por | 19 Abr, 2024 | Abril Louzadense, Cultura

O Nó da Gravata

ABRIL LOUZADENSE (XIII)

Nos últimos meses de 1973 um grupo de jovens que integrava Jorge Neto, Mário Fonseca, Jorge Magalhães e outros, quiseram desafiar o modus vivendi, “sem levantar muitas ondas”, mas o suficiente para dar à sociedade lousadense uma lufada de ar fresco. Escrever no Jornal de Lousada foi um dos meios que descortinaram para isso. O futuro médico Mário Fonseca abordou o diretor daquele periódico e assim surgiu «O Nó da Gravata», a secção daqueles jovens revolucionários.

Há precisamente 50 anos, o Nó da Gravata era a designação do conjunto de artigos das páginas centrais do Jornal de Lousada. Chamava-se assim por analogia ao “nó na garganta”, voz calada e palavra amordaçada. O jornal era propriedade do lousadense Manuel Afonso da Silva, que dez anos mais tarde haveria de fundar o jornal Terras do Vale do Sousa, em colaboração com Mário Fonseca, o mentor d’ O Nó da Gravata.

A sociedade lousadense há meio século, nas vésperas do 25 de Abril, era bastante pacata e obedientemente regrada, conforme mandavam os ditames do Antigo Regime. Alguns ousavam resistir e abanar a ordem, de forma declarada, como os experientes revoltosos que a PIDE perseguia. Outros, faziam-no de forma velada e indireta. Nestes encontravam-se jovens estudantes. Uns e outros formavam um lamiré de mudança que se iria operar na célebre data de Abril.

Naquela Lousada, que antecedeu a revolução de 25 de Abril de 1974, a pacatez e a ordem eram de modo genérico reinantes na vida lousadense, que pousava num tradicionalismo raras vezes posto em causa. Assim queria o poder vigente do Antigo Regime. Sob esse cenário viviam as instituições e entidades locais. Era Presidente da Câmara António Ildefonso dos Santos, de Bustelo (Penafiel), que era professor primário e delegado escolar em Lousada. Uma das últimas decisões antes da destituição provocada pela revolução foi a eletrificação de algumas freguesias, conforme refere um edital da época: “Na reunião ordinária desta Câmara Municipal, de 25 de Março findo, foram adjudicadas as seguintes obras: (…) Electrificação da freguesia de Nevogilde, pelo valor de Esc. 180$00; instalação da cabine de Marecos (Cristelos), pela importância de Esc. 98$00”.

Na estação dos Correios a chefia estava entregue a António Ferraz Moreira e no Tribunal, o Juiz de Direito era Joaquim Lúcio Faria Teixeira e o Escrivão de Direito era Joaquim Leite Moreira. No Cartório Notarial estava o lousadense Alberto de Sousa Novais.

Os Bombeiros Voluntários eram comandados por Amílcar Abílio Pereira Neto, que haveria de ser o primeiro presidente de Câmara democraticamente eleito em Lousada. Na direção dos BVL estava Joaquim Graça Gonçalves Solha, figura importante do Grémio.

Por essa altura já Narciso Ribeiro da Mota, que iria ser o primeiro presidente da Associação de Cultura Musical de Lousada, era um abastado empresário local da indústria da panificação. No Jornal de Lousada, lia-se que ele e a sua esposa Maria José Teixeira dos Santos, tinham iniciado viagem para visitar uma filha radicada na Venezuela. Hoje em dia reside no Porto.

Ainda na área comercial um anúncio dava conta da abertura da Óptica Neto, propriedade de António Manuel da Silva Neto, que comunicava “aos seus estimados Clientes e Amigos que acaba de montar uma Secção de Óptica com técnico especializado e que atende também receituário de beneficiários da Previdência e das Casas do Povo”. O seu primeiro funcionário foi António Maria Ferreira, que ainda hoje, 50 anos depois, exerce as funções.

O mesmo jornal informava que um cidadão de Cristelos, recebera a medalha de Cruz de Guerra. Tratava-se do soldado atirador António Augusto Ribeiro Nunes Esteves, que protagonizara feitos de grande bravura na guerra do ultramar. Nem todos tiveram a mesma sorte. Muitos ficaram por lá. Outros regressaram em sacos fúnebres ou caixões. Foi o caso do único filho do médico dentista de Lousada: “(…) o jovem Alferes Piloto-Aviador Tomás Augusto de Barros Brás, de 25 anos de idade, foi ceifado à vida tragicamente, quando no passado dia 12 um avião da F.A.P. explodiu, momentos antes de aterrar no aeródromo local.  O malogrado oficial era filho do snr. Dr. Manuel da Silva Brás e da Srª D. Maria da Glória Barros Brás, residentes em Nevogilde, que estão inconsoláveis com o fim trágico e prematuro deste seu único filho”.

No futebol, a Associação Desportiva de Lousada jogava no campo pelado da Boavista e disputava a 2.a Divisão Regional. Da equipa faziam parte o guarda-redes Alfredo “Pirota”, os defesas Alípio, Lamarão, Rita e Franco, os médios Chico, Soares e Jerónimo; e os avançados Teixeira, Neca e Ferreira “Bagaço”, entre outros.

O futebol ocupava lugar de destaque nas conversas e enchia páginas da imprensa nacional. Um assunto em voga na ocasião dizia respeito à transferência astronómica de Teófilo Cubillas, um famoso jogador peruano que ingressou no Futebol Clube do Porto. “(…) a avultada verba por que o famoso jogador foi adquirido é motivo de vários comentários, considerando um atentado ao nosso nível de vida (…) diz-se que o jogador ganha mais em dois dias do que a maioria das famílias portuguesas auferem mensalmente. Na verdade é um descalabro que um homem receba tal importância em tão pouco tempo só por que dá uns pontapés na bola, enquanto que um chefe de família luta diariamente pela sobrevivência do seu agregado e vê o seu trabalho mal remunerado no final de cada mês”, lê-se num artigo assinado por «Jotacê», no jornal de Lousada de 24 de Março de 1974. Uma temática que não perdeu atualidade…

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