Bom humor ajuda à longevidade, diz a lousadense mais antiga

Foi há 104 anos que Laura Augusta Andrade Ribeiro da Silva nasceu em Lousada, na rua Visconde de Alentém, a 15 de dezembro de 1919. Na sexta-feira, O Louzadense fez-se representar na sua residência, no Porto, para a felicitar por tão insigne efeméride e realizar uma entrevista. “O bom humor, o bem fazer e não cismar” são para esta vetusta senhora causas para a sua longevidade.

Os seus pais chamavam-se Augusto Ribeiro da Silva, destacado advogado lousadense, e Delfina de Jesus. Viveu até à idade adulta com a avó materna, Laura de Jesus, conhecida por Laura “Estanqueira”, por ser proprietária de um estanque ou depósito de tabaco, por ser a respetiva concessionária em Lousada.  “Antes de eu nascer, a minha avó disse que se fosse uma menina queria ficar comigo. Quando eu nasci elas deram-me banho, o meu pai embrulhou-me e meteu-me debaixo do capote e levou-me à minha avó. Havia a Carolininha, uma grande criada, que foi quem me criou em casa da minha avó”, relata Laura Augusta.

Estudou no Colégio de Bairros e no Colégio Lousadense, onde a célebre professora Palmira Meireles lhe ensinou a tocar piano e que tanto gostava de tocar na Assembleia Louzadense. Laura casou em 1938, na freguesia de Casais com Fernando Maria Xavier Alves Ribeiro, filho do farmacêutico  António Júlio Alves Ribeiro, conhecido como “Ribeirinho da Botica”.

Sobre o seu sogro recorda com muito humor e saudade um dos muitos episódios que a alegram e que animadamente relata. Certo dia da década de 1950, “os fidalgos da Casa da Bouça, mandaram o empregado à farmácia do meu avô, com uma lista de compras e disseram-lhe «vá ao farmacêutico buscar estes medicamentos e ele que ponha na conta», e o empregado foi de Nogueira até à Vila, repetindo a palavra «farmacêutico», para não se esquecer. Mas a dada altura baralhou-se todo e passou a dizer «cascacete». Chegado a Lousada perguntou por essa pessoa e, claro, ninguém, sabia quem era o «cascacete». Após muito procurar e toda a vila intrigar, a Justininha da padaria pediu-lhe para ver a lista e logo lhe disse que era o farmacêutico quem ele procurava, e o empregado da Bouça retorquiu «Ora, bolas, então os meus patrões podiam ter dito logo que era o Ribeirinho da Botica, que eu não tinha que decorar nenhuma palavra cara»…!”.

O MARCANTE FALECIMENTO DOS SOGROS

Estas e outras histórias caricatas e bem humoradas são para Laura Ribeiro da Silva “um bálsamo e justificam muito do meu bom viver, assim como não cismar, que só prejudica a saúde”. Declara que sente-se bem, mas “as pernas é que são um problema. Tive uma queda na rua, quando um carro de marcha atrás deitou-me ao chão. Fui para o hospital e tudo. Já foi há dois anos. Depois caí aqui em casa e não consigo andar sem ser agarrada a alguém ou de bengala”. Posto isto, lamenta que não tem ido a Lousada.

Com ânsia de muito nos contar sobre a sua vida, fala quase ininterruptamente, passando em revista muitas memórias com uma clarividência notável. Da infância e juventude lembra-se sobretudo das amizades e dos professores, das peças de teatro de revista e das aulas de piano. Recorda com saudade a amiga “Palmira Sampaio, que vivia a seguir à minha casa. Era uma menina exemplar para a minha avó e fazia as primeiras sextas-feiras no Senhor dos Aflitos”.

Os episódios que destaca são quase todos bem humorados. Gosta sobretudo de peripécias. Mas também destaca acontecimentos sentimentalmente marcantes. Um deles reporta-se ao falecimento dos seus sogros, em 1961, que considera um acontecimento romântico, apesar de triste: “quando soubemos do falecimento do meu sogro, eu e o meu marido fomos lá a casa, em Lagoas. Momentos depois de chegarmos, faleceu a minha sogra, Albina de Jesus Xavier Enes. Foi muito tocante. Foi como se partissem juntos. Além do meu marido, eram pais da Maria Elisa, da Maria Antónia, do Elísio, que também foi farmacêutico, do Zé Maria, que andou muitos anos com a Palmira, até ir para o Brasil”.

Já que o assunto eram os amores, perguntamos-lhe pelos seus. Revelou que namorou “com o Nené Magalhães, pai do Jorge Magalhães que foi presidente da Câmara de Lousada”. Confessa que tinha um grande apaixonado, “o Arnaldo Vilas Boas, de Penafiel, que era primo do Nené, e até me dedicou um poema no Jornal de Lousada, onde ele escrevia muito”. Mas a escrita não era o único predicado forte que Laura destaca nesse seu pretendente: “as serenatas que ele me fazia, muito bonitas”. Mas quem cativou o seu coração foi Fernando Alves Ribeiro: “foi único e para sempre”.

AS SERENATAS DE UM PRETENDENTE

Das peças de teatro encenadas por Palmira Meireles recorda-se com alegria e saudade: “fazíamos muitas , nos baixos da Assembleia; era uma animação, sempre com muita gente e os bailes no salão da Assembleia eram de categoria, sempre muito concorridos e alegres; eu e a Dores Mota gostávamos muito de tocar no piano que lá havia (e ainda existe)”.

De súbito, a nossa entrevistada começa a cantarolar uma passagem de um papel numa dessas peças de teatro de revista. Não tem a certeza se era da peça “Pardais da Avenida” (1950), de Palmira Meireles: “Linda terra de Lousada, que ficou descontentada, quando a Comarca acabou, não lhe percas a memória, quem espera sempre alcança aquilo que tanto amou”. Era uma referência à perda do Tribunal da Comarca que afetou Lousada em 1927 e só seria restaurado em 1962.

A memória de Laura Ribeiro da Silva percorre nomes de pessoas que no seu entender foram muito importantes naquela época de meados do século XX em Lousada: “o Dr Abílio, que era uma excelente médico, amigo e professor, a Palmirinha Meireles e o marido e a Tainha, muito simples mas muito importante porque tomava conta de crianças e preparava-as para a escola”.
Embora fosse assídua das celebrações religiosas, “não era muito frequentadora dos grupos da igreja, ao contrário das minhas amigas Maria Ângela, que enfeitava o altar do sagrado do coração de Maria, e a Nininha do Gorgel, do Sagrado Coração de Jesus, um de cada lado”.

O seu pai era advogado e tinha um consultório no Porto e na Maia. “Ele era uma inteligência rara”, diz com orgulho. Foi pelas vivências profissionais do pai que a família se mudou para o Porto, entre as ruas da Lapa e da Constituição, e Laura passou a dividir a sua vida entre aquela cidade e a vila de Lousada. A pandemia e a recente ocorrência que lhe limitou a locomoção retêm-na no Porto. Mas conta com o carinho e apoio inexcedível dos familiares e amigos para a trazer de quando em vez “à minha terra amada, a saudosa Lousada”.

Por fim, uma referência à linhagem descendente de Laura Ribeiro da Silva: tem uma filha, Lígia Maria de Andrade Alves Ribeiro (a primeira mulher vereadora da Câmara Municipal de Lousada e que já saiu na capa do nosso jornal); tem três netos (Maria João, José Paulo e Rosarinho Queiróz), quatro bisnetas (Maria Miguel, Catarina Enes, Ana João Taveira e Benedita Queiroz) e tem dois bisnetos (Maria Afonso e  Henrique).

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