por | 28 Out, 2023 | Economia, Opinião

Sector vitivinícola em crise

Muito se tem falado da crise instalada no setor, após a vindima deste ano. A crise não é de hoje mas, este ano foi angustiante. Apesar dos anunciados excessos de produção, a realidade é que se uns o tiveram, muitos outros sentiram exatamente o contrário. O ano vitícola 2023 foi difícil para os viticultores. Face às condições climáticas ocorridas foi muito difícil controlar doenças como o míldio e o oídio, já para não falar dos acidentes meteorológicos como granizo, temperaturas extremas nas piores fases do ciclo vegetativo da videira, stress hídrico e térmico na maturação e para terminar precipitações elevadas no período de vindima. 

As condições climatéricas têm-se alterado bruscamente, o que provoca que os viticultores se tenham de adaptar a novas realidades. Estes, nós, sofremos. Empenhamos todo o nosso esforço para chegar ao fim da campanha vitícola de 2023 com excelentes uvas. Estivemos sempre atentos. Nunca descuramos um tratamento face às condições climáticas ocorridas, independentemente de os custos operacionais terem subido drasticamente nos últimos anos devido ao enunciado, mas também, primeiro ao Covid19 e, mais recentemente, à guerra na Ucrânia. E para quê? Para chegar ao fim da campanha e num ano como este a uva ser paga a valores escandalosos, ofensivos para o produtor. A preços que estão muito longe de cobrir as despesas que se tiveram para a manutenção da vinha?

Na atualidade, os valores pagos pela uva são os mesmos de há 10 anos. Já para não falar que operadores recusaram receber uva nesta campanha. Por outro lado, se está mal para os viticultores/produtores, não estará muito melhor para os operadores, empresas (principalmente para os pequenos/médios), os que vinificam, comercializam, como por exemplo as Adegas Cooperativas. Refira-se, por exemplo, os valores do preço do vidro e do cartão, que sofreram acréscimos acima dos 100% e, por vezes, com rotura do produto (garrafas e cartão para caixas). Os combustíveis, a eletricidade, como todos sabemos, também. Resultado, os custos operacionais subiram para valores que não se estava à espera, tanto para os produtores, como para os operadores. Se sem uvas não se faz vinho, sem vidro, cartão e outros fatores, não se consegue comercializar!

A minha humilde opinião como viticultor nas regiões onde tenho operado: região do Douro e dos Vinhos Verdes. Estas são duas regiões demarcadas com características únicas no Mundo. O Douro, com todos os pergaminhos possíveis, é a região demarcada e regulamentada mais antiga do Mundo, Património Mundial, produz o vinho, embora seja fortificado, que outrora foi aclamado como o melhor vinho do mundo, o vinho do Porto, com características únicas! Tem produzido, com mais ênfase, nos últimos anos, alguns dos melhores vinhos de denominação de origem controlada. Os DOC Douro. São vinhos considerados também com carácter único no Mundo devido aos variados fatores inerentes à região, clima, solo, viticultura de montanha… o chamado ” terroir”. Por outro lado, a região dos Vinhos Verdes é diversificada e versátil em estilos e perfis de vinho, conhecida por produzir não só vinhos leves e frescos, mas também vinhos minerais, complexos e estruturados, únicos no mundo (in www.vinhoverde.pt).

Há que procurar urgentemente soluções! Cada uma adaptada à realidade de cada uma das regiões. Talvez isso passe por uma remodelação das normas e regras, aplicadas para as regiões. Não seria oportuno limitar os operadores a apenas vinificar e comercializar vinhos de denominação controlada, no máximo regionais, quando se comprovasse que realmente as regiões tinham produzido mais uva? Acabar com os vinhos denominados de mesa ou da CEE nestas duas regiões e, quiçá, nas restantes nacionais? Talvez fosse uma forma de escoar o tão aclamado excedente e uma forma de valorizar o que é único e nosso! Claro que para isso acontecer teria que haver empenho por parte das entidades reguladoras no campo, não apenas nos gabinetes… mais fiscalização e, também, consciência de todos os intervenientes no processo. Volto a reafirmar, “se não formos nós a valorizar o que é nosso, os outros não o poderão fazer”. Sejamos todos profissionais!

Manuel Carlos Malheiro

Vitivinicultor

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