por | 12 Dez, 2023 | Sociedade, Uncategorized

Vive-se mais, mas nem sempre com qualidade de vida material e emocional

OS PROBLEMAS E AS VIRTUDES DA LONGEVIDADE

Numa altura em que é anunciada a construção de um novo Lar (em Nevogilde) e em que temos cada vez mais idosos (é o grupo etário que está a crescer mais), importa olhar para a temática da longevidade. Um padre, uma psicóloga, uma técnica de geriatria e uma assistente social contribuíram para fazer aqui uma radiografia sobre o tema. Constatamos que a terceira idade é bastante esquecida e em muitos casos abandonada. Mas, neste contexto, é de salutar as boas novas sobre o tema que surgem do lar da Santa Casa.

O grupo etário mais idoso é o que tem maior aumento

Analisando a velhice e a forma como é tratada, o padre António Teixeira de Freitas, de Lustosa, em entrevista ao Louzadense afirmou que a sociedade “está a (…) transmitir a ideia (errada) aos nossos jovens que o estrato social de idosos e doentes «é inútil» e, por isso, descartável” e que “é comum ver familiares de utentes do Centro Social descartarem-se  da responsabilidade social para com os seus idosos e doentes assumindo que esta responsabilidade é dos Centros Sociais «a quem pagam» para serem substitutos das famílias”. Com preocupação, o padre, que é também o diretor do Centro Social e Paroquial de Lustosa, lembra que “a qualidade de uma sociedade vê-se na forma como ela trata os seus idosos, doentes e pobres”.

Padre António Teixeira

Perspetiva idêntica tem Marina Ferreira, que antes de ser psicóloga escolar em Caíde de Rei, trabalhou num Lar, onde constatou que “há muitos tipos de famílias. Há aquelas que estão presentes, não importa como ou quando, preocupam-se com os parentes idosos”. Viu casos em que é uma das filhas que já não trabalha que ajuda nos cuidados e que recebe dinheiro ou ajudas dos restantes irmãos para cuidar dos pais. “Nestes casos há cuidado extremo, carinho, proteção e até quando há a perda da pessoa idosa, há sentimento de culpa e de saudade extrema”, diz a psicóloga.

Depois “há famílias a meio tempo, ou seja, de dia os idosos estavam connosco no lar, ou fazíamos os cuidados em casa, no final do dia voltavam para os cuidados dos filhos ou parentes próximos”.  Entende que “nestes casos, os idosos têm o essencial”.

E há os que estão a tempo inteiro no lar. Nestas situações há casos “em que os filhos visitam de vez em quando, pagam e vão embora. E há os abandonados, os quais considerávamos «os nossos»”, afirma Marina Ferreira com pesar.

Marina Ferreira, psicóloga

Relata-nos casos dolorosos e marcantes. Num deles, “o idoso esperando pela hora da morte, ficou em agonia, por um filho que estava longe. E só partiu desta vida, quando o encontro se deu”. Houve casos, em que fez “muitas vezes o papel de má, onde «obrigava» a família a juntar-se e dizer adeus, para que a pessoa tivesse paz”, declara com sentido de dever cumprido.

“Houve uma situação que jamais vou esquecer: um casal, ele com alguma lucidez, ela com Alzheimer, que viviam no lar. Ele partiu numa noite. Eu tive de dizer à esposa, num momento de lucidez, que o marido tinha partido. Lembro-me tão bem dela chorar e não aceitar de todo. Depois veio novamente a ausência e nunca mais teve lucidez, partiu no dia seguinte, também. Morreu de amor…”

Outro caso, “o de uma senhora que não tinha ninguém, que foi para o hospital muito mal; confortei-a e disse que ela voltava, mas não voltou. Contactei a filha, a dar-lhe, pensava eu, a triste notícia. Mandou-me literalmente enterra-la. Foi duro e cruel. Teve um funeral simples com algumas funcionárias. Tive muita pena, mas ainda hoje penso nessa senhora”, lamenta.

Estas pessoas vão morrendo “e com elas valores que são insubstituíveis. Vejo-o na escola. Os miúdos não são educados para os afetos, para a tradição e o eterno. Para eles é tudo aqui e agora.”

“A demência está quase sempre presente, ou o Alzheimer, ou o Parkinson. São terríveis, muito difíceis de lidar, mas que existem cada vez mais. O ideal seria haver lugares como o Centro Social onde estive, para todos os idosos que quisessem ou precisassem, mas há a questão do dinheiro. É preciso ter algum dinheiro para sustentar serviços como estes e há listas de espera intermináveis. Não compreendo porquê, pois são serviços tão necessários e úteis”, conclui a psicóloga.

SOCIEDADE MAIS INCLUSIVA

A especialista em apoio domiciliário, Cristiana Sousa, convive diariamente com utentes idosos. Diz que “vão longe os tempos em que a idade representava um posto na hierarquia social” e na sua opinião isso deve-se “a uma época industrializada, capitalista, focada no produto e na evolução, onde o conhecimento nascido da experiência, parece não ter importância”. Esta diretora técnica defende que “dotar os jovens e as crianças da responsabilidade para com os mais velhos pode ser o início de um caminho árduo, mas o único possível se quisermos ter uma sociedade mais solidária e melhores adultos”. Encarar o idoso como uma pessoa válida e humana, “deverá ser o principal objetivo das próximas gerações, por forma a não nos tornarmos numa pequena máquina produtora de bens, mas vazia de afetos”, reforça Cristiana Sousa.

Cristiana Sousa_As Marias_Apoio Domiciliário

Tendo em conta que o envelhecimento da população é uma realidade, com aumento significativo no número de idosos nas últimas décadas, importa criar mecanismos de resposta. “A personalização na prestação de cuidados permite dar resposta às necessidades individuais de cada idoso de maneira eficaz e apresenta benefícios: a melhoria na qualidade de vida, a promoção da autonomia e independência, o estímulo ao bem-estar físico e emocional, a prevenção de problemas de saúde, a melhoria no relacionamento entre o idoso e os cuidadores”, explana aquela profissional. “É também fundamental valorizar o envelhecimento e permitir que os idosos vivam essa fase da vida com dignidade. Ao fazer isso, estamos a construir uma sociedade mais inclusiva, que reconhece o papel social do idoso e promove um envelhecimento saudável e feliz”, salienta Cristiana Sousa.

SANTA CASA COM EXPERIÊNCIA POSITIVA

Por último indagamos o parecer de uma assistente social, Cláudia Pereira. Esta declara que, de acordo com a sua prática profissional, enquanto diretora técnica na Santa Casa de Lousada em contexto de Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI), “as visitas aos nossos idosos são uma prática comum que demonstra a valorização do idoso na família, a manutenção dos laços familiares e da relação com a comunidade, já que as visitas não se restringem apenas aos familiares, mas também a amigos, vizinhos, ex-colegas de trabalho, entre outros”.

Aquela profissional destacou que “muitos familiares têm a rotina dos almoços de família aos domingos, mantendo vivas as tradições e costumes transmitidos pelos idosos e estes continuam a ser um elemento de união familiar durante as festividades e outros momentos familiares”.

Claúdia Pereira_SCML

Um assunto pertinente é a relação das novas tecnologias com os idosos. Diz Cláudia Pereira que “apesar de demonstrarem grande dificuldade nesta matéria os idosos são os primeiros a quererem experimentar e utilizar a tecnologia da vídeo chamada para comunicarem, sobretudo com familiares mais distantes”.

Está convicta de que Lousada “ainda é uma comunidade onde as tradições familiares são marcadas e, por isso, o papel dos idosos foi e continua a ser fundamental para a manutenção destas tradições”. Por outro lado, com a evolução da sociedade e das tecnologias este papel foi-se transformando, observando-se idosos mais ativos na comunidade e não apenas no seio da família”. A diretora Cláudia Pereira sublinha de igual modo “o papel dos idosos, avós, na educação e cuidados das crianças na atualidade. Lousada sendo um meio mais pequeno esta prática mantém-se e constitui ainda um suporte familiar significativo para muitas famílias”.

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