O Natal pode ser uma época do ano única para entrar na poesia, regressar às paisagens interiores e à ordem íntima do mundo. Lembro aqui, por isso, aquele que será um dos poetas maiores da segunda metade do século XX, Herberto Helder e o seu livro Servidões.
Publicado em 2013, em edição única, Servidões, de Herberto Helder, apresenta-nos um autor profundamente consciente da passagem do tempo e da consequente agudeza da mão invisível da morte que o espreita: «os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras,/ esqueci-os todos:/ octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,» (109)[1]. E será por isso mesmo que, nestes poemas, o poeta espelha «a medida pequena de como se respira, a morte que se não refuta com nenhum verbo» (12-13), com a nudez despudorada do ser que busca a limpidez virginal da palavra onde o eu vive «demoniacamente toda a inocência» (13).
Servidões propõe-nos uma procura do absoluto pela palavra impoluta, germinativa e visceral – é aí, e só aí, que vive o poeta (e o poema), mergulhado na sua solidão radical, operando a sua arte num exercício extremo de depuração dos versos até lhes encontrar a fórmula exata, a equação inequívoca das palavras certas, conjugadas até ao milagre das sílabas, dos sons descarnados, em osso: «eu lavro com a mão em osso vivo, que apenas lavro/ um livro» (67). Percorrer a poesia de Herberto Helder, em Servidões, é captar e compreender a sua construção vertiginosa até encontrar, nessa calcinação linguística, «segredos de um segredo» (34), ou seja, o absoluto, a beleza que salva o homem do vazio. A matéria da sua poesia é orgânica, espessa, por isso, sentimos, linha a linha, a textura da pele do poema/homem: na rugosidade das marcas do tempo, no suor do corpo inquieto e, na delicadeza faminta dos afetos, a beleza levíssima do orvalho e dos «objectos vivos» (14).
Este é, portanto, um livro autobiográfico, mas é também um livro que suspende dentro de si a procura da perenidade do próprio tempo, discorrendo sobre o mundo e a sua ordem. Este é, então, um livro e um poeta inteiros que não se submetem a uma servidão e se desarrumam para que, nessa ferida aberta, encontrem o som e a fúria do silêncio disponível para a beleza.
Conceição Brandão
Professora
[1] No decurso do texto, para citarmos Servidões, de Herberto Helder, Porto, Porto Editora, 2013, indicaremos apenas a página do livro, entre parêntesis.













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