por | 3 Mai, 2024 | Sociedade, Uncategorized

Memórias da guerra colonial atormentam antigos combatentes

LOUSADENSES NO ULTRAMAR (PARTE 1)

Nem tudo foi mau, dizem os que tentam perspetivar algo de positivo na guerra colonial. A camaradagem e amizade, que se prolongaram pela vida fora e se reflete nos convívios anuais, são aspetos valorizados. Mas os traumas e pesadelos estão ainda vincados em muitas vidas. Neste trabalho d’O Louzadense dividimos o tema da participação de lousadenses na Guerra Colonial em duas partes. O foco desta primeira abordagem vai para o lado negro desse capítulo da História de Portugal. Milhares de portugueses morreram em solo africano, entre os quais algumas dezenas de lousadenses, cujos nomes estão inscritos no monumento de homenagem sito na rua de Santo André, nesta vila. O falecimento do piloto aviador Tomás Augusto de Barros Brás, de Nevogilde, a 12 de Maio de 1974, em Moçambique, foi particularmente comentado e sentido em Lousada.

A crescente oposição ao regime ditatorial português fazia da guerra colonial uma das suas causas mais fortes. Viria a ser um dos motivos basilares da Revolução de 25 de Abril. Para encobrir aquela realidade nefasta, o regime fascista ocultava os dados sobre a mortalidade. Ao mesmo tempo promovia notícias que adulteravam a realidade penosa da guerra e incentivava o envio para jornais de fotografias alegres por altura do aniversário dos militares, por exemplo.

Uma mudança neste modo de operar surgiu no Jornal de Lousada de 18 de Maio de 1974, que noticiava algo que muito esporadicamente acontecera antes do 25 de Abril desse ano: o falecimento de um militar na guerra do ultramar. O artigo intitulava-se “Jovem piloto aviador falecido em Moçambique” e no texto lia-se: “Causou a maior consternação nesta Vila, onde seu pai goza de geral estima, o falecimento em Vila Pery (Moçambique) do jovem Alferes Piloto-Aviador Tomás Augusto de Barros Brás, de 23 anos, ceifado à vida tragicamente quando no passado dia 12 um avião da FAP explodiu momentos antes de aterrar no aeródromo local. O malogrado oficial era filho do Snr. Dr Manuel da Silva Brás e da Sra D. Maria da Glória Barros Brás, de Nevogilde, que estão inconsoláveis com o fim trágico do seu único filho”.

Notícia de falecimento em ultramar do filho do Dr. Manuel Brás

Um amigo do falecido, Paulo Natalino Barros, de Lousada, que também foi combatente em Moçambique, recorda que recebeu a notícia do falecimento “com choque”. “Nunca mais esqueci esse dia, foi à hora de almoço e nem comi. Eu estava muito habituado a lidar com a morte, mas aquela notícia marcou-me”, relata o ex-combatente.

Em nome de Portugal, o Estado Novo mandou matar e os soldados mataram. Outros morreram. Muitos voltaram com marcas para sempre ou feridas duradouras. Alguns foram apelidados de loucos. “Eu vim um bocado afetado, depois de três anos na guerra”, confessa Paulo Barros, que esteve quase três anos perto da fronteira de Moçambique com a Zâmbia, “uma zona muito brava do conflito”.

Paulo Natalino Barros_Guerra do Ultramar

Depois do regresso, o que mais lhe custou foram “os barulhos repentinos e o som dos foguetes, mas comigo isso não durou muito. Outros não tiveram essa sorte e ainda hoje muito sofrem de stress traumático da guerra”.

A Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra (APVG) refere que é uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde desde 1993, com o nome específico de “Post-Traumatic Stress Disorder”. Esta doença manifesta-se por exemplo em pesadelos e sonambulismo.

“Dizem que falar do que se viveu na guerra ajuda a lidar com as más memórias e com o stress, mas eu nunca gostei de falar disso. Esta entrevista é uma das raras vezes que vou a fundo neste assunto”, afirma Paulo Barros, de 74 anos.

A entrevista fluiu em forma de conversa e de vez em quando o entrevistado fazia notar que “esta parte não é para publicar”. Disse-o três vezes, sobre outros tantos “acontecimentos tenebrosos”.

UM BRANCO COM NEGROS NO MATO

Foi aos 21 anos que Paulo Barros foi destacado para liderar uma “milícia operacional” na província de Tete, em Moçambique. “Aos 18 ou 19 anos eu sabia que ia ser chamado para a guerra, como quase todos naquela altura, em finais de 1960, por isso pensei que a melhor forma de me preparar para aquilo era ir para uma força especial e decidi inscrever-me nos Rangers de Lamego, onde fui apurado com uma das melhores notas”, relata com orgulho.

Paulo Barros 2024

As qualidades que demonstrou naquela unidade de preparação de militares habilitaram aquele jovem militar para formar e liderar um grupo de 30 militares, a tal “milícia operacional”, que realizava operações especiais.

“Era um grupo muito bravo, onde eu era o único branco e os restantes eram negros de Moçambique, alguns dos quais com cadastro, gente habituada a matar, por vezes com métodos pouco ortodoxos”, mas salienta que “todos eles me respeitavam muito”.

“Um dos nossos objetivos principais era destruir bases e acampamentos do inimigo”, revela Paulo Barros, que explica como procediam: “éramos transportados de helicóptero que nos largava a alguns quilómetros do alvo, ao qual os aviões a jato lançavam napalm e bombas para destruir os sítios onde nós íamos, a seguir, fazer o rescaldo e terminar o serviço, por assim dizer. O napalm era proibido, mas o Estado negava que isso era usado. Isso e não só. Havia muita ocultação”, revela.

As minas eram o maior perigo. Caminhos e estradas eram uma preocupação sempre presente no quotidiano deste grupo especial. “Certo dia morreu-me nos braços um militar bastante amputado quando o nosso veículo foi atingido por uma mina e através das telecomunicações pedi à base um helicóptero para evacuar os feridos, mas não nos socorreram. Quando cheguei à base e vi dois helicópteros parados insurgi-me, em alto e bom som, contra um militar bastante graduado que lá estava e o resultado foi ficar preso nesse Natal”, recorda, com um encolher de ombros.

Quando se deu a revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal, “um capitão veio ter connosco e disse que tinha havido um golpe de Estado e o regime tinha caído. No início ninguém acreditou. Mas acabamos por perceber que algo de diferente estava a acontecer. A partir daquele dia as tropas foram mandadas recuar dos postos avançados e havia ordens para diminuir os ataques”, narra Paulo Natalino Barros. Regressado a Portugal, em Setembro desse ano, o ex-combatente dedicou-se à sua grande paixão, a pintura e é hoje uma grande referência na área.

“OS REIS DO INFERNO” NA GUINÉ

O pelotão de Luís da Silva, lousadense de Cristelos, tinha um nome que não deixava dúvidas quanto ao seu ímpeto guerreiro. As façanhas vividas pelos “Reis do Inferno” foram publicadas em livro, mas só cinquenta anos depois da sua ocorrência. Assim se proporcionou na vontade e ensejo daquele antigo combatente.

Foi incorporado a 23 de julho de 1968  e de partiu para o Ultramar a 23 de outubro de 1968, mais concretamente para a Guiné Bissau onde esteve como soldado n.º 105071 do Segundo Pelotão da Companhia 2443.

Luís da Silva

Recorda como se fosse hoje que embarcou “na Estação Marítima do Conde de Óbidos,  em Alcântara (Lisboa). Chegamos à Guiné-Bissau cinco dias depois, ou seja, em 28 de outubro de 1968, para uma estadia de dois anos, cheia de incidentes e peripécias”.

Foi inicialmente colocado na região de Bigéne, um setor na região de Cacheu da Guiné-Bissau com 1.082,2 quilómetros quadrados. Localiza-se na província Norte, na zona de fronteira com o Senegal, numa zona onde os resistentes à ocupação portuguesa estavam muito ativos nas ações de guerrilha.

Capitão Tomás Barros Brás

A 13 de novembro de 1968 “aconteceu um ataque dos turras (nome atribuído pelos militares portugueses aos combatentes independentistas africanos, durante a guerra colonial) ao nosso Quartel, sem qualquer prejuízo para as tropas, mas foi marcante para mim, por ser o primeiro de 16 ataques durante a minha estadia em Bigéne”.

No dia 18 de janeiro de 1969 ocorreu “o primeiro prejuízo para o Estado e camaradas da Companhia 1745, tendo ardido a caserna do Pelotão de Comandos. Perdeu se tudo quanto existia lá dentro, nomeadamente camas, munições, granadas de morteiro e de bazuca, etc. Dois camaradas da minha Companhia que dormiam lá dentro tiveram grandes perdas porque ficaram sem as malas, sem as roupas, sem os rádios, etc.”, declara Luís da Silva.

Passaram-se dois anos na vida de um combatente até que, a 14 de outubro 1970 “chegamos a Lisboa às oito horas da manhã e começamos a trazer as bagagens e eram dez e tal quando nos preparamos para o desfile diante das patentes. Quando acabou subimos para as viaturas e fomos diretos ao Quartel de Belém. Mais uma formatura. Depois tiramos uma radiografia. Entregamos as roupas e ficamos todos à civil. Recebemos os passaportes”, conta Luís da Silva, que em tom emotivo explica os passos finais: “A malta abraçou-se uns aos outros dando por terminado os nossos dias de vida conjunta de amizade, indo uns para cada lado, dizendo adeus a todos, finalizando os tempos amargos”. Por último, uma conclusão que resume a passagem deste lousadense pelo ultramar: “No fim disto tudo concluo que lutei pela minha vida, em primeiro lugar; pela Pátria, em segundo; e pela Guiné, em terceiro lugar. Com sangue, suor e lágrimas”.

Mortos na Guerra Colonial 

Pelo menos trinta lousadenses morreram na guerra do ultramar. Entre aqueles que abalaram de terras lousadenses para além-mar, perderam a vida, em combate, por doença ou acidente na Guiné, em Angola e em Moçambique os seguintes combatentes: Adão Luís Nunes Ferreira, do Outeiro-Sousela, soldado do exército; Agostinho Rocha Faria, de Santa Eulália da Ordem; Agostinho Sousa e Silva, de Maninho-Meinedo; Alberto Ribeiro Macedo, Caíde de Rei; António Augusto Ribeiro, de Nogueira; António Rodrigues da Cunha, de Sobreira-Caíde de Rei; António Soares Faria (Cabo da Marinha), de S. Pedro Fins do Torno; David Pacheco de Sousa, de Lustosa; Carlos Gaspar Guimarães Vieira Osório, de S. Pedro Fins do Torno; Filomeno da Costa, de S. Miguel; Fernando Pinto de Castro, de S. Pedro Fins do Torno; Fortunato da Silva Gonçalves, de Santa Eulália; 1º sargento Francisco Ferreira Barbosa, de Silvares; Francisco Machado Ferreira, de Leirós-Lustosa; 1º cabo Francisco Nunes Ribeiro, de Silvares; João Januário dos Santos; Joaquim Augusto Borges Machado, de Santa Cristina de Nogueira; Joaquim Barbosa de Sousa, lugar do Paço, S. João de Covas; Joaquim Francisco Gomes Neves, de Lustosa; Joaquim Mendonça Martins, de Santa Margarida; Joaquim Pinto Ribeiro, de Peso-Santa Eulália de Barrosas; Furriel José António da Costa Teixeira, de Silvares; José de Sousa Rola Teixeira (furriel da Força Aérea Portuguesa), da Vila; José Ferreira de Bessa, de Santa Eulália da Ordem; 1º cabo José Gomes da Cunha Guimarães, do lugar da Torre, S. Pedro Fins do Torno; 1º cabo José Manuel Ribeiro, de Vilar do Torno e Alentém; Furriel Júlio Agostinho de Sousa Magalhães, de Cristelos; 1º cabo Luís Ribeiro Pereira, de Agra-Sousela; 1º cabo Manuel Freire da Fonseca, de Mouta-Boim; e, 1º cabo Miguel Teixeira Fernandes, de S. Pedro Fins do Torno, e Tomás Augusto de Barros Brás

Uma patrulha em 1971, em Angola, com Jaime Moura à esquerda

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