Joana Francisca Costa Soares Regadas
Natural da freguesia da Ordem (Lousada), onde nasceu há 25 anos (feitos no primeiro dia deste ano de 2025), esta jovem estudante de Engenharia Biomédica é uma das alunas mais destacadas da Universidade de Aveiro. Já possuía um currículo notável no associativismo e empreendedorismo universitário, mas em dezembro passado subiu ainda mais um patamar nessa área ao ser eleita presidente da Associação Académica aveirense. Nesta Grande Entrevista Joana Regadas revela os seus ideais como pessoa, fala do sonho de médica que trocou pela realização pessoal na engenharia, aborda as expectativas quanto ao futuro profissional e fala dos desafios que se colocam à sua geração.
A primeira experiência de Joana Regadas no associativismo aconteceu no Núcleo de Estudantes de Engenharia Física, na Universidade de Aveiro, como vogal do setor pedagógico. No ano seguinte assumiu o cargo de vice-coordenadora do mesmo núcleo num mandato de meio ano. Durante esse meio ano foi também embaixadora do Encontro Nacional de Estudantes de Engenharia Biomédica e do Tec2Med (o primeiro grande evento em Portugal dedicado à inovação tecnológica em Medicina Integrada), seguindo-se uma participação na comissão organizadora do ENEEB Encontro Nacional de Estudantes de Engenharia Biomédica, que decorreu em Aveiro.
Em 2023, “ingressei na direção da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv), como Vice-Presidente do setor do apoio aos Núcleos, estando responsável pela gestão dos 44 núcleos que fazem parte da estrutura da AAUAv”, descreve a jovem universitária, que em 2024 passou a ser vice presidente da direção. Todo este percurso culminou há um mês, na eleição para presidente da (AAUAv) .
Esta experiência no associativismo fez, segundo Joana, “mudar a minha perspetiva em muitos assuntos, amplificou muito a minha voz e construiu muitas opiniões. Depois de três anos na estrutura da AAUAv tenho o privilégio de lhe chamar e sentir como uma casa, e ter a oportunidade de retribuir tudo o que esta casa fez por mim foi uma das grandes motivações”.
Acrescenta que “este projeto transcende qualquer pessoa que passa por ele, é muito mais do que a pessoa que o dirige” e acredita que a associação académica “tem um poder muito preponderante em mudar futuras gerações e criar um impacto significativo, e saber que de alguma forma, a voz que este projeto me ajudou a construir pode retribuir ao projeto, é de facto algo que considero um privilégio”.
O facto de ser apenas a quarta mulher a assumir a presidência desta instituição e a segunda em 19 anos “foi um fator que contribuiu bastante” para a candidatura de Joana Regadas. Para ela, “é importante desmistificar alguns aspetos e mostrar que o mundo do associativismo é para todos e de todos. Enquanto presidente espero honrar aquela que é a história desta casa, e acima de tudo construir um futuro que permita que todos os estudantes da UA tenham uma voz ativa e presente, uma urgência na atualidade”.
Com a equipa que abraçou este desafio espera “conseguir fomentar uma geração crítica e criativa, pilares importantes nas futuras gerações e para isso o foco do nosso projeto passa por três grandes projetos”, que são a “política educativa, investindo no conhecimento dos estudantes, expondo os problemas e as soluções discutidas atualmente”; a saúde mental e, em terceiro lugar a cultura, “usando os espaços propícios e impulsionar o crescimentos dos estudantes artistas da UA”.
Engenheira em vez de médica
Falando do seu percurso de estudante, propriamente dito, Joana revela que o curso de Engenharia Biomédica não foi a sua primeira opção, “nem era o sonho de criança, mas após algum tempo de ter cá chegado percebi que estava no lugar certo”. A jovem declara que “a escolha do curso foi muito influenciada pela minha professora de Físico-Química, que me ajudou a perceber que às vezes a escolha certa não é a que temos em mente e é necessário explorar fora da zona de conforto”. Nunca quis ser engenheira, no entanto “agora não me vejo a fazer outro papel e as valências que este curso me permitiu adquirir, muito devido à exigência que tem, tiverem um papel importante na construção não só da minha figura enquanto futura profissional, mas na construção de carácter, que é algo que a universidade deve também oferecer”.

Sublinha que “ao fim de cinco anos não teria feito outra escolha, e é de facto um curso que abre muitas portas e muito vocacionado para o desenvolvimento do futuro da saúde”.
Confessa que na infância e adolescência “sempre quis ser médica, com alguma indecisão sobre a especialidade a seguir, mas nunca nenhuma incerteza quanto a ser médica”. Mas volta a frisar algo que pode ser muito importante para qualquer jovem em qualquer área de estudo: “antes, eu nunca quis ser engenheira e disse-o várias vezes, mas muitas vezes o que definimos para o nosso percurso não é o nosso caminho, e esta mudança de sonho, se é que o podemos chamar assim, ensinou-me muito sobre esse assunto e tornou-me bastante mais resiliente”.
“Esta parte de mim e este gosto foi construído através das experiência que fui tendo na universidade, sempre tive muitas opiniões e questões, no entanto tinha alguma dificuldade em encontrar o lugar certo para que pudessem sair”, declara. Agora, considera-se capaz de “falar bem alto e sem receios, de questionar e expressar opiniões e esse foi um dos fatores que mais peso teve na minha escolha”.
Do futuro muito há a esperar certamente, sobretudo para quem conseguiu tantas realizações até aqui. “Tendo terminado já o meu mestrado, no curto e médio prazo o foco passa por concluir a minha pós graduação e inscrever-me no doutoramento em Engenharia Biomédica, o que irá ocupar ainda algum tempo”, afirma Joana.
Quanto ao longo prazo, diz que o que pretende é “terminar o doutoramento com sucesso e continuar a ter oportunidade de expandir os meus conhecimentos noutras áreas, levantando sempre as questões necessárias”.
O estrangeiro (ainda) é mais atrativo
Estando numa área tão sensível e com tanta potencialidade, como é a engenharia Biomédica, pode-se pensar que o estrangeiro é um destino apetecível, dado que fornece maiores propostas e desafios. A jovem académica concorda com essa perspetiva e salienta que “é uma realidade que muitos jovens portugueses enfrentam, independentemente da área, acho que na maioria dos jovens recém graduados essa realidade já foi ponderada”. As condições em Portugal “ainda são precárias, e o facto de termos uma das gerações mais qualificadas de sempre faz com que as exigências sejam diferentes, em termos salariais, em termos de objetivos pessoais e em termos das condições de trabalho e valores das empresas”.
Perante tudo isto, defende que “há uma necessidade muito grande de readaptação do mercado de trabalho às novas gerações, que serão certamente cada vez mais exigentes e sem receio de procurar oportunidades no estrangeiro”.
Quanto a si, confessa que essa possibilidade “está bem presente”, desde o primeiro ano em que entrou na universidade. “Engenharia Biomédica tem outra visibilidade noutros países, ainda está a ganhar espaço em Portugal, e se quiser trabalhar na minha área terei certamente muitas mais oportunidades lá fora do que aqui”, conclui.














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