por | 14 Jun, 2024 | Educação, Uncategorized

Violência no namoro preocupa encarregados de educação e professores

SIMULAÇÃO DE JULGAMENTO NO TRIBUNAL DE LOUSADA FOI ALERTA E PEDAGOGIA

Um grande estudo nacional sobre Violência no Namoro demonstra que há jovens que ainda aceitam situações de violência. Este problema comportamental preocupa pais e entidades públicas, nomeadamente estabelecimentos de ensino. Nesse sentido, decorreu no Tribunal de Lousada a simulação do julgamento de um suposto agressor, numa iniciativa da escola EB 2,3 de Caíde de Rei, com coordenação das professoras Angelina Paulo e Alexandra Gama. O evento, que pretendeu chamar a atenção da comunidade escolar e da sociedade para a problemática da violência no namoro, envolveu dezenas de alunos do 9.º ano, que foram figurantes numa simulação que teve o apoio das entidades judiciais, delegação da Ordem dos Advogados de Lousada e GNR.

Controlo, violência psicológica, violência sexual, perseguição, violência através das redes sociais e violência física são algumas das formas em que ocorre violência no namoro.  Para a professora Angelina Paulo, da Escola EB 2,3 de Caíde, este tema é muito pertinente e exige a atenção de todos e foi escolhido pelos próprios alunos para o simulacro de julgamento, no Tribunal de Lousada.

A advogada Sónia Ferreira e a aluna Luana Ribeiro

Aquela docente salientou que “em Portugal, um em cada cinco jovens reconhece ter sido vítima de comportamentos emocionalmente abusivos numa relação de namoro e a percentagem de casos é, especialmente, elevada no concelho onde se encontra localizada a escola”.

Na preparação desta simulação, “foram apresentados aos alunos filmes e documentários sobre o assunto e fizeram-se algumas dinâmicas, palestras com convidados que trabalham na área para que o tema fosse bem apreendido”.

Os alunos compreenderam que “à semelhança da violência doméstica, a violência no namoro consiste num conjunto de comportamentos ou atitudes violentas, repetidas ou pontuais, cometidas por um dos elementos da relação ou por ambos, e que visa controlar e estabelecer uma relação de domínio sobre o outro”, referiu Angelina Paulo.

Depois disso, o enredo que deu lugar à simulação do julgamento foi escrito pelos alunos. Participaram dezenas de jovens, com a colaboração das entidades judiciais, GNR e delegação da Ordem dos Advogados, que conferiram realismo e pedagogia ao evento.

Alunos fazendo de guardas prisionais com o réu

Os alunos Ruben Neto e Lara Martins, foram o réu e a vítima; os guardas prisionais foram Mariama Baldé e Dinis Ribeiro; o juiz foi desempenhado por Filipe Fernandes, a advogada do réu foi Luana Ribeiro e Sara Leite a advogada da vítima, Beatriz Cunha fez de Procuradora do Ministério Público e Lucas Vieira foi o Oficial de Justiça. Os jovens foram instruídos e acompanhados por profissionais “a sério”, que ajudaram ao desenrolar e compreensão do evento.

INCUTIR VALORES JUDICIAIS

Num sentido amplo, este projeto escolar “pretende promover os valores democráticos, colocando a Educação ao serviço da Justiça e do Direito (em especial dos Direitos Humanos, direitos das minorias e o apelo à não discriminação), como ferramenta cívica fundamental num Estado-de-Direito”, esclareceu a professora, tendo em vista que “a democracia depende do bom funcionamento do Estado-de-Direito e tal só é possível com a formação de cidadãos conscientes do papel da Justiça e do Direito”.

Elementos da GNR ensinam um aluno para ao desempenho do papel de Oficial de Justiça

Como é do conhecimento geral, o nível de literacia e confiança da população portuguesa no Direito e na Justiça, enquanto ferramenta de cidadania do Estado democrático, “é baixo e com este projeto procurámos reforçá-lo junto da comunidade escolar”, reforçou a professora.

De igual modo, a propalada relação de fragilidade  entre cidadão e sistema de justiça “contribui também para o mau funcionamento da justiça (quer por excesso, quer por defeito de acesso ao sistema)”, afirma Angelina Paulo, que acredita que o panorama só se alterará através de um esforço persistente e contínuo na formação das novas gerações para a importância da Justiça e dos Direitos Humanos nas sociedades modernas. De facto, Justiça e o Direito surgem frequentemente como realidade distante, ameaça ou inimigo e raramente como agente de proteção e promoção da cidadania.

Em síntese, a docente esclareceu que levar ao tribunal este evento permitiu “promover valores democráticos por reforço da compreensão do funcionamento do Estado-de-Direito; reforçar o valor da participação cívica ativa, informada e responsável; criar canais eficientes de aproximação que proporcionem uma comunicação saudável entre jovens cidadãs(os) e o sistema judicial; despertar a consciência para a importância de analisar e compreender vários pontos de vista e promover soluções comprometidas com os Direitos Humanos; permitir, através de uma fórmula alternativa, introduzir no portefólio de aprendizagens básicas, a educação para a Justiça e os Direitos Humanos; ajudar a perceber como a lei pode promover a coesão social e provocar mudança social; promover o espírito e sentido crítico; defender valores e ideias em comunidade; desenvolver competências ao nível da oralidade e conhecer um caso real”.

Aluna Sara Leite com a advogada Andreia Pinto

Os alunos tiveram oportunidade de adquirir noções e competências no processo legislativo e do papel dos tribunais como órgãos de soberania; assim como compreender os dilemas da justiça, do risco de erro e da procura da verdade; desenvolver a capacidade dos alunos comunicarem as suas ideias, convicções e opiniões sobre a Lei e os Direitos Humanos; desenvolver a capacidade de entendimento quando e como a lei se aplica a factos específicos; desenvolver capacidade de análise de um problema, argumentação e defesa de um ponto de vista; construir consenso sobre deliberação, negociação, compromisso e resolução de conflitos; promover o espírito de participação e criar canais de comunicação entre agentes da justiça e jovens”.

CONTORNOS PREOCUPANTES

A escola constitui o local onde os jovens permanecem a maior parte do tempo e estabelecem as primeiras interações e experiências amorosas. Como tal, os agentes educativos têm um papel fundamental na identificação e sinalização de manifestações de violência no namoro. Cientes disto, Angelina Paulo e  Alexandra Gama procuram “aplicar estratégias que permitam aos jovens reconhecer esses comportamentos como inaceitáveis e estes não se repitam, uma vez que os jovens ainda se encontram numa fase em que é possível corrigir determinadas atitudes”.

A importância desta temática vai além da necessidade de proteger as vítimas, “uma vez que, ao contrário da violência doméstica, no caso da violência do namoro os intervenientes são, na sua maioria, jovens adolescentes, o que acarreta impactos diferentes”, sublinha Angelina Paulo, que considera que “a violência no namoro assume contornos preocupantes em todo o mundo, particularmente em Portugal. De forma a prevenir este cenário, é importante falar com os jovens sobre esta temática, tanto em casa como nas escolas, assim como difundir a informação necessária e incentivar a procura de ajuda e a alteração de comportamentos que durante muito tempo foram considerados normais”.

Atos de violência no namoro

Reportando-se ainda ao projeto Justiça para Tod@s “tem a grande vantagem da sua interdisciplinaridade, por isso, foi concretizado ta5mbém no âmbito da disciplina de Teatro, para além da de Cidadania. Por um lado, por se tratar de um projeto muito extenso e exigente e só um tempo escolar por semana reservado para a disciplina de Cidadania seria insuficiente para a sua concretização e, por outro lado, acreditamos na importância da presença do Teatro no contexto curricular, no desenvolvimento de competências tanto a nível pessoal, como artístico ou cultural dos jovens.”

Como defensora da Educação Artística no processo de aprendizagem das crianças desde tenra idade, a docente tende que “compete à Escola o papel de educar desde cedo e de forma continuada a relação com as diferentes áreas do conhecimento, promovendo o desenvolvimento pelos alunos de competências que lhes permitam questionar os saberes estabelecidos, tendo o Teatro essa capacidade multidisciplinar de integrar conhecimentos emergentes, comunicar eficientemente e resolver problemas complexos”.

Atendendo aos excelentes resultados e efeitos produzidos com esta iniciativa, é de esperar que a mesma se venha a replicar, nesta ou noutras temáticas. Problemas sociais necessitados de intervenção são mais que muitos e a violência no namoro é apenas um deles.

Também os rapazes são vítimas

Marina Ferreira, psicóloga

“São nove horas e cinco minutos de uma manhã de segunda feira, L. entra no gabinete de psicologia muito exaltada e indisposta. Frequenta o serviço há já algum tempo, o namorado, que está na mesma turma que ela controla-a de uma forma constante: exige saber com quem fala quando não está com ele, exige os códigos de acesso ao telemóvel, às redes sociais e ultimamente até controla o que veste.

Neste fim de semana, houve agressões verbais e físicas. Os pais da L. nem desconfiam do que se anda a passar…”

Esta é infelizmente a realidade que cada vez mais encontramos nas escolas. A violência no namoro acontece, existe e é bilateral. Também os rapazes são muitas vezes vítimas dela. Apesar de haver constantemente alertas sobre o assunto, palestras, ações de sensibilização é difícil para nós psicólogos lidar e minimizar danos que esta violência causa nos nossos jovens.

A violência no namoro serve para humilhar, desvalorizar e assustar quem é mais frágil e dependente e é muito difícil de resolver. Normalmente associada a esta violência há a vergonha, medo e sentimento de culpa por parte da vítima que protela as medidas fundamentais para se libertar deste flagelo. Outro indicador que me parece importante: algumas vítimas não têm noção do conceito de violência, relativizam e normalizam estas situações.

Por muito que os psicólogos alertem para a urgência que há em libertar-se desta humilhação e forma de controlo, muitas vezes não somos ouvidos e as vítimas voltam para o agressor.

Afortunadamente, cada vez mais há a procura de ajuda por parte dos alunos. A informação vai chegando e eles procuram alguém para falar. Neste caso ouvimos e sem julgamentos tentamos ajudar. O sigilo aqui é fundamental. Eles sentem conforto e segurança porque sabem que numa primeira abordagem vamos guardar segredo e quando houver confiança suficiente e força para denunciar fazemo-lo. A seu tempo, no seu tempo.

Os protagonistas dum evento pedagógico e didático

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