por | 25 Abr, 2023 | Cultura, Uncategorized

Um olhar feminino sobre o 25 de abril

NEM TUDO FOI (AINDA) CUMPRIDO

Até 25 de Abril de 1974 as mulheres foram bastante desconsideradas apela ditadura tradicionalista e preconceituosa que vigorou em Portugal e atacou muitos dos direitos e desejos femininos. Durante quase toda a ditadura a mulher precisou de autorização do marido para viajar para o estrangeiro. Mas a implantação do regime democrático na Revolução dos Cravos trouxe esperança para o universo feminino, que depressa conquistou várias liberdades e garantias.

Em 1974, foram abolidas as “atenuantes especiais para o crime de homicídio cometido pelo marido contra a esposa adúltera”. A 12 de julho de 1974, a mulher foi admitida na magistratura e nos serviços diplomáticos. A Constituição de 1976 definiu que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei”, pondo fim à definição do homem como “chefe da família” e à subsequente obediência da mulher. Para além disso, determinou que “os conjugues têm iguais direitos quanto à capacidade civil e à manutenção e educação dos filhos”. Em 1984, foi aprovada a primeira lei que descriminalizou o aborto em determinadas condições. O aborto foi legalizado mais tarde, em 2007. Atualmente, a população trabalhadora está dividida de forma mais ou menos igual entre homens e mulheres, contrariamente ao cenário que se observava em 1974, em que apenas cerca de 20% dos trabalhadores eram mulheres.

“UM SILÊNCIO ANORMAL INSTALOU-SE” – ISABEL COELHO

Por tudo isso e muito mais, esta foi uma data de boa memória para as mulheres em geral. Disso dá conta Isabel Coelho, uma lousadense dirigente na Comissão de Coordenação da Região do Algarve: “Era uma criança quando se deu a revolução do 25 de abril. As memórias ficaram gravadas, porque recordo a aflição da minha mãe e avó materna quando se aperceberam que o meu pai tinha ficado retido no Porto, mais precisamente, na Avenida dos Aliados. Dizia a minha mãe, angustiada: Não sei se o vosso pai volta! E, entretanto, corriam as notícias de que a revolução tinha começado em Lisboa e mais cidades não escapariam à ação das forças militares, nomeadamente o Porto”.

Recorda que “na Rua Visconde de Alentém, onde residia, não havia movimento; um silêncio anormal instalou-se na vizinhança, porque certamente receavam andar na rua ou, talvez, estivessem focados nas notícias”, que chegavam pela rádio.

Já ia alta a noite quando “finalmente, o meu pai regressou são e salvo e contou o que tinha visto. Sinceramente, não dei importância ao relato, porque o mais importante era ver que o meu pai estava bem. Só uns anos mais tarde, já mais madura, percebi quão importante foi este dia!”, exclama Isabel Coelho.

“ABRIL NÃO CUMPRIU A IGUALDADE EM PLENO” – ARMANDA MONTEIRO

Uma das primeiras mulheres na Assembleia Municipal de Lousada foi Armanda Monteiro, de Lustosa. Essa foi uma das condições que a revolução permitiu: a entrada da mulher na política e esta senhora foi um exemplo. Para esta democrata “é sempre com entusiasmo que recordo o 25 de Abril, mas também com alguma apreensão pois me questiono se as gerações mais novas compreendem verdadeiramente o que se passou”.

Está convicta da realização dos dois primeiros propósitos da Revolução (descolonizar e democratizar), mas “o desenvolvimento, sobretudo social, ficou aquém do desejado”. E salienta que “a desigualdade é manifesta” a vários níveis. A antiga professora guarda as más memórias “das dificuldades de ensinar, sem aquecimento nem materiais pedagógicos” e dos “muitos alunos descalços e sem agasalhos, como se estivéssemos num país do Terceiro Mundo”.

Por isso, Armanda Monteiro diz que “é importante quem não viveu naquela época saiba as privações que foram passadas por muitos e muitas”. Para esta antiga deputada municipal, “Abril valeu a pena”, apesar da desigualdade social, económica e de género.

“…HAVIA PESSOAS CANTANDO” – ROSA SANTOS

A professora ROSA SANTOS lembra-se dos programas da televisão e da rádio, “que falavam constantemente na revolução, algo que, na altura, não me fazia sentido, porque eu achava que a palavra revolução significaria guerra e eu não via onde estava a dita”.

As canções “principalmente a Grândola e a Gaivota” que estavam presentes nos passeios de família “e em qualquer canto havia grupos de pessoas cantando”. Cantar temas sobre a liberdade foi uma das maiores conquistas de Abril, pois eram amplamente reprimidas pela ditadura.

Um aspeto marcante foi o regresso de pessoas das ex-colónias. “Em Outubro de 1974 entrei no primeiro ano da escola primária; usava bata branca e tinha crianças na minha classe, ditas retornadas, e a minha professora Rosa Valinhas, incumbiu-me de ser a professora de uma menina que não falava português; pois eu já sabia ler, escrever, a tabuada e fazer contas”. Ainda hoje sou grata por ter tido uma professora que não me deixou cair no tédio e desmotivação. Nos primeiros dias de escola, a minha expetativa desmoronou quando senti que estava ali a fazer nada, por já saber tudo que a professora ensinava à turma. Ainda no primeiro ano decidi «um dia, quero ser como a minha professora», e assim foi”. Este foi o 25 de Abril de Rosa, que continuou a transmitir a outras gerações os valores da liberdade e da realização pessoal da mulher.

“TODOS OS DIAS SÃO DE ABRIL” – RUTE CUNHA

A animadora cultural RUTE CUNHA, embora não tendo vivenciado a ocasião, enaltece o fim da ditadura, onde “ser Mãe extremosa, esposa dedicada, uma verdadeira fada do lar, era o modelo feminino do Estado Novo. Submissão era a palavra de ordem e o futuro tão bom quanto um bom casamento. A ordem social imposta não podia ser questionada e todos os sinais de feminismo seriam silenciados. Na ideologia salazarista, os direitos eram coisa de alguns e os das mulheres praticamente nenhuns. Não podiam votar. Não podiam ter profissões conotadas como masculinas e para quase tudo era preciso autorização do marido. As desigualdades eram evidentes, no trabalho, na família, na saúde sexual e reprodutiva e nos direitos cívicos e políticos”.

Mas eis que se fez Abril “e com ele, este papel até então forçosamente desempenhado foi rasgado por aquela madrugada. Um ano depois da revolução, os direitos das mulheres ficaram consagrados na Constituição da República e um mundo novo surgiu. Abril, que é de todos, fez-se no feminino, nas flores, na música, na poesia, na força que só quem é mulher sabe ter. Abril fez-se e continua a fazer-se a cada papel assumido, a cada liberdade conquistada. Abril foi esperança e todos os dias são de abril”, exclama esta lousadense.

“EU ADMIRAVA O GENERAL HUMBERTO DELGADO” – MARIA JOSÉ CARVALHO

Muito conhecida por ser apoiante dos princípios democráticos, MARIA JOSÉ CARVALHO (mais conhecida por Miquinhas do Armador) teve um gosto muito especial pelo 25 de Abril. O seu pai foi um comerciante de renome nas décadas de 1950 e 1960 e destacou-se como opositor ao regime fascista. “O meu pai tinha uma mercearia. Esteve preso por causa da política do Salazar, foi perseguido pela PIDE e esteve preso. O administrador do concelho era o Tenente de Malafaia e fui com o meu avô falar com ele. Eu tinha 9 ou 10 anos. Ele atendeu-me e o meu pai foi libertado”, contou, numa entrevista que concedeu recentemente ao O Louzadense (e que publicaremos em breve).

A política foi algo mais ou menos constante na sua família. “No tempo da ditadura eu admirava o general Humberto Delgado e mais tarde, já na democracia, o Mário Soares. Na política local admirei sempre o Sr. Henrique Leite, da Quinta da Tapada. Sou do partido socialista. Mas a política está podre, desacreditei tanto nela que a política acabou para mim, por causa destes julgamentos e suspeitas todas”, declara.

A Celeste dos cravos

Em 1974 a desconhecida Celeste Caeiro trabalhava num restaurante em Lisboa e haveria de ser ela, por acaso, a responsável pelo nome “Revolução dos Cravos”. O restaurante, inaugurado a 25 de Abril de 1973, fazia um ano de abertura nesse dia, e os donos planearam oferecer flores para dar às senhoras e um Porto aos homens. Como estava a decorrer o golpe de estado, o restaurante não abriu. A gerente disse aos funcionários para voltarem para casa e deu-lhes os cravos para levarem consigo, já que não poderiam ser distribuídos pelas clientes.

Ao regressar a casa, Celeste deparou-se com os tanques dos revolucionários. Aproximando-se de um dos tanques, perguntou o que se passava, ao que um soldado lhe respondeu Nós vamos para o Carmo para deter o Marcelo Caetano. Isto é uma revolução!. O soldado pediu-lhe, ainda, um cigarro, mas Celeste não tinha nenhum. Deu-lhes as únicas coisas que tinha para lhes dar: os cravos. O soldado aceitou e pôs a flor no cano da espingarda. Celeste foi dando cravos aos soldados que ia encontrando, desde o Chiado até à Igreja dos Mártires. Depois do seu gesto, Celeste foi chamada Celeste dos cravos.

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