por | 28 Jan, 2024 | Sociedade, Uncategorized

Há cada vez mais lousadenses a percorrer o Caminho de Santiago

VÃO POR PROMESSAS, DESAFIOS, APOSTAS, DESPORTO, MAS ACIMA DE TUDO CAMINHAM EM BUSCA DE ESPIRITUALIDADE(S)

O Caminho de Santiago é um dos destinos mundiais prediletos de milhares de peregrinos, caminhantes, desportistas (sobretudo ciclistas) e muitos turistas. Em Lousada há cada vez mais pessoas que se lançam ao Caminho. Falamos com algumas das estreantes mais recentes: Fátima Santos, Elisabete, La-Salette, Marcela e Odete. Foram movidas pela busca espiritual e pelo desafio de superação. Também falamos com Filipe Barbosa, de Lustosa, que faz isso todos os anos, como peregrino religioso e organizador de caminhadas.

A espiritualidade entendida em sentido amplo, não apenas numa perspetiva religiosa, é apontada como uma das principais motivações para a generalidade dos caminhantes ou peregrinos de Santiago. Foi o caso destas lousadenses cuja experiência aqui trazemos. Durante anos, Fátima Santos foi cultivando o desejo de fazer vários percursos do Caminho de Santiago. Esta lousadense de Santa Eulália da Ordem sempre gostou de caminhadas. Já foi a Fátima, subiu o Pico dos Açores, o Pico do Areeiro (Madeira) e os Picos da Europa. Foi ela a mentora de um grupo com as primas Elisabete e La-Salette e que incluiu duas amigas felgueirenses, Marcela e Odete.

“Fizemos o Caminho Espiritual, mas quero fazer mais. Fiz amizades bonitas, vim de lá uma pessoa diferente, mais leve”, afirma a autora do desafio.

Para a próxima ida, Fátima tem muito por onde escolher, pois há mais versões do caminho. Além da variante mais conhecida entre nós, o Caminho Português da Costa, que inicia no Porto e pode terminar em Valença, continuando a partir daqui o Caminho Central. Ou então pode-se seguir ainda pela costa galega, entrando no Caminho Central em Redondela.

A Variante Espiritual é um dos percursos mais emblemáticos e foi o que estas lousadenses percorreram. Começa em Pontevedra e termina em Pádron, seguindo pela costa, convergindo a partir daí com o Caminho Central. Mas há outras variantes como o Caminho Francês, porventura o mais longo e difícil.

Sobre a experiência, La-Salette Nunes diz que o convite “foi logo bem aceite por mim, não só pela caminhada, mas principalmente por naquele momento achar que estava mesmo a precisar de dias de companheirismo e reflexão”.

La-Salette Nunes no Caminho

“REZAMOS, RIMOS E CHORAMOS”

Ao contrário de Fátima Santos, as primas tinham pouca experiência em caminhadas. Só costumam percorrer o caminho de Santa Rita (Ermesinde). Mas não foi motivo para virar a cara àquela aventura.

A primeira etapa ligou Pontevedra a Armenteira, a segunda foi de Armenteira a Vila Nova de Arousa e no terceiro dia foram de Vila Nova de Arousa, pela rota marítima até Pontecesures, depois até Padrón, em Santiago de Compostela”.

A preparação foi acontecendo desde junho do ano passado, com trocas de ideias e traçaram o plano numa tarde. “Decidimos ir sem alojamento marcado, mesmo com o espírito de peregrino, ficando a dormir nos albergues. Logo na primeira etapa, quando chegamos a Armenteira, já não tínhamos vaga no albergue, começamos a ver possibilidades por perto. Mas outros peregrinos que estavam ali deram-nos o contacto de uma senhora que tinha alojamento livre”, refere La-Salette.

“Na segunda etapa já levávamos um adianto a quem nos ajudou e fomos as primeiras a chegar ao albergue seguinte. Sentimos o dever de reservar albergue comunitário para eles, pois funciona por ordem de chegada. O verdadeiro espírito de entreajuda e socialização na peregrinação”, explica a caminhante.

Desconhecidos tornam-se amgios no Caminho_Socialização na Peregrinação

Da experiência vivida Elisabete realça “as paisagens maravilhosas e a diversidade de nacionalidades dos peregrinos”. A irmã refere o facto de “perceber que quando queremos e temos força de vontade não há limites, tudo é superável: dores, cansaço”. Ambas concordam que “o ponto mais alto foi a sensação inexplicável ao chegar à Catedral. É bastante gratificante poder partilhar, ainda hoje, amizade com algumas dessas pessoas. Sem dúvida uma experiência a repetir, muito provavelmente ainda este ano, de Santiago a Finisterra”.

CAMINHADA INSPIRADORA E GRATIFICANTE

“Aceitei sem hesitar o convite, mesmo não tendo experiência como peregrina ou em qualquer tipo de caminhada”, revela Marcela, que confessa que “tinha curiosidade de fazer os caminhos de Santiago há algum tempo, talvez pelo contacto e vivência com outros peregrinos, talvez sentir o meu lado mais espiritual e desfrutar da natureza”. A sua prima Odete completou o quinteto.

Para Marcela “foram 3 dias de algum sacrifício, pois tive alguma dificuldade com as dores musculares que se foram acentuando. Na segunda noite também não dormi muito, devido aos barulhos que se faziam ouvir na camarata mista, onde pernoitamos e isso fez com que no dia a seguir o cansaço e desgaste fosse maior”. No dia 7, a meio da tarde, chegaram ao destino e encontraram “um mar de gente em Santiago de Compostela”.

Caminhantes em Santgiago

Entraram na Catedral, “rezamos, agradecemos, rimos e choramos. Pouco tempo depois estava na hora de regressar a casa. Foi uma caminhada inspiradora e gratificante, embora por vezes, não falássemos devido ao cansaço ou talvez, iríamos a refletir, naquilo que somos, que fazemos e que podemos ser”. Uma das coisas que Marcela mais reteve da experiência foi a saudação ou incentivo dos peregrinos que iam passando e da população: “Bom Caminho!”.

“UMA DAS MELHORES METÁFORAS DA VIDA”

Bastante mais experiente nestas andanças é Filipe Barbosa, docente e diretor escolar. É um apaixonado pela vertente religiosa do Caminho e já realizou a peregrinação a Santiago em mais de 25 vezes. Começou em 1994, com um grupo de amigos da escola secundária: “fui de bicicleta. Saímos do Porto e fomos pela estrada pois o caminho ainda não estava marcado. Fomos parando onde nos apetecia e fazíamos desvios para ir visitando localidades que estavam fora do percurso. Foi uma experiência incrível”.

Filipe Barbosa

Em 1999, repetiu a viagem, dessa vez, a pé desde Vila Nova de Cerveira. “Fui com um grupo de 23 pessoas onde conhecia apenas uma. Foi uma experiência absolutamente extraordinária e transformadora”, exclama o peregrino. Desde aí, ficou com vontade de repetir e, mais que isso, proporcionar a experiência a outras pessoas. Em 2003, organizou no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, onde trabalha, uma peregrinação a Santiago de Compostela para alunos a partir do 9º ano.

“Recordo-me que a adesão, nesse primeiro ano, foi residual. Tive muita dificuldade em convencer jovens de 15 anos que levantar de madrugada, caminhar 25 a 30Km por dia de mochila, comer sandes e enlatados, tomar banho, muitas vezes em água fria, dormir no chão, rezar e fazer partilhas em grupo era a melhor experiência que podiam ter numa das semanas em que já estariam de férias”, descreve Filipe Barbosa. Teve 12 inscrições e realizaram o Caminho Português desde Valença. No ano seguinte (2004) ponderaram não repetir, mas a insistência dos alunos que tinham feito no ano anterior foi mais forte e o número de inscrições passou para 30.

“Nesse ano, realizamos a Rota da Prata, desde Ourense. Desde aí, as inscrições aumentaram a cada ano e alargamos a atividade a outro colégio de Cascais (Colégio Amor de Deus) propriedade da mesma Congregação (Irmãs do Amor de Deus) do Colégio do Porto. Em determinado momento, tivemos de limitar o número de inscrições nos 220 participantes e foi necessário criar regras para os repetentes não ocuparem as vagas todas daqueles que pretendiam ir pela primeira vez”, afirma com alegria.

Em 2008, um grupo de pais do colégio do Porto pediu que se organizasse uma peregrinação para adultos e, nesse ano, fizeram o Caminho Português com eles. No ano seguinte, repetiram pelo Caminho Francês, já com pais do colégio de Cascais e também ficou institucionalizada a peregrinação com adultos.

“De 2003 até agora apenas não fiz o caminho em 2020 (ano da pandemia) e em 2023 porque decidimos que concentraríamos as nossas atividades com Jovens na participação na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa”, expõe  Filipe Barbosa, que em 2020 foi convidado para Cofrade da Archicofradía Universal del Apóstol Santiago.

O Caminho de Santiago de Compostela “é, para mim, antes de tudo, uma peregrinação e não uma caminhada. É uma oportunidade de paragem, de silêncio, de encontro e de encontros. Mais que pensar no momento da chegada, centro as atenções no caminho e em tudo aquilo que nele acontece. A peregrinação é uma das melhores metáforas da vida e pode ser uma experiência transformadora”, declara.

HISTÓRIAS E OCORRÊNCIAS INESQUECÍVEIS

Muitas histórias, episódios, ocorrências têm lugar no Caminho. Para Filipe Barbosa há duas que ficaram para sempre gravadas na sua memória: “uma senhora de idade que ajudamos no meio de um campo e com quem partilhamos que chegaríamos a Santiago no dia 26 de julho. Nesse dia 26 estava, com a filha, à nossa espera em Santiago”.

Outra história, mais pesarosa e até trágica, aconteceu em 2013: “era noite de festa por ser véspera do dia do Apóstolo. Estávamos em Portas (localidade antes de Caldas de Reis) e começamos a ver ambulâncias e carros de bombeiros a passar em direção a Santiago. Abri a internet e percebi que tinha acontecido um acidente ferroviário de grandes dimensões a poucos Kms de Santiago. Ficamos a noite em silêncio colocados às notícias. A dimensão daquilo era aterradora: morreram 80 pessoas. Tivemos de mudar as nossas dinâmicas e, mais em silêncio que com argumentação, integrar aquilo numa peregrinação de jovens que chegaria a Santiago dois dias depois. No dia 26, contrariamente ao que é habitual, entramos em silêncio na cidade e na catedral com uma flor, um ramo ou uma pedra para colocar num memorial que entretanto tinha sido improvisado. É impossível esquecer esse momento”.

A tão experiente caminheiro e peregrino perguntamos, neste final de reportagem, que sugestão dá a quem vai fazer o Caminho pela primeira vez. Eis o seu conselho: “quem faz a peregrinação pela primeira vez ou pela centésima, deve abrir-se àquilo que o Caminho tem para oferecer. Quando estou a preparar o Caminho com os jovens repito, inúmeras vezes, que a Peregrinação a Santiago pode ser uma das melhores experiências das vidas deles ou uma das piores”. E explica que “se não forem capazes de sair do espírito de sacrifício do caminho (levantar às 5 da manhã, caminhar 25 Km por dia, partilhar um ginásio com 200 ou mais pessoas – por vezes outros grupos partilham espaço connosco -, dormir no chão, tomar banho de água fria, partilhar em grupo…) a peregrinação será uma experiência negativa”.

Mas também diz, a concluir, que “se forem capazes de proporcionar encontro e encontros, diferentes tipos de encontros (consigo, com os outros, com a beleza do caminho, e com uma dimensão transcendente, se formos crentes, com Deus) então a peregrinação será uma experiência sublime. É olhar e acolher, no caminho como na vida, as coisas simples e frugais, mas que no fim são aquilo que verdadeiramente conferem sentido a tudo que fazemos”.

Grupo de caminheiros juvenis

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Rezar por mais saúde e menos guerras

A PROCISSÃO DE VELAS É UM SINAL DOS TEMPOS Em maio realizam-se as procissões de velas. Os...

LADEC Celebra 14.º Aniversário com Jantar Convívio

No passado dia 18, a LADEC - Lousada Associação de Eventos Culturais comemorou o seu 14.º...

Hugo Regadas Vence a Internacional XCO Super Cup

No passado domingo, em Vila do Conde, o lousadense Hugo Regadas, a competir pela equipa Rompe...

Editorial 121 | Lousada é Grande

Lousada, terra de história e tradição, ostenta com orgulho a sua grandeza. O nosso Torrão, que há...

Lousada Junior Cup: Título da primeira prova ficou em casa

O português João Dinis Silva conquistou a primeira prova da Lousada Junior Cup, depois de derrotar...

Lousada ao rubro na Super Especial do Rally de Portugal

A 57º edição do Rally de Portugal trouxe a Lousada os pilotos do Campeonato do Mundo de Ralis...

DIALLEY – Agência de Marketing em Lousada

O nome foi inspirado na Diagon Alley, um local emblemático da saga Harry Potter, da qual Sofia...

Apresentação da trilogia “As Aventuras da Maria” encanta público

No passado dia 11, a Assembleia Louzadense acolheu a apresentação da trilogia "As Aventuras da...

Luís Santos é mandatário da candidatura da Aliança Democrática em Lousada

A candidatura da Aliança Democrática (AD) em Lousada terá como mandatário Luís Santos, Coordenador...

USALOU é um berço de cultura sénior

CAVAQUINHOS E TUNA SÃO DOIS EXPOENTES O principal objetivo da Universidade Sénior do Autodidata de...

Siga-nos nas redes sociais