por | 31 Jan, 2025 | Sociedade

Quando a noite cai, há trabalhadores que «pegam ao serviço»

PROFISSÕES NOTURNAS SÃO VITAIS, MAS PASSAM DESPERCEBIDAS

A generalidade da sociedade não se apercebe da existência de profissões, cargos e serviços que funcionam de noite, quando a maioria da população dorme. É o caso do trabalho da veleira ou do guarda rondista, dos piquetes de urgências ou dos seguranças. Ainda há padeiros, que são cada vez menos, já que hoje em dia o pão também se cozinha quase de forma instantânea. São profissões menos visíveis as profissões diurnas, mas nem por isso deixam de ter um papel vital para o funcionamento da sociedade.

Há serviços que não podem encerrar e outros que só existem de noite. Para manter a sociedade em funcionamento, mesmo quando a maioria dorme, é necessário que alguém vele, vigie, socorra, prepare, etc. Trabalhar de noite pode ter vantagens e desvantagens. A facilidade de circulação de trânsito de pessoas, veículos e mercadorias é um dos principais fatores positivos. O trabalho noturno tem um ambiente mais tranquilo a vários níveis, pois é menos barulhento.

Do lado das desvantagens de trabalhar por turnos pode acontecer o desregular do ciclo do sono, podendo causar insónia, fadiga crónica e aumento do risco de doenças cardiovasculares e metabólicas. Existe também a possibilidade de impacto psicológico, devido à ausência ou menor convivência social e à sensação de isolamento. Há casos em que a pessoa não se adapta ao trabalho noturno por lhes causar stresse e depressão. E é de incluir nas eventuais desvantagens a incompatibilidade de horários com familiares e amigos.

Comecemos por divulgar o serviço de vigilância noturna do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Lousada. É um trabalho entregue a João Pacheco, natural de Moreira de Cónegos, mas residente em Lustosa há 38 anos.

“Já fui motorista, chefe de obras, propagandista, até me fixar como guarda rondista na unidade hospitalar de Lousada, há 23 anos. Ainda sou do tempo da antiga provedora, a dona Lúcia Lousada e depois veio o engenheiro Bessa Machado e agora o professor José Diogo Fernandes”, relata o profissional. Desde que chegou “isto evoluiu muito, foi sempre a crescer; está uma instituição formidável”, declara com satisfação.

Gosta do que faz, mas também diz que já passou por situações difíceis. “Um ou outro caso de pessoa alcoolizada a meio da noite pode causar problemas, mas lido bem com isso. O pior de tudo são as pessoas quezilentas e sem educação, que se revoltam por tudo e por nada”, diz João Pacheco.

“Há uns anos atrás fui ameaçado de morte por um indivíduo que veio trazer a filha às urgências. Até tive que chamar a GNR. Foi insurreto comigo, tratou-me do piorio, só porque era daquele tipo de pessoa que não queria cumprir regras”, revela o vigilante.

Além da segurança também é rondista, ou seja faz “rondas pelas enfermarias dos internamentos para ver se está tudo bem, não vá algum paciente querer ir embora sem alta médica, por exemplo”, conta o guarda.

Tal como alguém pode querer sair, alguém pode querer entrar sem autorização. “Já tivemos um caso de alguém que chegou de longe e não sabia do estado de um familiar, que se encontrava cá internado e queria a todo o custo vir visitá-lo. Além de ser fora de horas e sem autorização, era já perto da meia noite”, e claro que não foi possível realizar a visita.

Mas já aconteceram visitas “fora do respetivo horário e a altas horas”, mas com a devida autorização superior. Num desses casos, “foi a filha de um senhor que estava a aproximar-se da sua hora de partir deste mundo, e ela queria estar junto dele nos momentos finais de vida”. Situação idêntica mas com outro final, aconteceu noutra ocasião, “em que vieram familiares para se despedirem, já noite avançada, ficaram até de manhã e o paciente melhorou e acabou por viver mais uns dias”, exclama João Pacheco.

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