A Casa Nobre No Concelho de Lousada – Tipologias VI – Vãos

Para Ernest Burden, vão é o «compartimento ou divisão principal da organização arquitetónica de uma edificação, marcada por contrafortes ou pilastras nas paredes, pela repetição de qualquer unidade espacial que divida a edificação em porções correspondentes.»1 Os vãos concentram o maior esforço decorativo, em especial os da porta. Portanto, de acordo com o grau de ostentação que se pretende imprimir à fachada, e à presença de elementos como a varanda alpendrada, pedra de armas, torre, escadaria e capela, acontece um tratamento mais cuidado dos vãos e das suas molduras. Estas podem tomar formas mais complexas: as ombreiras prolongam-se no remate inferior e o perfil da verga estende-se sobre as ombreiras, como as da casa de Vila Verde, Tapada e Real sendo até algumas enriquecidas com motivos esculpidos, como acontece na casa de Juste. Neste contexto, Natália Fauvrelle sustenta que os elementos e as formas que “ornamentam os edifícios de uma quinta, além do seu conteúdo estético, refletem de forma inequívoca um gosto pessoal e os valores culturais, espirituais e psicológicos de quem os mandou construir ou de quem lá viveu.”2

No jogo compositivo da fachada, a casa de Alentém ostenta o maior número de janelas de sacada e de peitoril e aberturas retangulares, que se apresentam na horizontal. Contudo, é na casa de Ronfe, com menos número de vãos, mas a mais cenográfica de todas, que deixamos perder o olhar, tal como na de Vila Verde com janelas e portas em número muito aproximado à anterior. Também podemos percorrer o olhar por outras: Bouça, Porto, Outeiro, Lama, Rio de Moinhos e Real. No andar térreo, as janelas podem ser de peitoril, molduradas e gradeadas; enquanto no andar nobre podem ser de sacada, de lintel curvilíneo com chave ao centro, e molduradas. Contudo, encontrámos também janelas de sacada e janelas de peitoril, com ombreiras, peitoris e lintéis lisos, de que são exemplares as casas de Argonça e do Cáscere. Esta última residência exibe as janelas do rés-do-chão gradeadas.

Casa de Alentém, fachada principal, 2006. Desenho de Carolina Ribeiro.

A casa de Rio de Moinhos mostra janelas com cornija de ressalto molduradas, no primeiro andar, enquanto a casa da Tapada exibe no rés-do-chão janelas retangulares, molduradas e gradeadas com segmentos côncavos e no andar nobre, janelas de sacada, molduradas, enquanto o torreão ostenta janelas de sacada e balaustrada. Configuração diferente, e única ostenta a casa de Ronfe: no rés-do-chão, a ladear o portal arquitravado, janelas de peitoril molduradas com lintel curvilíneo e painel, no primeiro andar, um janelão de sacada e lintel curvilíneo, com colunas embebidas e fecho, flanqueado por janelas de sacada molduradas e lintel curvilíneo. A ladear o pano central vêem-se quatro janelas de sacada de lintel curvilíneo e painel, molduradas.

Tropeçamos com outro caso singular, na casa de Vila Verde: uma janela de peitoril em forma de trifólio. As restantes residências ostentam o tipo de janela de: peitoril/sacada de lintel curvilíneo, moldurada.

Casa de Vila Verde, 2006. Arquivo particular de José Carlos Silva.

De todas, é a casa de Alentém que exibe maior número de janelas na fachada – dez no rés-do-chão e onze no primeiro andar, enquanto Ronfe e Porto contam apenas sete e Bouça nove. Este número elevado e pouco usual de vãos na fachada vai permitir que as sequências rítmicas das janelas imprimam movimento em direção ao centro da fachada, como se pode ver na casa de Ronfe, Alentém, Vila Verde, Porto e Bouça.

As janelas do rés-do-chão, geralmente são gradeadas, com grade simples, à espanhola ou tipo papo de rola.

As portadas são todas molduradas, algumas com lintéis curvilíneos, outras com cornijas de ressalto, e para completar o jogo decorativo das fachadas, podem ser rasgados óculos, frestas… Há óculos e frestas que apresentam formas mais elaboradas de perfis trabalhados, e algumas destas aberturas são de inspiração erudita, como é o caso das casas da Renda e de Ronfe.

Três casas ostentam portadas simples: Argonça, Cam e Cáscere. A portada da primeira é de cocheira. As casas de Alentém, Porto, Quinta, Renda, Seara, Valteiro e Vilela têm portadas molduradas com fecho ao centro. Com a configuração de portada com lintel curvilíneo e fecho ao centro, aparece a casa de Bouça, Pereiró, Tapada, Real e Vila Verde. Com diferentes gradações, mas enquadrado na mesma tipologia – portal arquitravado (com lintel curvilíneo, com cornija e com coluna embebida), há três situações a reter: casa de Ronfe, Ribeiro e Valmesio. A primeira tem na fachada um portal arquitravado com lintel curvilíneo, chave ao centro e coluna embebida, enquanto a casa do Ribeiro apresenta portal arquitravado com cornija e fecho ao centro, e o último exibe, na capela, um portal arquitravado, também com cornija e painel superior.

Juste, Lama e Rio de Moinhos, exibem tipos de portais diferentes entre si. Na casa de Juste pode ver-se um portal com lintel bilobado de arcos crescentes, enquanto na segunda casa se aprecia uma portada tripla moldurada. O último portal é arquitravado com lintel de ressalto.

Normalmente, os óculos têm a forma redonda, enquanto as frestas e as aberturas podem ser quadrangulares, retangulares ou tomarem a forma de losangos, sendo moldurados, gradeados e envidraçados. Há óculos e frestas que apresentam formas mais elaboradas de perfis trabalhados, e algumas destas aberturas são de inspiração erudita, como é o caso das casas da Renda e de Ronfe.

Casa da Renda, 2006.
Casa da Seara, 2006. Arquivo particular de José Carlos Silva.

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1 – BURDEN, Ernest – Dicionário Ilustrado de Arquitectura. São Paulo: Bookman, 2002, p. 335.

2 – FAUVRELLE, Natália – Quintas do Douro. As Arquitecturas do Vinho do Porto. Cadernos da Revista Douro – Estudos Monográficos. Porto: GHEVID, 2001. p. 59. “Na arquitectura doméstica, porém, a decoração mostra-se sempre muito sóbria, e a casa nobre só muito mais tarde, na época barroca – isto é, em pleno século XVIII – vai empregar fachadas com decoração exuberante e nas quais voltaremos a ver motivos clássicos sujeitos a nova interpretação.” Cf. AZEVEDO, Carlos de – o. c., p. 70.

Obras consultadas:

– Dicionário Ilustrado de Arquitetura, Ernest Burden, São Paulo: Bookman, 2002.

– Natália Fauvrelle, Quintas do Douro. As Arquiteturas do Vinho do Porto. Cadernos da Revista Douro – Estudos Monográficos. Porto: GHEVID, 2001.

José Carlos Silva

Professor / Historiador

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