por | 11 Mai, 2025 | Grande Entrevista

Há cada vez mais mulheres empreendedoras na produção de vinho e do enoturismo

JOANA DE CASTRO, ENGENHEIRA AGRÓNOMA

A lousadense Joana Mota de Castro é uma engenheira agrónoma, casada e mãe de dois filhos. É natural de S.  Cosme de Gondomar, viveu em Lisboa, no Porto e desde há vinte anos em Lousada. É co-proprietária da Quinta de Lourosa onde a família empreende há anos na área do enoturismo e da viticultura com uma proeminência de excelência, segundo os entendidos na matéria. Como a própria Joana de Castro faz questão de dizer, “a Quinta de Lourosa não é apenas uma empresa de vinhos: é o fruto, simultaneamente fresco e maduro, de uma ciência e de uma paixão”.

Estamos perante uma mulher que é protagonista numa área essencialmente gerida por homens. “Ser empresária no setor dos vinhos, onde existem mais homens do que mulheres é uma alegria”, afirma Joana Mota de Castro, da Quinta de Lourosa (Sousela).

Mas congratula-se com o facto de existirem cada vez mais mulheres nesta área, no entanto lamenta que elas “raramente dão a cara”. Segundo Joana de Castro “mais do que o setor de atividade, neste caso dos vinhos, é em certas regiões que se sente algum machismo, nomeadamente em zonas mais interiores”, como acontece nos locais mais recônditos do Tâmega e Sousa e por essas terras adiante.

A Quinta de Lourosa é uma empresa familiar, mas com uma gestão empresarial. “Nasceu de uma paixão, quando um tio avô do meu pai, que era padre deixou parte desta Quinta e parte de outras propriedades ao meu avô. O meu pai sendo o filho mais novo, passou momentos inesquecíveis nas viagens em que acompanhou o seu pai de Gondomar até Lousada e dai surgiu o sonho de um dia viver em Lousada. Este objetivo de vida de meu pai e esta paixão pela Quinta de Lourosa foi-me transmitida e por isso atualmente faço desta Quinta a minha casa e idealizo, colocando em prática o melhor que consigo”, relata Joana de Castro.

Dos pontos altos já vividos destaca “a visita do então Presidente da República em 2008, assim como a referência ao Vinho Verde Quinta de Lourosa na revista Wineenthusiast, como melhor compra e com 87 pontos”.

A guerra na Ucrânia foi um acontecimento que afetou o mundo de forma indireta, pois claro. “Penso que afetou todas as áreas e muitas pessoas por esse mundo fora. Os preços das matérias-primas subiram e o custo de produção das uvas e de vinho consequentemente também subiu”, explica a  especialista nesta matéria.

Esse aumento do custo do vinho não foi acompanhado com um aumento do poder de compra “e como tal há uma retração no consumo de vinho que se vem prolongando”.

Uma das suas atividades enquanto empresária é lidar com o estrangeiro, não apenas com turistas que visitam a quinta mas sobretudo com as exportações de vinho. “A Quinta de Lourosa exporta grande parte do vinho que produz, para a Asia, Europa, Brasil e também EUA”, declara. Isso remete para uma questão que está na ordem do dia e é tema de preocupação em todo o mundo: a questão das tarifas do presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump. Com alguma surpresa, Joana afirma que “isso é para mim uma não questão, visto que as taxas serão suportadas pelos clientes, e o preço a que o nosso vinho lá chega mantêm um preço suportável para a maioria dos americanos. Por isso, de momento não é assustador”.

Ainda sobre isso, a entrevistada desta edição do Louzadense diz que “as vendas têm-se mantido nas quantidades habituais. As maiores dificuldades estão neste momento em Portugal, onde um português de classe média não consegue consumir vinhos, devido aos preços elevados e ao baixo poder de compra”.

Questionaada sobre qual é o seu foco principal no seu setor profissional, Joana de Castro diz que “é produzir vinhos autênticos, onde os vinhos sejam um reflexo das pessoas que convivem com eles”. Passando em revista os produtos que saem da Quinta de Lourosa, destaca “o típico Vinho Verde branco, conjunto de castas típicas; o Alvarinho vinificado e estagiado em barrica, até aos espumantes tinto, branco e rose”.

Explica que a viticultura é trabalhada no método de produção integrada, usando um sistema de condução da vinha criado pelo seu pai, Rogério de Castro. Trata-se do “sistema LYS, o ex libris da Quinta, que é um sistema tridimensional, que produz uvas em três zonas da estrutura da vinha o que permite gerir melhor as diferentes zonas produtivas sem causar conflito entre as mesmas”. As expetativas são de “manter este estilo de produção, baseada nos critérios de qualidade e autenticidade aliando a tecnologia as técnicas ancestrais”.

ENOTURISMO DESTACA-SE EM LOUSADA

Falar da sua vida é falar dessa quinta e das atividades que nela desenvolve. “Vivo muito também para a vertente turística da Quinta de Lourosa, para que seja cada vez mais o refúgio ideal, explorando os excelentes acessos, longe do bulício citadino, mas perto da tão simpática vila de Lousada”, diz a entrevistada, que sublinha o caráter acolhedor nas estações frias e a tranquilidade das estações amenas e quentes.

Como que em jeito de propaganda, exclama que a quinta “é um destino para férias em família, um refúgio para um fim-de-semana a dois ou uma estância para retiros profissionais”.

Uma das atividades que mais gosta de empreender são as “visitas guiadas às vinhas e adega, provas de vinhos e  pacotes turísticos onde estão presentes a gastronomia tradicional e a  cozinha criativa, o artesanato e lugares de relevo histórico e cultural”.

É uma aficionada confessa da cultura ligada ao turismo e como tal promove eventos de cariz etnográfico, teatral, musical e de outros tipos culturais. “Os cantares tradicionais durante a faina agrícola e vinícola estão enraizados nesta zona do rio Mezio e encontram extensão na nossa atividade”, revela Joana de Castro.

Invariavelmente a conversa remete sempre para o enoturismo, a área de eleição desta lousadense. “É aqui que somos diferenciadores”, declara.  “Diariamente temos visitas às vinhas e adega com provas de vinhos.  Existem outros bons exemplos neste setor e em Lousada, como por exemplo, o vinho Sem Igual, da Casa da Portela”, acrescenta.

Por falar em vinhos, é imprescindível falar da entidade mais antiga do concelho e uma das mais antigas do Norte, em termos de vinhos. A Adega Cooperativa de Lousada, que foi a primeira Adega Cooperativa da região dos Vinhos Verdes, encontra-se numa fase bastante complicada, como vem sendo tornado público e é do conhecimento geral. Questionada sobre isso, Joana de Castro limita-se a dizer que “é uma entidade que tem imenso historial e é certamente um orgulho para os Lousadenses”.

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