por | 14 Fev, 2024 | Dar voz aos livros, Opinião

O 25 de abril, o Carnaval e Os Memoráveis, de Lídia Jorge

Aproximamo-nos do Carnaval e, em Lousada, ele coincide com a comemoração dos 50 anos do 25 de abril, sendo este o mote do Desfile de Carnaval deste ano, não porque se opere uma carnavalização desta efeméride da nossa Democracia, outrossim, porque é importante um olhar desassombrado sobre esta data incontornável da nossa História recente. Sobretudo, porque é urgente recuperar, refletir, relembrar esse dia exemplar. O romance Os Memoráveis de Lídia Jorge assenta exatamente nessa data: o 25 de Abril de 1974, em Portugal, relembrado trinta anos depois. Há na tessitura deste romance aquela que talvez seja a palavra mais urgente da escrita de Lídia Jorge: a batalha. Os Memoráveis é, portanto, um livro sobre uma batalha portuguesa inscrita na História, mas perdida na memória. Ana Maria, a filha do jornalista António Machado, conjuntamente com os dois colegas jornalistas, perseguem esse passado que se tornou de algum modo irrecuperável. Fá-lo-ão através de uma série de entrevistas aos “heróis de Abril”. A fotografia tirada no restaurante Memories funciona, neste livro, como um despertador para a recomposição de um passado plasmado num tempo novo e numa promessa desejada de liberdade que não chega a cumprir-se. Os seus heróis perduram, mas num tempo alhures.

Ora, as personagens que fizeram esse dia, desfilam no livro de Lídia Jorge convertidas em figuras mitificadas e esbatidas. Segundo Catherine Dumas, “Todas essas personagens […] representam a comédia humana em todo o seu esplendor e toda a sua decadência, muito embora o romance se assuma como um memorial menos carnavalesco e mais amargo, mas tão comovente como o que José Saramago dedicou ao Convento de Mafra” (Colóquio Letras, 188). Nas manifestações de cómico das suas personagens a intenção é desencadear a reflexão, abrir possibilidades à memória. Há como que um escavar num presente depositário inerte de um passado de que se quer a chave para abrir. Poder-seia até dizer que se fornece aqui a chave da ficção para o leitor encontrar o código desmembrado nesse passado.

Ao desfilarmos com as personagens de abril, mesmo as próximas da caricatura, no romance jorgiano e nas ruas da vila, assumimos de forma séria a paródia: uma transgressão autorizada, um “piscar de olho” inteligente sobre a realidade transfigurada, na suspeita de que estas ecoam sinais importantes da liberdade conquistada, que não devemos nunca esquecer.

Conceição Brandão

Professora

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Lousada ultrapassou os 50 mil habitantes, devido ao aumento da população estrangeira

Análise do jornal O Louzadense aos mais recentes dados provisórios e preliminares do Instituto...

Equipa de Shinkyokushin conquistou seis pódios

O WIBK Dojo Verdadeiro Espírito, do lousadense Paulo Rente Silva marcou presença no Torneio...

Atleta de Lousada convocada para Jogos do Eixo Atlântico

A jovem Daniela Pereira, natural da freguesia de Pias, em Lousada, foi convocada para integrar a...

"Talvez seja por isso que gosto tanto das nascentes. Porque, ao contrário dos rios, que toda a...

Campeões Nacionais de Natação Adaptada

Os atletas lousadenses do clube Lousada Século XXI estiveram em grande evidência no Campeonato...

A bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, Paula Franco, foi uma das convidadas do...

Forte internacionalização do Inferno das Febras

O Inferno das Febras regressa ao Parque de Lazer e Merendas de Casais, em Lousada, nos dias 28 e...

O treinador penafidelense João Paulo Guedes Silvestre, de 36 anos, é referido por várias fontes...

Protocolo para projeto de turismo cultural assinado entre a CCDR-N e Vidas em Cena

A Associação Vidas em Cena, de Lousada, está entre as dez entidades culturais da Região Norte...

A celebração dos 100 anos dos Bombeiros Voluntários de Lousada constitui um momento de...

Siga-nos nas redes sociais