refletir, o sentir? Ninguém sabe, ficaram algures perdidos nos filtros que acrescentam para embelezar ainda mais o mundo faz de conta.

Assim se vive muito com as novas tecnologias, com amigos de jogos, fotos filtradas, informações estranhas, famosos em cinco segundos, auto estima pesada por gostos. E nós, onde ficamos? Ficamos perdidos no vazio da solidão, rodeada de vazio de informação que não nos faz seres humanos.

Quanto tempo passas com o telemóvel na mão? Há quanto tempo não te ouves? Há quanto tempo não vês o mundo e os teus, sem mais nada na mão, para além da natureza na sinfonia do que somos? Mas, mais importante de tudo, quando deixamos de pensar por nós, para passarmos a pensar o que nos dizem? Será preciso muito mais, para refletirmos sobre os riscos que corremos na perda de uma vida que é nossa e nos foi arrancada por uma promessa estudada para nos manter em cativeiro? E, assim, vai o ser humano, preso, numa gaiola aberta, dependente, sem se aperceber do que realmente o que faz crescer: o seu pensamento. É preciso prender novamente o telefone à parede?

Marina Caldeira

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

​Inferno das Febras revela distribuição das bandas e coloca à venda bilhetes diários

A ​organização do Inferno das Febras divulgou a distribuição das bandas pelos dois dias do...

PSD exige maior transparência na contratação pública municipal

NOTA DE IMPRENSA DO PSD/Lousada O PSD Lousada questionou no passado dia 6, o Executivo Municipal...

Paulo Alberto reforça liderança do Nacional de Supercross em Lustosa

O Complexo Desportivo Voltas e Rodas, em Lustosa, concelho de Lousada, recebeu mais uma jornada do...

Concerto da Banda de Música de Lousada na abertura da Festa Grande de 2026

Crónica de J. C. Carvalheiras Acerca do concerto da Banda de Música de Lousada (BML), começo pelo...

Lustosa: Quando o Futuro Começa por Acreditar nas Pessoas

Há terras que carregam o tempo como um peso. E há terras que o transformam em esperança. Lustosa...

Fake ou Facto? Aprender a verificar informação

Vivemos numa era em que distinguir factos de ficção se torna cada vez mais difícil. Todos os dias...

SUPERCROSS NA NOITE DE SÁBADO EM LUSTOSA

As grandes emoções do Supercross vão concentrar-se em Lustosa (Lousada) no próximo 18 de julho de...

O DIA EM QUE DEIXÁMOS DE EDUCAR CRIANÇAS E COMEÇAMOS A EDUCAR MÁSCARAS.

"Há adultos que, em crianças, nunca foram insultados. Nunca foram espancados. Nunca passaram fome....

PSD Lousada desafia Câmara Municipal a aproveitar financiamento europeu para criar mais habitação social

O PSD Lousada considera que o novo financiamento europeu para habitação social representa uma...

“O verdadeiro problema não é jurídico. É a injustiça no tratamento das freguesias”, ripostou o PSD Lousada.

Em comunicado enviado à nossa Redação, o PSD Lousada "regista o esclarecimento prestado pelo...

Siga-nos nas redes sociais