por | 13 Out, 2023 | A. Marques Pacheco, Opinião

QUEM SOU EU? – Autobiografia de António Marques Pacheco

Inauguramos uma colaboração de António Marques Pacheco com a publicação inédita da sua autobiografia. António Marques Pacheco foi capa da edição n.º 62 d’ O Louzadense e, nessa edição, confessou o “desejo de colorir a vida semeando amor”. A sua autobiografia, aqui publicada, é muito mais do que uma partilha. Como o próprio diz: “a paixão pela partilha foi que “esculpiu” todo o meu engenho. O caminho que a luz é do pensamento e o calor do coração abriram de muito longe. É mais antigo do que a minha carne, e do que as fracas roupas da minha indumentária que vou vestindo. Contudo nada poderia correr melhor do que aquilo que Deus quis. É assim que sou feliz.”

Onde pode acolher-se um fraco humano?

Onde terá segura a curta vida?

Que não se arme e se indigne o céu sereno.

Contra um bicho da terra tão pequeno.

A minha Autobiografia não é um romance. Nasci, como um pé de milho, no lugar de Lourosa, freguesia de Sousela, concelho de Lousada. Não coube no berço onde pela primeira vez, abri os olhos à luz do dia. Ao fim de um ano, transpus as fronteiras da freguesia, ao colo de meus pais, para fixar residência no lugar de Fundões, freguesia da Ordem, do mesmo concelho. Aí, permaneci durante doze anos, correndo para a escola, para a catequese, para o monte e para o campo, transportando toneladas de “redolho”, comendo, com alguma consternação, o pão que o diabo amassou. Após o exame da 4ª classe, ouvi da minha saudosa professora D. Guilhermina Barbosa, que não devia ficar por aqui. Dotado de alguma ambição, senti que o destino que preliminarmente ali me plantou, bem depressa me arrancou, para nunca mais mergulhar em profundas raízes em qualquer espaço do ambiente familiar. 

Aos treze anos ingressei na Escola Claustral do Mosteiro de Singeverga (Santo Tirso), através de um rigoroso exame de admissão. Nunca tive a tendência de criar em torno de mim, um mundo fictício, renunciei sempre a ser mediocremente versátil… No âmbito da fé e da política, cultivei, desde muito novo, o “homem de um só rosto e de uma só fé” – carismática bonomia que me valeu muitos dissabores, mas também excelentes, sumptuosas e compensadoras alegrias. 

Após os estudos preparatórios que decorreram vestindo-me de êxito, ingressei no triénio da Filosofia, seguido do quadriénio da Teologia exigidos para a licenciatura ou Curso Superior dos Seminários Maiores. Terminado o Curso, em 1963 os Superiores do Seminário convencionaram que os quatro finalistas que éramos, frequentassem, a Universidade Pontifícia de Salamanca (Espanha), cada um na sua especialidade académica. Nessa perspetiva, optei deliberadamente, com a maior satisfação pelo aperfeiçoamento em “Pedagogia, Sociologia e Liturgia sintonizadas com o meu lema que havia de equacionar a minha Carreira de Professor com a eloquente máxima de “ensinar aprendendo e aprender ensinado” que haveria de marcar a minha futura “Carreira de Professor”. Com a animação que sempre me assiste, aí aprendi a objetivar e consubstanciar a vida, abrindo janelas que potenciassem a concretização do meu sonhado ideal, crescendo por dentro e por fora. 

Em 1967, obedecendo fielmente às determinações lançadas pelo Ministério do Exército, fui inesperadamente requisitado para frequentar, na categoria de Aspirante, o Curso de Ambientação Militar, na Academia Militar “Gomes Freire” ((Lisboa). Aceitei com agrado. Promovido a Alferes Miliciano, no final do curso, fui colocado na “Unidade de Cavalaria 7, em Belém/Lisboa fui integrado no Batalhão de Cavalaria 1928, destinado a partir para Angola “Terras de Moxico/Cangamba em dezembro de 1968. Aí aproveitei as horas de lazer para valorizar uma parte do programa dos meus sonhos “ensinar aprendendo e aprender ensinando” Foi assim que moralizado, preparei setenta a cinco militares, para o exame da 4ª classe que ainda não possuíam. Esta foi uma das atividades que honrou a minha modéstia e consolidou algumas das componentes da minha sonhada vocação. Com quanto isso, fui confrontado com as múltiplas e diversificadas exigências do Gabinete de Ação Psicológica: Assumi e esforcei-me por desempenhar com esmero e primorosamente, como aliás era meu dever, todas as atividades inerentes à função de um assistente de “moral e educação cívica: elaboração da Folha da Unidade “O Ginete”, O programa “Sentinelas da Pátria, na Rádio Clube do Lobito, Ações de Beneficência, junto das populações; etc. Curiosamente De entre outras atividades, não posso esquecer a “Célebre Eucarística, em Ritmo Moderno, acompanhada pelo conjunto musical “Gémeos VI” de Benguela; paradoxalmente “tão elogiada, tão festejada, tão divulgada; mas “episcopalmente” censurada e recriminada pelo Bispo de Nova Lisboa que me queria “castigar” se ela não fosse calorosamente “tão louvada e bem aceite por civis e Chefias Militares.

Já na disponibilidade, em 1970, no âmbito da História da Arte e da Cultura em Geral, foi-me autorizada uma inédita digressão que me propiciou visitar 36 mosteiros beneditinos espalhados por toda a Europa, designadamente Espanha, França, Itália, Áustria, Alemanha, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Entre eles saliento Áustria onde, como por uma espécie de permuta, escolhi o de Kremsmister Stift, que, por ser excelentemente solidário, repousante e familiar, aproveitei para estudar a língua alemã.

Após o regresso, em outubro do mesmo ano, integrei o corpo docente, como professor de Português e Francês, acumulando com o subtil apoio ao bibliotecário, Professor D. José Mattoso, então Prior do Mosteiro. Mercê de algumas incompatibilidades, em 1972, convidado pelo Dr. Aurélio, proprietário e diretor do Colégio “Delfim Ferreira” (Ribad’ave), lecionei Filosofia aos alunos do 6º e 7º anos, acumulando com a “docência” da disciplina do Português, no Externato Eça de Queirós, em Lousada. Em junho do mesmo ano, solicitado para presidir ao exame do 5º ano de português, aceitei o convite da Reitora para integrar o corpo docente como professor de Português. Em 1977, quando me preparava para prosseguir no 1º ano de Direito, fui convidado pelo Ministério da Agricultura (Ministro António Barreto) para “Coordenar o Ensino na Escola de Pesca”, criada em 1970, mas fechada por falta de “quórum adequado”. Então, quase abruptamente, todas estas encapeladas ondas perpetraram ou potenciaram o “advento” de uma vida há muito sonhada, mas arrostada por atávicas dissensões com os “sacrílegos gigantes da Pedagogia”(!). Contudo, como nas tendências da arte que mudam os artistas, assim acontece com os ideais e sonhos dos homens de fé. Consolidei a ideia de procurar um caminho onde nem o homem fosse traído, nem o artista que eu não era, fosse negado. Era a ânsia de retratar o meu pulsar, sobre o homem, o mundo e a vida. Trabalhei naquela Escola durante vinte e três anos Durante vinte e três anos, sob o pedagógico lema “ensinar aprendendo e aprender ensinando” – lema que aprofundei e intensifiquei com as atividades de Representação e Cooperação das visitas à Guiné, Cabo Verde, Espanha, Reino Unido, amplamente consubstanciadas pelas jornadas pedagógicas realizadas em Lisboa, Sevilha, Ilhas de S. Miguel e Faial; sem esquecer os relevantes Simpósio a Chefe de Divisão, os Congressos, Seminários e Feiras de Casa Blanca (Marrocos) e Exponorte (Matozinhos). Em 1988-1989, fui promovido a Chefe de Divisão. Como tal, representei a Direção, acompanhando um grupo de professores ao “Iberion Course of Ficheries ministrado no Emberside College (Em Hall) Reino Unido. Aí aproveitei para participar no próprio Curso. Foi apenas mais um “Diploma” que deve provar o “bom saber” e nunca o orgulhoso “exibir e o enaltecer”. Em ‘’1994-1995 – por incumbência do Diretor da Escola, elaborei dois Manuais “a NOBREZA DA EXPRESSÃO “I E II”, adequados aos Cursos de Mestres e Contramestres da Marinha de Pesca. Em 1999, considerei que era a ocasião mais oportuna, para pedir a minha aposentação. E assim o fiz; já com a perspetiva de publicar o livro “LOGOTERAPIA COM(M)VIDA, patrocinado pela Câmara Municipal de Lousada. 

Finalmente, submeti-me ao apelo dos meus já raros cabelos brancos, regados pelos “ainda fragrantes oitenta anos”, qual cético a pesquisar a verdade daquilo em que desejo acreditar, vou fruindo de tudo o que antes, a escassez de tempo me não permitia – “dialogar com a natureza, escrever e partilhar com “TODOS”, os valores que a vida me vem oferecendo. Ou melhor; sem querer “vegetar monasticamente”, vou manejando duas enxadas: Uma, metálica, para cuidar do meu jardim, horta e pomar. Outra, “eletrónica” que potencie e favoreça a eloquência e a faculdade de, no recôndito cantinho do meu escritório, produzir alguns “sopros do pensamento”, ordenados com algumas ideias, quer na linha da “literariedade”, quer no âmbito social, quer no próprio domínio da vivência da fé que procuro consubstanciar e partilhar com os jornais “O LOUZADENSE” e “TRIBUNA PACENSE”; sem de forma alguma esquecer as comunidades em que estou cordialmente integrado. 

Se não fosse a “longevidade dos meus oitenta e cinco anos, a minha coragem, paciência e amor à Palavra ainda poderiam oferecer ao “Público” “Murmúrios de um Coração com Horizontes de vida em Plenitude”. Não sendo uma obra extensa, de ação complexa, nem uma erudita epopeia ou romance; contudo, é, permitam-me a expressão um ”breviário” de nobilíssima dignidade humana, escrito com algum engenho e alguma experiência granjeada ao longo de 85 anos de vida, nas visitas a vários países dos vários continentes. 

Creio que não fica mal referir algum modesto e irrelevante apoio esporadicamente prestado pelas Editoras “Saída de Emergência e Self” que os meus dois filhos vão gerindo com sucesso. Enfim, preso entre o que gostaria de ter feito, o que me foi possível fazer e o que a comunidade humana esperava de mim, vivi todo o meu tempo entre o desejo, a esperança, algum desencanto e o amor de poder partilhar com todos, os murmúrios da minha intimidade e os valores que Deus me ofereceu para eu peregrinar feliz. Teria construído coisas mais belas se fosse rico, de família nobre e afamada? Teria elaborado melhores obras se tivesse o aconchego do paço real e o “ocioso tempo dos barões” para ampliar os meus escritos? Certamente que não. Creio que não poderia haver melhor cenário. A paixão pela partilha foi que “esculpiu” todo o meu engenho. O caminho que a luz é do pensamento e o calor do coração abriram de muito longe. É mais antigo do que a minha carne, e do que as fracas roupas da minha indumentária que vou vestindo. Contudo nada poderia correr melhor do que aquilo que Deus quis. É assim que sou feliz.

A. Marques Pacheco (Prof. Ens. Sec.)

1 Comment

  1. António Vieira

    Bate certo. Foi sempre um grande… e de verbo límpido que dá gosto ler, e ouvir, e interagir…

    Reply

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