por | 1 Mar, 2024 | Abril Louzadense, Cultura

Casa de Vilar, refúgio de Liberdade

ABRIL LOUZADENSE (X)

“Cheguei aqui, pela primeira vez, há mais de 50 anos numa situação de extrema dificuldade, pois estava na iminência de ser preso. Parte de mim ficou nesta casa”, referiu Manuel Alegre a 7 de Junho de 2018, no lançamento da fotobiografia do poeta Álvaro Feijó, da autoria de Rui Graça Feijó, na Casa de Vilar, freguesia de Vilar do Torno e Alentém. Foram acolhidos nesta propriedade e sua habitação vários combatentes do antigo regime, que fugiam da PIDE. Em 1964, Manuel Alegre foi ali refugiado e ali ultimou o livro Praça da Canção, obra histórica da literatura portuguesa. Por trás de tudo isto esteve Rui Maria Malheiro Távora de Castro Feijó.

A Casa de Vilar é património ligado aos caminhos da liberdade, trilhados por foragidos e clandestinos que iam a salto para o estrangeiro. Este símbolo da liberdade é uma casa com jardim murado, e mata também murada, separada pela estrada nacional. Ali funciona a casa-museu de Vilar, dedicada à imagem em movimento. O poeta vianense Álvaro Távora de Castro e Sousa Correia Feijó, aqui morou desde a juventude, numa herdade que era da família desde o seu tio-avô Coronel Júlio Augusto de Castro Feijó, que faleceu quando era presidente da Câmara de Lousada a 2 de agosto de 1922.

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Após o falecimento de Álvaro, o irmão Rui Maria herdou a casa. Este nasceu a 25 de março de 1921 na Casa da Carreira (atual edifício da Câmara Municipal de Viana do Castelo), filho do Dr. Rui de Meneses de Castro Feijó e de Maria Luísa Malheiro de Faria e Távora de Abreu e Lima. Viria a falecer a 15 de maio de 2008.

Defensor da democracia, Rui Feijó participou nos movimentos oposicionistas ao regime fascista, integrou a rede clandestina Shell durante a Grande Guerra, organização que perante a ameaça de uma invasão das potências do Eixo criou dezenas de esconderijos e de depósitos de combustível, sob a coordenação de um agente diplomático britânico. Notável foi também o seu papel na Comissão de Socorro aos Presos Políticos, em 1969.

Dotado de uma profunda intelectualidade cultural e política, desenvolvida em Coimbra, Rui Feijó fez parte da linha editorial da importantíssima revista Vértice. Ali privou com renomados autores e críticos democratas do neorrealismo, como Joaquim Namorado, Armando Bacelar e João José Cochofel. Este último foi quem urdiu a escapada de Manuel Alegre de Melo Duarte, para Lousada.

Profusamente perseguido pela PIDE, Manuel Alegre iniciou o percurso político em 1956 com a entrada para a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde fez parte de grupos de oposição estudantil ao Estado Novo. Tornou-se militante do Partido Comunista Português em 1957. Enquanto membro da Comissão da Academia, apoiou (em 1958) a candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República. Em 1963, participou numa sublevação militar, em Angola, onde estava destacado. Foi detido pela polícia militar e entregue à PIDE, que o recambiou para Portugal, onde foi mantido em prisão domiciliária, em Coimbra.

Em Maio de 1964 é avisado de que corre o risco de ser preso pela polícia política e refugia-se em Lisboa, na casa do poeta João José Cochofel. Alguns dias depois é trazido pelo amigo para o Norte, para se refugiar na propriedade de Rui Feijó, a Casa de Vilar.

O acesso à casa e ao jardim é feito por um portal que abre para um átrio com magnólias e tulipeiras. Num patamar inferior encontra-se uma fonte com azulejos trazidos do antigo Convento de São Francisco de Viana do Castelo, antiga propriedade da família. Neste local encontra-se a piscina. Possui uma notável araucária (uma espécie de pinheiro) e sempre em patamares inferiores uma pequena gruta artificial, com pedra e betão naturalizado, típica do final do séc. XIX, início do séc. XX. No patamar inferior encontra-se horta e pomar. A mata confrontante com a casa possui acesso por portão com inúmeras espécies como carvalhos, cedros, carvalhos americanos e tílias. Neste contexto bucólico e prazenteiro Manuel Alegre terminou a sua obra-prima, Praça da Canção, um livro de poemas por si manuscrito e datilografado por Margarida Larcher Graça, segunda esposa de Rui Feijó.

Em Julho de 1964 abala de Lousada para o exílio, com a ajuda dos advogados Armando Bacelar e Montalvão Machado, em cuja quinta, perto de Chaves, atravessa a fronteira. De Paris foi para Argel, em 1965, ano em que a Praça da Canção foi editada em Coimbra. A primeira edição do livro foi proibida e apreendida pela a polícia política do antigo regime, tendo circulado clandestinamente, sobretudo entre os estudantes da Universidade de Coimbra. Enquanto isso, na capital argelina, a voz de Alegre, passa a ser também a Voz da Liberdade, emissora da portuguesa Frente Patriótica de Libertação Nacional, que emitia para Portugal, denunciando e combatendo a ditadura salazarista.

Isso contribuiu decisivamente para uma imediata e ainda maior repercussão do livro e do autor, o qual haveria de ser recebido de volta em Portugal como herói nacional, a 2 de Maio de 1974.

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