por | 8 Mar, 2024 | Abril Louzadense, Cultura

AS LOUZADENSES DE ABRIL

ABRIL LOUZADENSE (XI)

Quando chegou Abril no ano de 1974, a mulher de Lousada de um modo geral não tinha um papel ativo na vida pública. Vivia-se numa sociedade profusamente tradicionalista e vincadamente patriarcal. Entre algumas exceções estavam professoras primárias, que manifestavam opinião e alguma participação ativa na vida pública. Eram os casos de Emiliana Carvalho, mãe de Júlia Guimarães, a primeira mulher a entrar para a Assembleia Municipal, em 1976. Outra pioneira foi Maria de Jesus, de Boim, a primeira mulher a liderar uma Junta de Freguesia no concelho de Lousada.

Nos tempos conturbados da política após o 25 de Abril, Lousada teve uma mulher na Assembleia Municipal: Maria Júlia Nunes Simões de Carvalho Guimarães, licenciada em Engenharia Química. Tal como a sua mãe, Emiliana Carvalho, que foi professora em Meinedo nas décadas de 1940 e 1950, também Júlia aderiu ao Partido Comunista. Esta casou-se com Joaquim Gaspar Guimarães, da Casa do Rio (S. Fins do Torno), igualmente militante do PCP. No livro “O Séc. XX em Lousada” (1999,CML), Júlia Guimarães recorda que as sessões na assembleia municipal “duravam até às quatro da manhã”. A primeira mulher naquele órgão focou nessa entrevista diversas dificuldades que a “bancada” comunista sentia naquele órgão autárquico, destacando “o preconceito e a má vontade que havia em relação ao Dr. Arnaldo Mesquita. Cada vez que ele apresentava uma proposta, era imediatamente rejeitada em peso. Porém fazia outra proposta com a mesma substância mas “mais suave” e era aprovada. Algumas vezes por aclamação. Vinte e cinco anos mais tarde isso parece hilariante. Na altura não tinha graça. Lutar contra o imobilismo e a ignorância pode ser extenuante”.

Com o marido, Joaquim Gaspar Guimarães, estiveram em Cernadelo “a fiscalizar uma mesa de voto, nas eleições autárquicas de 1976, quando os sinos tocaram a rebate para reunir uma multidão com más intenções e foi necessário manter o sangue frio, chamar as Forças Armadas de Penafiel”. O marido teve que puxar de pistola. Saíram ilesos no corpo, mas feridos no orgulho. A antiga partidária comunista disse na ocasião que aquelas pessoas “estavam dispostas a «chegar-me a roupa ao pêlo»” e recorda que “como tinha um ar bastante jovem, pensaram que me intimidavam”. Entre as boas recordações, gostava de relembrar uma pessoa que deu um “contributo bastante válido e importante” na democratização do concelho de Lousada: Alcino Malheiro, de Meinedo, que ajudou a organizar campanhas, mesas de voto e sessões de esclarecimento. Estava sempre disponível e tinha um grande sentido moral. Merece todo o nosso respeito”. Durante dois mandatos, Júlia Guimarães deslocou-se frequentemente do Porto para Lousada para intervir nas Assembleias Municipais, onde era Secretária. “O cansaço começou a instalar-se. Estava aqui, muitas vezes, até às quatro da manhã e às oito e meia estava a dar aulas num liceu do Porto. A par disso mantinha atividade sindical, o papel de mãe, de esposa e dona de casa”, recorda. No princípio da década de oitenta desistiu da política ativa, mantendo-se na atividade sindical.

Fazia parte dos serões da família Guimarães o convívio com um grupo de militares que viria a ocupar o Rádio Clube Português (RCP), de onde se destacavam pessoas como o então Capitão Costa Neves e o Major Sacramento Gomes, que mais tarde, em Colares (Sintra) discutiram os últimos pormenores da revolução. Nesse dia o capitão Costa Neves pediu emprestado, a Júlia Guimarães, o disco “Grândola Vila Morena” do Zeca Afonso. Precisamente o que viria a tocar no RCP, às 2 horas da madrugada do dia 25 de Abril, servindo de segunda senha ao movimento revolucionário.

Outra mulher que se destacou na década de 1970 neste concelho foi Maria de Jesus Ferreira Pinto. Foi a primeira presidente de junta no concelho de Lousada.

Frequentou o liceu Eça de Queirós e orgulhava-se de nunca ter reprovado apesar de algumas ausências prolongadas nas aulas por problemas de saúde. Aos 18 anos começou a lecionar no ensino primário.

Fez parte da lista do Partido Social Democrata, que ganhou as eleições de 1976 em Boim, sendo eleita presidente da Junta de Freguesia. Numa época ainda marcada por fortes preconceitos e acentuados valores tradicionalistas, não era fácil uma mulher estar na política e muito menos na liderança de uma Junta. Além desses obstáculos, Maria de Jesus tinha uma família grande e era professora. Com base em tudo isso acabou por resignar ao mandato.

Foi professora durante 40 anos, ao longo dos quais sobressaiu uma imensa solidariedade para com os mais necessitados. Sempre que se afigurava possível fazer serviço cívico lá ia ela. Ficaram famosas as suas andanças pela freguesia distribuindo injeções e vacinas nas campanhas estatais de erradicação de problemas de saúde. O seu trabalho de professora era uma autêntica profissão de fé e dedicava-se ao ensino com empenho absoluto.

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