ANABELA PEIXOTO FERREIRA, ASSISTENTE SOCIAL
Há quase quatro décadas a trabalhar nas problemáticas da sociedade local, esta lousadense é uma das mais profundas conhecedoras da realidade social do concelho. Nesta grande entrevista dá-nos a sua visão dos problemas que mais afligem a população e faz um resumo da evolução social do concelho. Com um espírito crítico acutilante, Anabela Ferreira Peixoto aderiu a outras áreas, sempre com o intuito de promover a melhoria social e o bem-estar das pessoas. A política (através do partido Livre) e a cultura são duas dessas vias.
A meninice de Anabela está muito ligada à escola primária de Cristelos, hoje a Junta de Freguesia, ainda antes do 25 de Abril. Nessa época, “a escola ainda separava os géneros e os rapazes frequentavam o espaço onde funciona a Biblioteca Municipal”. Recorda que era ainda o tempo do crucifixo e o retrato do Américo Tomás na parede, representantes de um período autoritário e nacionalista e de grande sujeição à igreja católica. A democracia “entrou nas nossas vidas estava eu a concluir o 4º ano” e não teve consciência do que se acabava nem do que estava a começar.
Marcante e decisivo na sua vida foi também o ensino superior, que “apesar de um processo cada vez mais democratizado, ainda não era para todos. Eu, que tive o privilégio de aceder ao ensino superior, já há muito tinha decidido o meu futuro, ser Assistente Social. Por isso ingressei no Instituto Superior de Serviço Social do Porto para cumprir aquilo que para mim era um desígnio: poder contribuir para um mundo mais justo e igualitário”.
Declara com firmeza que quase sempre se sentiu “realizada no exercício da minha profissão, tanto no meu percurso de 15 anos na Santa Casa da Misericórdia de Lousada, como nos 23 que já decorreram na Segurança Social”.
Ao longo de todos estes anos conheceu “sobreviventes a lutar pelo seu lugar no mundo, heróis sem visibilidade, alguns nascidos nas margens e na desesperança; outros a tentarem não serem atropelados pela ambição dos seus pares, e ainda gente que se esquece de si para cuidar de quem está ao seu lado”. E acrescenta que “foi difícil muitas vezes, quando os recursos escasseavam, as prioridades tinham outro destino e estavam esgotadas as alternativas. Mas era sempre muito mais difícil para quem estava do «outro lado»”.
Nestas quase quatro décadas de trabalho social o mundo mudou muito e Lousada também. Tem na memória bem viva o tempo em que iniciou a sua atividade profissional: “estávamos no final da década de 80, Portugal tinha acabado de aderir a comunidade europeia havia muita esperança. As roupas eram mais coloridas e até divertidas e tudo parecia que ia ser melhor. No mundo do trabalho, com os projetos de Luta Contra a Pobreza, parecia que se iria romper com o assistencialismo e investir na formação e empoderamento das populações que se encontravam em contextos mais desfavorecidos”. Eram tempos de alento e esperança. Mas Anabela Peixoto recorda que “Lousada também estava neste processo, mas, sendo um território que mantinha ainda muitas caraterísticas rurais, prevalecia uma atitude mais conservadora e comedida. A indústria proliferava, nomeadamente a metalurgia, a construção civil e as confeções, assistindo-se a um novo fenómeno que ainda hoje marca muito este concelho: a proletarização feminina”.

TRABALHO INFANTIL E ABANDONO ESCOLAR
Havia pleno emprego, o que aparentemente poderia ser muito bom. Havia um senão: “a indústria, muito assente em trabalho precário e de baixas qualificações, ia «buscar» os mais jovens à escola e, durante muitos anos, Lousada estava na dianteira do abandono escolar e do trabalho infantil. Este fenómeno ainda hoje tem um peso significativo na nossa sociedade, pois temos uma geração de adultos pouco escolarizada”. Ainda nesse âmbito, o abandono escolar, enquanto fenómeno estrutural neste concelho, “diminuiu radicalmente quando, em 2004, as instituições deste concelho, na Rede Social de Lousada, organizaram-se no combate a este flagelo”. A propósito, esta especialista das causas sociais, afirma que “os processos participados e democráticos podem ser mais lentos, mas são sempre mais eficazes”.
Comparativamente com aquele passado, diz que “demorava-se duas horas de Lousada ao Porto e hoje, precisamos de cerca 30 minutos” e a evolução não foi uniforme nas várias áreas sociais. “Constatamos um franco crescimento da população, que se traduz numa malha urbana nem sempre harmoniosa. Temos uma população jovem e mais qualificada, mas em Lousada ainda predomina o trabalho indiferenciado. Os jovens têm de sair do concelho para poderem cumprir o percurso profissional esperado. Ainda subsiste uma economia de baixos salários e Lousada está nos últimos 3 concelhos com rendimentos mais baixos do distrito do Porto. A rede de transportes públicos é altamente deficitária e o uso de carro próprio essencial. Os mais velhos, com baixos recursos, têm de usar o táxi para se deslocar aos serviços públicos. Também os jovens têm dificuldades de sair das suas freguesias e não podem aceder a equipamentos e atividades. Os espaços sociais urbanos, quer no concelho como nas freguesias, não facilitam as relações de sociabilidade dos munícipes em particular dos mais velhos. É muito importante ouvir as pessoas nos processos de planeamento do território”.
É uma crítica da “sociedade cada vez mais individualista e consumista. Assistimos a uma propagação de uma ideologia de consumo permanente. O consumo tornou-se o foco central da vida social transformando-se num valor em si em detrimento de valores como a cidadania e a solidariedade, determinando as relações sociais, económicas e políticas. Esta nova dimensão favorece e favorece-se do individualismo, na perspetiva de que cada sujeito tem direito a todos os bens e serviços que deseja obter, desejo esse que não tem limite”.
Entristecida, considera que “alienados neste desejo frenético do consumo, acabamos por perder a consciência do nosso lugar no mundo, perdemos capacidade critica de nos olharmos enquanto animais gregários, ou seja, indivíduos que apenas sobrevivem quando partilham e cuidam do bem comum, seja isso a natureza, a liberdade, a democracia e os direitos humanos”.

ERRADICAR A POBREZA
Além da sua atividade profissional, que exerce com reconhecida mestria e sagacidade, Anabela utiliza outros meios e vias para remar contra essa maré. A participação na vida política de forma ativa é um exemplo. Essa adesão aconteceu em 2014, quando conheceu o LIVRE: “na idade adulta fui ideológica e politicamente de esquerda, mas nunca me tinha identificado com nenhum dos partidos e tão pouco tinha pensado em ser membro ativo. Conhecer o LIVRE foi quase uma epifania, porque me revia em todos os seus princípios (liberdade, igualdade, solidariedade, socialismo, ecologia e europeísmo) e na sua organização que fomenta uma participação igualitária”.
Enquanto membro do LIVRE tem “uma presença ativa nas atividades e nas campanhas eleitorais, mas também participando nos seus órgãos, nomeadamente no Grupo de Contacto Local do Porto e na Assembleia do LIVRE”.
Anabela Peixoto faz parte da Comissão Instaladora do Núcleo Intermunicipal do Vale do Sousa e de uma lista candidata ao Grupo de Contacto Local do Vale do Sousa. A participação num partido político ou noutra organização “não tem de passar necessariamente por estar em lugares de visibilidade. Estou no LIVRE como estou na vida, por acreditar que este partido contribui para melhorar a vida de todos os cidadãos, em Portugal e na Europa, e estarei presente enquanto for importante permanecer”, explica.
Outra das vias ativistas ou de ação cívica que utiliza é a da Cultura. “Sempre tentei participar na vida comunitária, seja nas associações de pais ou em projetos de voluntariado. Destaco o AgitArte e o Agitazz, projeto que envolveu voluntários da área da intervenção social, das artes, da comunicação social e jovens que integraram os processos iniciais de intervenção, porque esta experiência veio confirmar a importância da cultura e da arte nos processos de inclusão social”.
No campo cultural destacou-se também como membro da Direção da Associação de Cultura Musical de Lousada, de 2000 a 2011, “período fundamental no crescimento e consolidação desta instituição, sobretudo no que respeita ao Conservatório do Vale do Sousa”. Destaca também “o trabalho de uma equipa dedicada e com sentido de missão, liderada pelo meu pai que, pelo seu perfil democrático, permitiu uma forte coesão e entreajuda”.
Antes de terminar, lançamos um desafio à nossa entrevistada: imagine que lhe davam uma varinha mágica para solucionar UM problema social. Qual escolhia? Perante isto, a nossa entrevista respondeu: “a participação na vida, ou seja, no trabalho, na sociedade e na política pressupõe sempre dois grandes objetivos: o combate à desigualdade e à injustiça social. A maior forma de desigualdade e injustiça é a pobreza, pelo que no mundo das utopias possíveis, o meu desejo maior seria erradicar a pobreza. Este fenómeno é tão mais gravoso quando acumula com outras formas de opressão, nomeadamente a etnia, o género, as incapacidades físicas ou mentais, a raça. Não tenho uma varinha de condão para mudar o mundo, mas tenho a responsabilidade de contribuir nesta mudança. E se formos muitos a ajudar, o mundo muda-se”.













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