Lousada está a tornar-se num dormitório sem espírito comunitário

JOSÉ CARLOS BESSA MACHADO, EX-PROVEDOR DA SANTA CASA

Foi na Santa Casa da Misericórdia de Lousada (SCML) que Bessa Machado mais intensamente viveu a causa pública, da qual se retirou em março, deixando obra e uma instituição consolidada e estável. Antes disso, esteve no hóquei em campo, onde foi tudo, até motorista; passou pela Assembleia Louzadense, pela Associação Industrial, que ajudou a fundar; pela Associação de Cultura Musical, onde criou a secção de desporto automóvel, que foi a génese do Clube Automóvel de Lousada; da política não releva muito, apesar do papel preponderante que teve no PSD na segunda metade da década de 1970 e início de 1980, saiu “desalentado”. Critica o “profissionalismo e carreirismo que se instalou e que origina, por exemplo, que muitos políticos se sirvam do público em vez de fazerem serviço público”.

Antes de terminar o curso de Engenheiro Técnico Agrário, em Coimbra, em 63, José Carlos Bessa Machado já organizava eventos e mobilizava as pessoas e sobretudo os amigos, para a atividade pública. Esteve na fundação do futebol e do primeiro campo de jogos em Macieira. Nessa sua freguesia de origem fez também espetáculos de angariação de fundos. O empreendedorismo desportivo, social e cultural estava-lhe na génese. E viria a desenvolver-se exponencialmente ao longo dos seus 80 anos de vida, completados a 4 deste mês.

“No final de ’63 fui para Angola estagiar durante um ano. Adorei. Foi uma experiência extraordinária e só não fiquei lá porque fui chamado para a tropa.

Entretanto, quando regressei do Ultramar, fui para a Comissão de Viticultura de Vinho Verde.” Nesta altura surge o grupo musical Os Moscas, do qual foi fundador. Em ’68 foi para Moçambique e voltou em 1970. “Voltei em 70 de Moçambique e em ’71 fui trabalhar para uma empresa de adubos para a agricultura.” Por essa altura, “o Joaquim Valinhas encontrou-me e disse-me «hoje à noite há treino de hóquei em campo, apareça lá». Eu nem sabia que desporto era esse. Lá apareci, treinei, gostei e ele pediu-me uma fotografia para a inscrição. No domingo seguinte já estava com um stick na mão a jogar. Além de jogador, fui diretor da secção do hóquei em campo na ADL, fui motorista, fui tudo. Fui sempre assim, se era para fazer parte de algo envolvia-me com todo o empenho. Não sabia estar de outra forma”.

“Em 1974 casei. A minha esposa trabalhava na Segurança Social de Braga e decidimos instalar-nos em Guimarães, onde vivemos por uns tempos.”

Na cidade-berço não esteve muito tempo. Aliás, nunca ficou muito tempo longe, por onde passou. A sua Lousada chamava-o, puxava-o. E aqui sobressaía o seu afã social, cívico, associativo, dinamizador. Sempre em equipa, mas destacando-se pela sobriedade intelectual e estratégica. Na posse destes atributos foi com naturalidade que liderou um dos fenómenos mais marcantes da era moderna local: o desporto motorizado, primeiro na ACML e depois no CAL. “Com o José Pinto e o Rui Mesquita comigo desde a primeira hora”, sublinha, no seu jeito característico de nunca esquecer quem o companha e de enaltecer o trabalho de equipa.

Da vida profissional deste nosso entrevistado, importa mencionar que trata-se de um reconhecido expoente no setor imobiliário. Depois da passagem pela Quimigal em meados da década de 1980, dedicou-se à construção, compra e venda de imóveis. Iniciou, durante pouco tempo, na Befebal, depois com uma ou outra sociedade pontual e finalmente por conta própria. “Quando os planos diretores municipais apareceram, já na década de 1990, propus à Câmara juntar entidades locais e individualidades para debater e definir um plano de ordenamento do território e expansão urbana de Lousada. A resposta que me deram foi que isso só ia emperrar o desenvolvimento e atrasar as decisões”, revela o engenheiro.

Ainda sobre o atual panorama urbanístico da vila, Bessa Machado entende que “Lousada devia ter mais qualidade de vida. Os decisores, assim como os investidores, deviam controlar certos ímpetos expansionistas” e acrescenta que “Lousada tende a ser cada vez mais um dormitório e uma localidade com menos espírito comunitário”.

RAZÕES EXTERNAS IMPEDEM AVANÇOS

Foi na Santa Casa que porventura dedicou o maior quinhão da sua vida pública. Corria o ano de 2003 e José Carlos de Bessa Machado queria centrar-se na sua vida pessoal, sobretudo profissional e familiar. “Fazia algum tempo que eu já andava a dizer ao Jaime (Moura) e à Lúcia (Lousada), que pensava deixar o Clube Automóvel e a Santa Casa, respetivamente”, confessa. Do desporto automóvel saiu, mas da Santa Casa não conseguiu. “Não tive como sair, pois a Lúcia faleceu subitamente e foi como se eu tivesse ficado com a criança nos braços”, afirma.

José Carlos Bessa Machado

A ligação à SCML por parte de Bessa Machado remonta ao dia do seu aniversário, em 1988: “a 4 de Abril desse ano tomei posse na Santa Casa, na lista encabeçada por Lúcia Lousada. Ela era quem geria tudo e eu não me ocupava com muito”.

Começou a ocupar-se e a preocupar-se com a Misericórdia quando viu esta entrar “em risco de sobrevivência”. Na ocasião “exigi que fossem tomadas medidas para resolver um problema que se iniciara em 2000, quando o hospital da Misericórdia de Lousada passou a ter um conselho de administração, que era presidido pelo diretor clínico Faria de Almeida, a convite de Lúcia Lousada. “Aquilo foi um descalabro. Em três anos atingiu prejuízos avultados ao ponto de chegar a 80 mil euros mensais de deficit”, revela Bessa Machado.

“O Faria de Almeida foi embora e para o seu lugar propus o Dr. Carlos Santos, uma pessoa da terra e já nossa conhecida. A partir dali tentou-se recuperar a administração ruinosa que o hospital vinha tendo”, resume.

“Eu queria continuar na Santa Casa, pois há muitos projetos para realizar, muitos deles, com os quais sonhei, mas acho que há uma equipa de gestão e administração capazes de levar a bom termo esses projetos”, afirma o ex-provedor aludindo à sua saída.

No seu desempenho enquanto Provedor da Misericórdia, “houve uma primeira fase que foi da recuperação económica e financeira da instituição. Foi um período crítico, mas foi atingido e ao fim de quatro ou cinco anos, conseguiu-se ultrapassar essa crise que estava instalada”. Referindo-se ao segundo período do seu cargo, “foi de recuperação dos equipamentos sociais, onde fizemos obras internas em várias áreas. Tivemos de construir, relativamente à pressa, um novo infantário, porque não havia condições na Casa de Ribeira. Depois também fizemos a recuperação de todos os outros edifícios, nomeadamente dos dois lares”.  Por último, “houve um terceiro momento dos meus mandatos em que o foco foi a ampliação do hospital, para uma área quase do dobro, talvez até mais do dobro do que a inicial”.

Mais não foi feito, mas há “a disponibilidade da instituição de avançar para novos projetos, novos desafios sociais, e alguns deles ainda não se concretizaram porque houve obras que já deveriam estar prontas e que infelizmente não arrancaram”. Sobre o atraso disso, o ex-Provedor afirma de forma enigmática: “são razões externas à instituição”.

AGASTADO COM A POLÍTICA

Não falar de política deixaria (ainda mais) incompleta qualquer abordagem biográfica a Bessa Machado. Pouco depois do 25 de abril, deu-se a sua entrada na esfera partidária. Uma má experiência, segundo o próprio. “Quase toda a gente era aliciada, digamos assim, para pertencer a algum partido. O doutor Guerra puxou-me para o PSD. Certo dia, cruzando-se comigo: Preciso de si, quero que faça parte. E lá me inscrevi. Mais tarde fui para a Comissão Política. Estive nas primeiras eleições autárquicas e fiz parte da Assembleia Municipal, mas eu não conseguia defender coisas com as quais eu não concordava”, recorda. “Cansei-me de ver gente entrar para a política e para cargos públicos para se governar, para resolver os seus problemas, para fazer o que se faz muito hoje, que é servir-se do povo e não servir o povo”, lamenta Bessa Machado.

“Desde então cortei com a política. Isso custou-me a perda do meu melhor amigo na altura. Onde há carreirismo no serviço público, servem-se do público, porque as máquinas partidárias são profissionais da política. Eu não concordo com isso, não pactuo com isso. Nem com o aproveitamento que se vê da política quando se trata de tirar dividendos do que se faz a nível social”.

PISTA DA COSTILHA: É PRECISO INOVAR

Porventura a personalidade com mais experiência organizativa no desporto automóvel em Lousada é Bessa Machado. Por isso, impõe-se ouvir a sua opinião sobre a tão propalada questão da continuidade ou mudança da pista da Costilha.

Diz que, em 2003, quando saiu do Clube Automóvel, “já era altura de mudar, de decidir o que fazer com a pista. Neste momento, 20 anos depois, a questão central nisto tudo continua a ser queremos que a pista da Costilha e o desporto automóvel de Lousada tenham objetivos nacionais, ou algo mais”.

Defende um debate amplo para perceber “que vertentes, que modalidades e serviços, para que diferentes públicos, se pretende”. E mediante isso, se for para evoluir, “é de encontrar um outro local para a pista de Lousada. É a proposta que eu defendo. Tal como o F.C. do Porto, no devido tempo teve que passar do campo da Constituição para o Estádio das Antas. Creio que também a pista precisa de ser substituída por algo de outra dimensão”.

Pegando no exemplo da década de 1980, “na altura do Autocross Europeu, fomos inovadores. Neste momento defendo que também devemos inovar, pensar à frente e aprender com os europeus, com os melhores exemplos que existem no desporto automóvel desta dimensão noutros países. Foi o que fizemos na altura e adapta-se perfeitamente à atualidade”, conclui Bessa Machado.

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