por | 22 Dez, 2023 | Dar voz aos livros, Opinião

Os direitos culturais, o mundo pós moderno e o Natal

Assisti há uns dias a um debate na televisão sobre o estado da cultura em Portugal. De tudo o que foi dito, registo com especial agrado a preocupação com leitura e a clara assunção que esta será a base de quase tudo o que diz respeito à cultura. Sublinho: sem a leitura, em especial de literatura, todas as outras formas de aquisição de conhecimento são inalcançáveis.

Torraine diz que “continua a ser possível dar ao indivíduo uma base mais sólida do que a experiência imediata de si mesmo”. Os direitos culturais impõem-se, deste modo, como a última fronteira que os novos humanistas terão de conquistar. Em Um Novo Paradigma: Para compreender o mundo de hoje, Torraine sublinha a necessidade de compreender com rigor o que são os direitos culturais para, assim, determinar que estes estabelecem um movimento centrado no sujeito. É neste contexto que se torna crucial apreender que é no espaço cultural que nos deparamos com os conflitos e reivindicações mais dramáticas e geradoras dos maiores conflitos do mundo moderno: as minorias étnicas, religiosas, sexuais e uma das lutas mais evidentes –  a das mulheres – e a sua dupla exigência de igualdade e de diferença.

A consciência de viver um tempo desequilibrado, caótico e no avesso daquilo que seria a grande conquista moderna – a Liberdade de existir, a Liberdade da conquista de uma felicidade terrena – emerge de dentro dos literatura e na expressão da sua voz quando esta responde a questões sobre conceitos de tempo, liberdade e de acontecimento no universo da sua escrita. A ficção propõe-lhe uma fatia de sonho que lhe permite aproximar-se de um mundo com sentido, onde se escapa do sufoco do mundo real. A Literatura apresenta-se como um combate contra a obscuridade, onde urge alargar o conceito de género humano. Salienta Lídia Jorge, em entrevista, que “aprofundar o conceito de fraternidade, por exemplo, pode dizer-nos respeito. Estamos tão longe desse abraço que temos de dar, mesmo quando tudo é escuridão…”.

O direitos culturais de que nos fala Alain Torraine, enquanto paradigma de um novo mundo que nos libertará da treva e da desorientação pós moderna, encontra espaço nas batalhas travadas dentro dos romances. O Natal poderá ser essa promessa de fraternidade que aparece esboçada nos abraços cúmplices que partilhamos nesta época festiva – quando genuínos, neles estão delineados os contornos do amor humano absoluto.

Conceição Brandão

Professora

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