por | 14 Jan, 2024 | Associativismo, Cultura, Sociedade

Cantar as Janeiras e os Reis para ganhar “uns cobres” e não só…

TRADIÇÃO ESTAVA DECAÍDA, MAS GANHOU UM NOVO IMPULSO

Por estes dias, pessoas organizadas e conjuntos espontâneos, associações e clubes, comissões de festas e ranchos folclóricos, enfim, uma vasta variedade de grupos faz-se ao frio para aquecer os corações e angariar dinheiro com as Janeiras. Os ganhos revertem para fins sociais, culturais ou desportivos. As comissões de festas de Lodares, Cristelos e Nevogilde estão entre os inúmeros grupos que por esta época animam e faturam “uns cobres”. Mas também há quem o faça por diversão, sendo comum ver grupos de cantores e tocadores (é habitual incluir pandeireta, tambor, flauta, viola e ferrinhos), que interpretam cantigas originais ou versões de temas conhecidos, em troca de uns copos e um repasto volante. Nem sempre tudo corre bem…

As janeiras cantadas por homens vestidos de samarra alentejana e mulheres com xaile de lã minhoto, são uma imagem que se repete ainda no rico património vivo da cultura portuguesa. Esta cantoria tradicional ocorre em Janeiro entre o dia 1 e o dia 6, que é o Dia de Reis ou Epifania. Mas por causa do mau tempo nesses dias ou pelo desejo de festa e benefícios das Janeiras, muitos grupos prolongam o Cantar de Janeiras durante todo o mês. E porventura até ao Carnaval, que este ano até surge muito cedo (13 de fevereiro).

Esta prática consiste em cantar pelas ruas, de casa em casa, por grupos de pessoas desejando um feliz ano novo e boas festas. Há duas formas de atuação: o grupo envia previamente convite ou aviso da visita e à hora marcada a cantoria acontece. Também ocorre de forma inopinada e espontânea, com os grupos a aparecerem de surpresa na casa das pessoas.

É uma tradição muito antiga cujas origens se perdem no passado mais longínquo. Alguns investigadores dizem que a tradição das janeiras deriva de costumes pagãos e os cantares dos reis têm origem cristã. Os romanos comemoravam a entrada no novo ano em nome de Janus, o porteiro celestial, deus do passado e do futuro, que fechava a porta do ano que findava e abria a porta do que se iniciava.

Cavaquinhos de Lodares_ensaio para as Janeiras

O cantar dos reis ou reisadas, que é muito idêntico às Janeiras, é uma tradição secular portuguesa celebrada por volta do dia de Reis. Um grupo de populares, chamados de “reiseiros”, tocam e cantam às portas das casas, invocando a celebração da visita dos três Reis Magos para pedir esmolas e donativos. É muito semelhante à tradição das janeiras, que usa como pretexto o ano novo.

Reisadas e janeiradas fundem-se e confundem-se numa mesma prática que depois de alguns anos de pouca atividade, parecem estar novamente em alta. Pelo menos em Lousada é o que verificamos: grupos organizados e conjuntos informais e espontâneos, associações, clubes, comissões de festas, ranchos folclóricos, enfim, uma vasta variedade de entidades faz-se ao frio para aquecer os corações e fazer dinheiro. Este reverte para fins sociais, culturais ou desportivos.

Há 82 anos já se fazia isto. Diz no Jornal de Lousada de 10 de janeiro de 1942 que “um grupo de briosos rapazes percorreram a vila e parte do concelho cantando as boas festas e angariando donativos para as obras do quartel dos bombeiros e (…) recolheram 3 mil escudos”.

Muita galhofa e até… maldizer

Nem só de pecúlio monetário vivem as Janeiras. Também há quem o faça por diversão, sendo comum ver grupos de cantores e tocadores (é habitual incluir pandeireta, tambor, flauta, viola e ferrinhos), que interpretam cantigas originais ou versões de temas conhecidos, em troca de uns copos e um repasto volante.

Rancho Sanjoanino de Covas a ensaiar as Janeiras

Terminada a canção numa casa, espera-se que os donos tragam as janeiras, que são os comes e bebes. Por comodismo, é hoje costume dar-se chocolates e dinheiro, embora não seja essa a tradição original.  E se não há dinheiro à mão, vai mesmop por MBWay. No fim da caminhada, o grupo reúne-se e divide o resultado, ou então, comem todos juntos aquilo que receberam, mas normalmente fazem-no na casa do próprio doador, com este, seus familiares e amigos.  As músicas utilizadas, são por norma já conhecidas, embora a letra seja diferente em cada terra.

São músicas habitualmente à volta de quadras simples, que louvam o Menino Jesus, Nossa Senhora, São José e os moradores que recebem a trupe de cantadores.

É usual ouvir os janeireiros lousadenses cantarolar esta quadra:

Vimos cantar as janeiras

e desejar, neste dia,

um ano bom para todos,

com amizade e alegria.

Outra letra que também é muito apregoada é esta de outro autor desconhecido:

Janeiras, lindas janeiras,

senhores, vimos cantar.

Boas festas e alegria

vos queremos desejar.

Numa toada mais brejeira, há também algumas quadras insultuosas ou de maldizer, que abstemo-nos de as reproduzir aqui. São reservadas para os moradores que não dão as janeiras, ou seja, não recebem nem gratificam os janeireiros. Casos há em que o mal-estar se instala e os janeireiros têm que “dar à sola”…

Ainda no concernente às letras e cantigas, também é usual cantar-se a música «Natal dos Simples», de Zeca Afonso, que, como começa com a frase ‘vamos cantar as janeiras’ é entendida por alguns como se fosse música de Janeiras.

Comissões de festas nas Janeiras

Com o seu acordeão, o músico Cristiano Alves é um dos janeireiros da comissão de festas de Nevogilde. Diz que “as janeiras deixaram de ser uma simples brincadeira de levar a música tradicional a casa das pessoas acompanhada de uma mesa rodeada com vinho do Porto e bolo rei” e salienta que isso é também “uma forma de várias associações ou comissões de festas juntarem a tradição e essa magia de percorrer a freguesia de porta em porta, faça frio ou chuva, para uma forma de conseguirem um donativo para o seu evento”. Para Cristiano Alves “as janeiras são acima de tudo a união de um grupo de pessoas que na sua maior parte nunca cantaram em grupo ou tiveram um contacto mais próximo com a música e durante o mês de Janeiro, de porta em porta, levam um bocado de alegria às pessoas e relembram a outros os velhos tempos onde o comunidade era mais unida e onde a música reproduzida por instrumentos tradicionais era uma verdadeira festa, porque qualquer pessoa dançava, ou podia participar ou fazer o seu instrumento, como por exemplo, dois pauzinhos dava um reco-reco ou umas castanholas”. O músico de Nevogilde diz que “infelizmente algumas tradições se perderam como as festas que se faziam nas desfolhadas”.

Janeiras das Orgulhosas 2024

Outra comissão de festas que aproveita as janeiras para angariar fundos para o seu evento é a de Cristelos, que este ano celebra a Nossa Senhora da Conceição, em Maio. Dizem estes festeiros que “não se trata só duma forma de fazer peditório” e sublinham que “há nas Janeiras um propósito muito forte de união da própria comissão, que se envolve animadamente pela noite dentro em busca do calor humano e do convívio”. Além de tudo isso, esta prática “permite reforçar entre a população o anúncio das festas que se vão realizar na freguesia”. Esta trupe de cristelenses integra festeiros e convidados, entre os quais Maria dos Anjos, a conhecida Zai, que empresta a sua extraordinária voz aos cantares tradicionais que por ali ecoam.

Banda Musical de Lousada

Lousada tem bastante enraizada a tradição das Janeiras da Banda Musical, que neste 2024 já percorre as casas de associados e patrocinadores com o seu elan musical. Há registos dessa prática nos periódicos lousadenses com mais de cem anos.

Janeiras da Banda Musical de Lousada

O antigo músico daquela filarmónica, Rodrigo Fernandes, recorda que há 50 anos a Banda interpretava a seguinte quadra musicada:

“Lousadense isto é tão teu como do que que aqui anda, deita terra no abismo em que pode cair a banda, também podes par’aqui vir com a gaita que tiveres, mas mesmo sem instrumentos, dás as notas que quiseres “.

O seu pai (de quem é homónimo) e o meu irmão Francisco Fernandes, eram muito  solicitados para organizar janeiras a reverter para o desporto e cultura de Lousada. “O Chico tinha muito jeito para escrever a letra, o meu pai a música, em finais dos anos de 1960”, recorda. A Banda fazia Janeiras para si e para outras entidades locais que lhes solicitavam apoio. “Para o futebol A.D.L. a letra da música era assim:

«nós somos do futebol, dessa coisinha tão linda, tanto vale marcar um golo, como beber uma pinga; vem fazer parte da equipa tal como faço eu, chuta para cá essa massa, repara como sou teu”, recita Rodrigo Fernandes.

Também o Hóquei em campo foi motivo para famosas janeiradas dos Fernandes:

“Eu vos saúdo com este canto, queremos dinheiro pró Hóquei em campo; uma pinguinha também já ía acompanhada de aletria”.

E com esta encerramos o destaque desta edição d’O Louzadense.

Janeiras para Sta Isabel de Lodares

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