por | 24 Fev, 2024 | Desporto, Sociedade

Skaters queixam-se de perseguição da polícia Municipal para deixarem a “mítica” Praça do Bispo

FAMA DO LOCAL ONDE NASCEU O SKATE LOUSADENSE JÁ CHEGOU AO ESTRANGEIRO

O fenómeno do skate lousadense nasceu no local denominado pelos praticantes como “Praça do Bispo” (na avenida Senhor dos Aflitos) e ganhou fama não apenas na região, mas também no estrangeiro. O fenómeno foi crescendo e a autarquia construiu um parque para a modalidade. Mas muitos praticantes mantêm-se fiéis ao local de origem. Além de gostar mais do Skate de Rua, em detrimento do Skate de Parque, dizem que o parque de Lousada tem defeitos e não cumpre várias condições. Queixam-se que são abordados pela Polícia Municipal para abandonarem a Praça.

Chama-se José Sousa, tem 25 anos, é natural de Santo Tirso e é um dos talentos mais apreciados pelos praticantes de skate da região. É conhecido pelo nome artístico Sousa Sk8 (abreviatura inglesa da palavra skate)1. Muitos dos seus vídeos tornaram-se virais e alguns foram filmados na “Praça do Bispo” (avenida Senhor dos Aflitos), conquistando milhares de visualizações e reações na plataforma Instagram.

O skatista disse ao O Louzadense que sabe “perfeitamente o que se anda a passar na Praça do Bispo, inclusive até mesmo eu já fui abordado. Somos obrigados a abandonar a praça a pedido da Polícia Municipal. O que nos é dito é que existem queixas, quando na realidade não estamos a fazer mal a ninguém, nem a faltar ao respeito, só queremos andar, praticar, visto que o skatepark não tem as melhores condições”. Justifica que aquele espaço “não está bem concebido, na minha opinião, mas o skate não se pratica apenas em parques”. A propósito, afirma que “existem vários sítios que são conhecidos por causa do skate e a Praça do Bispo é um local onde já apareceram bastantes skaters de várias zonas, já aparece em vídeos internacionais o que considero que seja bom para Lousada”.

Um dos vídeos de manobras praticadas por Sousa Sk8 na Praça do Bispo, publicado no Instagram, já ultrapassou as 14 mil visualizações e tem algumas centenas de comentários. Segundo o próprio, essa manobra “chama-se oficialmente bs noseslide to shovit to noseslide nollie flip out”, que em português significa algo como “um salto com slide, um flip, outro slide e aterragem com rotação do skate”. É um movimento de elevado grau de dificuldade, mas que José Sousa executa com grande mestria.

Outro skater ou skatista muito conhecido no meio, que costuma aparecer em Lousada para praticar, é Jorge Simões, do Porto. Aliás, esteve na inauguração do skatepark de Lousada. Este portuense é um nome sonante do skate em Portugal, e já conquistou triunfos em provas estrangeiras. A publicação de um vídeo gravado em Lousada, apesar de parecer relativamente simples, tornou-se viral há dois anos. Consiste num salto do patamar da estátua do Bispo para a rua e já ultrapassou as 20 mil visualizações, grande parte das quais de praticantes estrangeiros.

Jorge Simões (skater)

FENÓMENO CULTURAL E DESPORTIVO QUE NÃO PÁRA DE CRESCER

Embora limitado por problemas físicos, o jovem lousadense Afonso Rocha é um grande adepto do skate. Nos tempos livres procura sempre uma oportunidade para praticar um pouco. Mas, o que mais aprecia, é sobretudo o convívio e a cultura que envolve este desporto. “Já não se vê o skate e os seus praticantes como foras-da-lei, como marginais, porque a mentalidade dos praticantes é outra, diferente de outros tempos”, diz com visível satisfação o jovem de Nespereira.

Gosta tanto deste envolvimento cultural, desportivo e social que está a pensar usar os conhecimentos do curso técnico e profissional de comércio “para abrir um negócio relacionado com o skate, que não tenha só pranchas e acessórios, mas também trotinetas, vestuário urbano, tintas para graffiti, enfim, um pouco de tudo que esteja relacionado com os gostos dos praticantes e dos apreciadores deste desporto e de tudo o que anda à volta dele”.

A prática do skate “está a melhorar muito em Lousada”, e um dos fatores que levou a isso “foi sem dúvida a construção do skate parque”, reconhece Afonso Rocha. Ainda assim, “há muito por fazer e a modalidade precisa de mais apoios para melhorar, pois a adesão mostra que merece que se faça por isso”.

Explicando o alcance das suas palavras, Afonso esclarece que “o parque tem defeitos e problemas que já foram comunicados à Câmara, nomeadamente poças de água e pouca iluminação, além de que tem pouco espaço. Meia dúzia de crianças com triciclos, patins ou trotinetas ou mesmo pranchas, tiram espaço para manobras seguras”. E prossegue dizendo que “o piso também não é muito favorável porque em certos sítios trava e rompe muito as rodas dos skates, já para não falar do tipo de parque, que nunca devia ter sido construído numa inclinação e que não tem certas variantes que devia ter, como por exemplo não tem bowl, que é uma espécie de concha oval e profunda”.

FAMA DA PRAÇA DO BISPO CHEGOU AO ESTRANGEIRO

Questionado se é por causa desses fatores que a Praça do Bispo continua a ser muito frequentada, quando existe um parque para praticar skate, Afonso Rocha começa por responder que “é muito complicado e há várias causas”. Insistimos e lá adiantou que  “na Praça há mais espaço e o piso é melhor, apesar de estar partido em vários sítios, mas é um tipo de piso onde se desliza muito melhor que no piso do parque”. Além disso, “a Praça do Bispo é famosa em Lousada, arredores, no país e até no estrangeiro, basta ir ver nas redes sociais”.

Mostrando conhecer a fundo a modalidade, o jovem acrescenta que “é preciso também perceber que há dois tipos de desporto no skate, que é o skate de parque e o skate de rua, que são muito diferentes e até são duas modalidades diferentes nos Jogos Olímpicos”.

“Em Lousada há muitos praticantes que preferem o skate de rua, porque é mais genuíno, mais livre e liberdade é o essencial do skate, que é uma prática inventada para ser livre, uma forma de fazer surf em terra firme”, explica Afonso Rocha.

Falar das abordagens de que são alvo pela Polícia Municipal é algo que Afonso não quer pronunciar-se. Talvez por ser menor. Mas lá foi dizendo que “um brasileiro assistiu a uma intervenção da polícia e perguntou-lhes que lei estávamos a infringir e eles não souberam dizer”. Confirma que “pedem-nos a identificação e procuram convencer-nos a ir para o parque em vez de andar aqui na Praça”.

Não parece ser tarefa fácil. Se calhar Lousada devia seguir o exemplo de Guimarães, onde há um grande parque de skate e existe também uma rua dedicada ao skate.

1 O nome “Sk8” é pronunciado “sk” + “eight” (“oito”, em inglês), que é pronúncia em inglês da palavra “skate”. Exemplo: “Eu ando de sk8” é o mesmo que “Eu ando de skate”.

Nelson Oliveira, vereador da juventude

Não há reclamações, há pedidos

O Louzadense – Que balanço faz da utilização do skate e parkour park?

Nelson Oliveira – Fazemos um balanço muito positivo face ao número crescente de utilizadores que todos podemos constatar. Tem sido notório o sucesso desta infraestrutura, não só pelo número de praticantes mas também pela vinda de jovens de vários concelhos para Lousada.

O Louzadense – Tem conhecimento de reclamações por parte de utilizadores?

Nelson Oliveira – Não chamaria reclamação, mas sim um pedido. No final do ano passado reuni com um praticante local que nos solicitou um reforço da iluminação no Skate Parque, principalmente nos meses de Verão. É uma intervenção que já estamos a fazer.

O Louzadense – Está prevista alguma requalificação ou intervenção adicional?

Nelson Oliveira – Para além do reforço de iluminação, não. Mas este tipo de equipamentos requer sempre manutenção e melhorias, pelo que, quando se justificar, estamos abertos a isso.

O Louzadense – Além do “skate de parque” há o “skate de rua”, ambas modalidades olímpicas. Esta segunda, praticada na denominada “Praça do Bispo” (Av. Sr. dos Aflitos), ganhou fama na região. Contudo os skaters de rua queixam-se de “assédio” da Polícia Municipal para não o fazerem. Quer comentar?

Nelson Oliveira – O Skate Parque foi proposto no OPJ e consequentemente criado, exatamente por uma reivindicação dos jovens de não terem um local adequado para praticarem Skate. Por esse motivo e recorrendo a especialistas na área, nomeadamente responsáveis federativos, foi pensada a estrutura agora existente e todas as suas características técnicas, sendo que, a partir desse momento, o local primordial para a prática é o Skate Parque. Quanto à Av. Senhor dos Aflitos não há nenhuma proibição, o que há é um alerta para que os materiais usados pelos praticantes não danifiquem o local, nomeadamente as ceras usadas na escadaria que recorrentemente temos de limpar.

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