70.º aniversário do nascimento de um Grande Louzadense

MÁRIO FERNANDO RIBEIRO PACHECO FONSECA (1954-2012)

«Gosto tanto de Lousada, que nela gosto de tudo e nela desgosto de nada», era uma frase que Mário Fonseca gostava de proferir quando lhe perguntavam o que sentia pela sua terra. A propósito, em 2015, o seu cunhado e correligionário na Assembleia Municipal, João Amadeu Mesquita Baptista Ferro escreveu na Nota de Abertura do livro Silêncio, de José Carlos Carvalheiras: «Estas palavras, tão singelas e tão verdadeiras, traduzem o sentimento profundo que o Marinho nutria por Lousada e pelas suas gentes, sentimento que, reconhecidamente, os Lousadenses lhe retribuíam. Não tenho dúvidas de que o Marinho caminha, agora e eternamente, como diria Cecília Meireles, de mão dada pelas praias da madrugada com a sua amada Lousada».

Na próxima segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024, assinala-se o 70.o aniversário do nascimento de Mário Fernando Ribeiro Pacheco Fonseca. Nasceu a 26 de fevereiro de 1954 e faleceu a 3 de setembro de 2012, com 58 anos de idade. Deixou saudades, marcas e memórias em todos os que o conheceram. É profusamente lembrado como uma das figuras mais ilustres de Lousada, nomeadamente como médico, diplomado pela Faculdade de Medicina do Porto, tendo-se devotado a essa profissão num verdadeiro sacerdócio. Revelou um carácter humanista e solidário que lhe originou o epíteto de “Médico do Povo”.

O saudoso Mário Fonseca foi um cidadão amplamente identificado com os problemas e aspirações da sua terra e das suas instituições. Na Associação Desportiva de Lousada foi atleta, dirigente (Presidente da Assembleia Geral e Presidente da Direção) e treinador da secção juvenil. Também exerceu os cargos de Presidente da Assembleia Geral da Associação de Cultura Musical e do Conselho Fiscal da Associação Humanitária dos Bombeiros e de Vice-Presidente da Assembleia Recreativa e Desportiva Louzadense, foi professor no Colégio Eça de Queirós, diretor e cronista do jornal TVS e da revista Lousada. O que mais o marcou e onde mais vincou o seu lousadensismo foi seguramente no desempenho do cargo de Presidente da Assembleia Municipal, desde 1990 até à sua morte, após cumprir um mandato como deputado municipal (1985-1989).

Era filho de Eva Ribeiro da Fonseca e Fernando Pacheco Fonseca e neto de Mário Pinto da Fonseca, fundador da Farmácia Fonseca. Era irmão de Maria José e Maria Isabel Ribeiro Pacheco da Fonseca. Foi casado com Amélia Marques Leal, de Casais.

Recuperando testemunhos de pessoas que com ele conviveram, na política, na amizade, no trabalho e na família, O Louzadense selecionou os seguintes registos, que retratam de forma cabal esta pessoa magnânima da nossa história local:

O professor JOSÉ LUÍS GONÇALVES recorda que o diretor do colégio Eça de Queirós, Padre Mota, lhe disse em 1979: “preciso de alguém para dar aulas de biologia no colégio e lá fui. Nessa instituição conheci o Mário Fonseca, que por essa altura tinha substituído o Dr. Carlos Pacheco na disciplina de Saúde. Eu e o Mário criamos logo amizade. E começamos a colaborar de uma maneira interessante até a nível das ligações entre biologia e saúde. Descobrimos depois que a minha mulher tinha sido colega de uma das irmãs dele num colégio. Tínhamos afinidades comuns, ânsias culturais e as tendências políticas e ideológicas também nos ligavam muito. Éramos pelo que se chamava de Socialismo Democrático, não o nosso, mas o que vigorava nos países nórdicos”. Falar de Mário Fonseca torna-se inevitável falar de bairrismo e nisso era também gigante: “colaborei com ele na feitura da Revista de Lousada, que dirigiu na década de 1990, na qual ele defendia a divulgação de saberes e de tradições para que fossem preservados. Ele adorava a tradição e tudo o que fosse genuíno para Lousada, por isso defendia tanto o Z no nome da sua terra”.

O vereador CARLOS NUNES foi líder da bancada social-democrata na Assembleia Municipal (AM) e nesse âmbito travou conhecimento e uma relação nem sempre fácil com Mário Fonseca. “Nós tínhamos um percurso político-partidário distinto. Ele não era filiado no Partido Socialista, gostava do estatuto de independente, mas a postura na AM era assumidamente de militância”, afirma Carlos Nunes. Contudo, “algumas vezes também fazia o ataque contra algumas medidas do executivo camarário, como no caso do arranjo urbanístico da avenida Senhor dos Aflitos, em que a dada altura desceu da cadeira de Presidente para vir ao púlpito dizer que era contra aquele projeto”.

O atual vereador social-democrata ressalva que “dentro desta oposição, havia um objetivo que era comum: construir as condições para proporcionar qualidade de vida aos lousadenses”.

Ficaram na história daquele órgão debates intensos e até algum extremar de posições entre ambos: “Sim, tivemos momentos marcantes. Considero que o doutor Mário tinha uma coisa que eu próprio também tenho, que é viver com intensidade o meu concelho, a minha terra. Essa intensidade e vivacidade, leva-nos a sermos de tal forma afirmativos que às vezes não olhámos tanto à outra parte. E o doutor Mário também fazia isso com picos de intensidade muito fortes”.

Mas o social-democrata sublinha: “ambos tínhamos um respeito enorme um pelo outro. Tínhamos amigos comuns que tiveram a oportunidade de me confidenciar que também era esse o sentimento dele para comigo.

O anterior presidente da Câmara Municipal, JORGE MAGALHÃES, trilhou com Mário Fonseca, seu amigo de infância, caminhos coincidentes em várias e longas etapas da vida: “o Mário foi uma fonte de inspiração para mim. Divergíamos em algumas coisas, mas grosso modo tínhamos perspetivas idênticas nos principais assuntos e sobretudo nas grandes questões sobre Lousada. Estivemos sempre próximos em termos de pensamento. Aqui e ali discordávamos de algo mas eram exceções”. No livro supracitado, o ex-edil lousadense esclarece que “no que se refere à política e à ideologia, o Mário nunca foi individuo de partidos. Talvez por isso não era militante do Partido Socialista. Ele não precisava de cartão para pertencer onde achava que pertencia. Ideologicamente ele era de Esquerda, mais concretamente da Esquerda Moderada. Neste, como em muitos outros aspetos, partilhamos percursos e convicções idênticas. Para ele, o que contava, o que importava, eram as pessoas, não a ideologia. O grande lema da vida do Mário foi dar-se aos outros, sempre com Lousada como referência. A sua paixão pela profissão de médico, o seu humanismo e o desapego pelos bens materiais foram características sobejamente reconhecidas nele”. A rematar as breves considerações sobre o amigo, Jorge Magalhães identifica-o como “um homem de convicções, as quais defendia com um caráter a toda a prova. A grandeza de caráter das pessoas diz o quanto elas são genuínas e verdadeiras. Ele era notável nestas qualidades. Ele nunca se submeteu e pensou sempre por ele próprio, sempre crítico. Disso se dá conta nos seus escritos”.

A antiga assessora da Assembleia Municipal de Lousada, Maria do Rosário Ribeiro Pinto, de 53 anos, destaca que “o doutor Mário dignificava muito tudo aquilo que fazia, tinha que sair tudo o mais perfeito possível. Valorizava todas as pequenas coisas a nível profissional e preocupava-se muito com a correção e o rigor”.

“Ele tinha uma presença e uma imposição com objetivo de manter o respeito na Assembleia Municipal, por isso é que muitas vezes era acusado de antidemocrático e ditador e não sei quê, pronto, mas isso são politiquices, porque no fundo, as pessoas sabem perfeitamente que isso era mentira”, declara.

A vasta experiência de Mário Fonseca como  viajante pelo mundo foi útil a Maria do Rosário: “quando fui à República Checa levei um roteiro sugerido por ele, pois era uma pessoa atenciosa e muito prestável. O teatro negro de sombras, que foi a coisa que ele mais recomendou, eu fui ver e realmente aquilo era magnífico. Até fui ao sítio onde ele me disse que se tomava o melhor café. Também quando fui à Tailândia segui as indicações dele. O mercado flutuante que ele adorava e recomendou, de facto é magnífico”.

Da despedida, Maria do Rosário diz que foi dolorosa: “Fui visitá-lo antes da Festa Grande, de 2012. Não o vi mais. Da última vez que ele me ligou foi por um assunto que queriam levar à Assembleia, eu penso que era da área do professor Vilar. Ele não achou que aquilo estava correto. Faltava ali qualquer coisa que ele não estava a compreender e ele ligou-me logo. Já mal conseguia falar. Continuou sempre até ao fim, com aquela responsabilidade do lugar que ocupava. E com aquilo que ele valorizava muito, que era fazer bem feito e ter a certeza do que estava a fazer”, concluiu.

Primo em terceiro grau de Mário Fonseca, o técnico de farmácia António Luís Correia da Fonseca de Brito Aguiã, de 58 anos, recorda algumas das facetas que mais lhe admirava. Da infância recorda que “ele vinha ter comigo,  metia a mão ao bolso e dizia «pega lá 5 paus, vai comprar rebuçados para ti» e isso era um exemplo da estima que ele tinha pela família”.

Trabalhando em farmácia, Luís Aguiã apercebeu-se que “ele era um mestre nas prescrições… era um grande médico. Havia aqueles medicamentos em que fazia mais confiança, mas não era estático. Era um estudioso, acompanhava a evolução dos medicamentos e dos tratamentos”.

“Ao falar dele é imperativo falar da sua grande paixão pelas Festas, do seu  acompanhamento nas procissões, da arruada de bombos à sua porta. Tinha um carinho especial e um grande respeito pelo Senhor dos Aflitos”, sublinha.

Voltando ao tema das relações pessoais, Luís Aguiã refere um episódio que o marcou e que descreve o nobre caráter de Mário Fonseca também nessa área: “Ele era um homem que prezava a família, as ligações afetivas, a amizade. E veja-se este caso. Eu tinha ido aplicar uma injeção ao advogado doutor José Vieira, já em doença prolongada e encontrei-o em fase terminal. Liguei ao doutor Mário, que de imediato apareceu lá e vê-los naquele contexto arrepiou-me. Ele estava lá como médico, mas sobretudo estaria lá como grande amigo. Ele a examiná-lo para dar o óbito… Nunca tinha visto o doutor Mário a chorar. Chorou com as lágrimas todas, a despedir-se do seu amigo Zé”.

Saudade, ad aeternum.

Gratidão pelo Homem Médico Autarca

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