por | 28 Fev, 2024 | Economia, Sociedade

A experiência de Fitch O’Connell no restaurante «Caçador – Troca Nota»

ESCRITOR INGLÊS ESTEVE EM LOUSADA

Com o título «Bedlam and the cow» (numa alusão ao ambiente barulhento e ao naco de vitela), o escritor inglês Fitch O’Connell, autor do best-seller Rice and Chips, escreveu para o website da comunidade britânica no nosso país The Portugal News uma crónica sobre a sua ida ao restaurante Caçador – Troca Nota, em Nogueira.

“Por vezes, há alturas em que sentimos que saímos da nossa própria vida e entramos noutra coisa completamente diferente. Foi quando fomos almoçar perto de Lousada, fugindo aos aguaceiros de inverno. Era como se tivéssemos entrado num quadro de (William) Hogarth, talvez numa casa de pasto perto de Gin Lane”, assim começa a crónica o famoso britânico.

Pelo nome “O Cacador, O Pescador e outros Mentirosos”, o autor percebeu originalidade e achou que o local seria um pouco fora do comum. “Obviamente que o escolhemos pelo seu nome escandaloso (…)”, confessa. Entrar no restaurante, “foi como se tivéssemos tropeçado numa festa que estava a decorrer a todo o vapor há algum tempo. Não uma festa alimentada excessivamente pelo álcool, mas por uma espécie de convívio agitado”.

Restaurante O Caçador_Troca a Nota

Deliciosa é também esta passagem da crónica de O’Connell: “O local servia para take-away e esta fila misturava-se com pessoas à espera de uma mesa. Quando digo «fila», refiro-me obviamente a um aglomerado de pessoas. Como é que alguém sabia quem era o próximo na fila para levar ou sentar, era um mistério, mas parecia funcionar. Felizmente, tínhamos feito reserva. O restaurante era composto por uma série de pequenas salas e foi-nos atribuída uma mesa na sala mais próxima da cozinha, onde se concentrava o verdadeiro caos. Dizer que estava cheio é subestimar o efeito. Era quase como se houvesse o dobro das pessoas sentadas nas mesas em relação às cadeiras disponíveis. Não estavam, claro. Mas parecia que sim. Felizmente, ninguém se veio sentar ao meu colo. Não, a sério. Eu já estava espremido contra a borda da mesa”.

A empregada de mesa “era uma mulher muito bem disposta com a energia de meia dúzia de pessoas. Ficou encantada por saber que era a nossa primeira visita e declarou sem qualquer receio de contradição que tínhamos de comer os nacos de vitela, o seu prato de assinatura”. Isto pode entender-se como “especialidade da casa”.

“Não é que tivéssemos escolhido algo diferente, mas é que, no final, não nos foi dada a escolha. Ela foi-se embora com uma gargalhada contagiante. Alguns minutos depois, voltou à nossa mesa com uma travessa de metal de onde pegou num enorme pedaço de carne crua e ensanguentada. Isto serve-vos? Nós engolimos em seco. Um momento de pânico. Não nos apercebemos que tínhamos de a comer crua. Ah! Não temos. Suspiro de alívio. Acenamos com a cabeça e presumimos que íamos partilhar o pedaço de carne com outra mesa, talvez aquela ali com uma dúzia de pessoas. Não. De maneira nenhuma. É tudo para nós. Gargalhadas. Ela parte de novo em direção à cozinha, com a meia vaca ainda na mão, o sangue a escorrer-lhe dos dedos para que possa ser atirada para o carvão a arder”.

A refeição “chegou à mesa passado pouco tempo, ou talvez não nos tenhamos apercebido da passagem do tempo no meio de toda a excitação que os nossos companheiros de almoço sentiam pelo simples facto de estarem ali. O nível de ruído era bastante intenso, não só por causa do número de pessoas, mas também por causa do teto baixo. O teto era baixo, como se o próprio edifício estivesse vivo. A carne tinha sido cortada em quatro pedaços mais pequenos e qualquer um deles teria servido para nos alimentar aos dois, sobrando o suficiente para nos aguentarmos até quarta-feira. (…) Vão precisar de batatas e arroz, diz-nos ela. Não precisamos, mas isso vem na mesma. Há batatas suficientes para encher um pequeno campo e arroz suficiente para alimentar uma aldeia inteira. Ela traz também algum pão extra, e arrependemos-nos de já termos esvaziado um cesto disso. Começamos e, com cuidado, cortamos uma fatia de naco e provamos. É bom. Muito bom. De facto, é soberbo. Começamos a sentir a loucura partilhada por todos os outros clientes a invadir-nos. A empregada volta a passar e acena com a cabeça em sinal de aprovação. Ela vê nos nossos olhos que fomos contagiados. Volta a rir-se a plenos pulmões. Uma celebração”.

Depois de terem recusado “as tentativas pouco convictas de nos convencerem a escolher uma sobremesa, fomos à procura de uma inclinação adequada para caminhar, na tentativa de queimar algumas calorias. Ao longo da estrada, há uma bonita capelinha com um campanário de três sinos e, em frente, um solar meio escondido num jardim secreto e com uma bela varanda esculpida no primeiro andar. Ao lado da capela, a estrada sobe com elegância numa inclinação significativa, pelo que a percorremos durante algum tempo, precisando da inclinação, da capela e da bela casa para nos trazer de volta a um mundo ao qual pertencemos. Os nossos estômagos vão demorar um pouco mais a recuperar. Depois, a chuva recomeçou – seguida de grandes choques gelados que rapidamente aceleraram e nos fizeram correr para o carro”.

Fitch O’Connell é um formador de professores reformado e escritor académico que vive no Norte de Portugal, mais concretamente nas Terras de Basto, há mais de 30 anos. É autor de “Rice & Chips”, um olhar irreverente sobre Portugal, e outros livros. Contactado pelo jornal O Louzadense, revelou que em breve vai escrever sobre outro restaurante de Lousada. Aguardem.

Flitch OConnel é um europeista convicto

1 Comment

  1. Robert Carrington

    Gente famosa é outra coisa!

    Reply

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