JOSÉ FERREIRA NETO
O “bichinho” da pintura esteve quase sempre presente na intensa vida artística e cultural de José Neto. Mas foi com a aposentação que chegou a verdadeira dedicação a essa atividade. De tal forma que se tornou num verdadeiro artista e não se pode dizer que se trata de um mero passatempo, tal a dimensão profissional desse arte na sua vida. Nunca é tarde para realizar sonhos, aprender ou desenvolver aptidões.
Chama-se José Ferreira Neto, tem 75 anos e é natural de Sousela (Lousada) e é um homem das artes e do associativismo. Dos tempos de estudante recorda que esteve “no Seminário Maior do Porto até ao segundo ano de Teologia e quando abandonei o Seminário em 1972, esperava-me a tropa, no curso de cadetes milicianos em Mafra. Como não me chamaram de imediato, e porque tinha algumas habilitações técnicas de desenho, dediquei-me a fazer projetos para edifícios, o primeiro foi para o meu pai e porque foi aprovado, apareceram os vizinhos da freguesia e arredores até que me chamaram em Julho para a Tropa, Mafra. Mesmo nesses meses ainda fiz alguns”.
Mas a tropa não era coisa para um pacifista como José Neto, muito menos em tempo de guerra, pois combatia-se nas ex-colónias, em África. “Em Novembro de 1973 desertei do exército, por recusar a guerra colonial, refugiando-me em França, mais concretamente em Grenoble. Após o 25 de Abril, em Agosto, regressei ao exército para completar o serviço militar, após o que tratei de fazer um curso de desenho técnico de projetista, com habilitação específica para o efeito, tendo concorrido e sido aprovado para entrar nos GAT’s (Gabinete de Apoio Técnico) e durante aproximadamente 10 anos foi a minha profissão por conta própria”, explica José Neto.
Em 1982 tornou-se “empresário na área dos serviços numa sociedade com vários irmãos” e acrescenta que no princípio ainda acumulou o desenho com a gerência da empresa, “mas uns três a quatro anos depois, infelizmente, abdiquei daquela em benefício desta até à reforma”.
O desenho técnico foi sempre a sua “praia”, uma atividade onde se sente “como peixe na água”. Enquanto estudante “era um excelente aluno a desenho pelo que, se não estivesse num curso de letras, teria ido para arquitetura, que era o meu sonho. Nas minhas férias, sempre visitei museus e ambientes de arte, sempre sonhava reproduzir o que via. Acreditava mesmo que era capaz de fazer algo semelhante”, revela o entrevistado.
FUNDADOR DA CRACS
Na Coletividade Recreativa de Ação Cultural de Sousela (CRACS), que ajudou a fundar, esteve ligado às artes, e fomentou naquela localidade o gosto pelo teatro, música, folclore, etc. Revela que ele próprio elaborou “um projeto de arquitetura aprovado e licenciado em várias fases, desde a construção da sede, que deixei quase pronta, até um salão gimnodesportivo devidamente licenciado para atividades desportivas e de espetáculos”.

O teatro em Sousela e em vários pontos do concelho teve a sua influência. “Foi sempre uma atividade muito querida para mim e comecei no Seminário de Vilar como aderecista e cenários. Lembro-me de ter ido a Sande (Marco de Canaveses) fazer um cenário bem grande, numas férias grandes, a pedido dum colega, também amante do teatro”.
“Quando fundei a CRACS em 25 de Novembro de 1975, de imediato se formou um grupo de teatro, tendo eu assumido a sua direção. Depois que deixei a CRACS nunca mais houve teatro a não ser quando lá voltei, a pedido, julgo que em 2015 (40 anos depois) onde se formaram dois grupos, um de adultos e outro de infantil que ainda perdura com o nome Grupo de Teatro Letras 100 Cessar, que depois que se separou da CRACS”, declara José Neto.
Passou depois pela Associação Vidas em Cena, “onde tive a ousadia de fazer a adaptação para teatro ao ar livre do clássico de Cervantes, «D. Quixote de La Mancha em Terras de Lousada», que foi um sucesso. Hoje, mantenho-me ligado ao Teatro Linha 5, do Cais Cultural de Caíde de Rei, com alguma ajuda intermitente, ao grupo da minha terra”.
De tudo o que faz ressalta um gosto e um propósito artístico: “Sem dúvida, amo o que faço e tudo que é arte, que é genuíno, inventivo e nos ajuda a sair da pequenez em que se vive”, explica.
VERSATILIDADE ARTÍSTICA
O teatro é uma paixão certamente, mas José Neto tem uma devoção pela pintura, à qual se dedica há dez anos. “Curiosamente, comecei a pintar, logo que me reformei, em Lousada, na Universidade Sénior Primeiro Plano, com o arquiteto António Machado”, revela o artista. Sempre imbuído de um espírito de evolução e dedicação, procurou aperfeiçoamento com o artista plástico José Melo, em Penafiel, em aguarela e acrílico. Depois também teve uma passagem pela Cooperativa Árvore, no Porto, com o mestre Carlos dos Reis e, finalmente, encontra-se há vários anos, na Escola Artística Gatilho, em Amarante, sob orientação do mestre Diogo Cardoso.
“Atualmente, também, faço escultura, tendo a primeira da minha carreira, sido feita por encomenda da Câmara Municipal de Amarante, para França, Acheres, e que foi inaugurada no ano passado”, conta José Neto.

A versatilidade cultural e artística é notável e notória neste lousadense. Dirige o grupo Sot`Artes, do Cais Cultural de Caíde de Rei, aproveitando o sótão do Cais “que transformamos numa galeria lindíssima, com exposições de pintura, escultura, fotografia e ilustração, todos os meses entre Março e Outubro. Faço ainda parte do grupo, Arte em Confinamento, em que promovemos gratuitamente arte numa Galeria no Centro Comercial S. Martinho, em Penafiel, com exposições todos os meses do ano”.
gratuitamente arte numa Galeria no Centro Comercial S. Martinho, em Penafiel, com exposições todos os meses do ano”.
EXPOSIÇÃO NA BIBLIOTECA
Com o nome artístico Nepotis, que é o genitivo de Nepos, que em latim significa “do neto”, tem exposto os seus trabalhos em vários locais. Atualmente tem patente da biblioteca municipal de Lousada uma mostra de artes plásticas com esculturas e obras de instalação, a que deu o nome “A ordem do brincar”. Ali se pode até ao próximo sábado contemplar mais de 50 trabalhos nos suportes de: pintura sobre tela, esculturas em metal e acrílicos. Curiosamente, estão ali expostos esboços ou esquiços, que mostram a origem de cada trabalho realizado.
A temática da exposição procura explicar como o ato de brincar pode ser
disruptivo no modo de viver dos dias de hoje”, afirma o curador da exposição, que acrescenta que “nesse sentido, este conjunto de trabalhos pretende convidar o espetador a desvincular-se do campo de minas que a sociedade atual nos apresenta diariamente, em prol de um espaço neutro, onde o brincar é um estado natural que a humanidade necessita experimentar para poder viver”.
Acerca dos planos artísticos e outros, José Neto responde com rapidez e simplicidade: “são o que a vida me proporcionar e o limite é o impossível”. Aguardemos.














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