por | 19 Jun, 2025 | Espaço Cidadania

Operária lidera colegas na luta laboral

MARINA SILVA, DESEMPREGADA, 31 ANOS

Chama-se Marina de Lurdes Ferreira da Silva, tem 31 anos e, atualmente,encontra-se desempregada. Foi precisamente a situação do desemprego que fez desta operária fabril uma pessoa conhecida. O despedimento coletivo na fábrica Leunam, em Macieira, foi o mote para Marina surgir nas televisões e jornais, reivindicando justiça para as trabalhadoras. Quando os Media chegavam às ações de luta daquelas mulheres, quase todas se acanhavam, mas Marina não. Ganhou coragem e participou em ações públicas de protesto e outras formas de ativismo.

“Nasci na freguesia de Silvares e atualmente resido em Aveleda, onde sou casada com João Bessa, e juntos temos dois filhos: a Iara, de 11anos, e o Lucas, de 3 anos”, descreve-nos durante a sua apresentação. Desde muito jovem, com apenas 16 anos, iniciou a vida profissional na área da confeção. A meio do percurso, decidiu investir na sua formação e concluiu um curso profissional de modelista de vestuário, que lhe deu equivalência ao 12.o ano. “Desde então, mantive sempre a minha atividade nesta área, com paixão e dedicação”, conta Marina Silva.

Quando aconteceu o encerramento da fábrica onde era operária, a maioria das suas colegas eram tímidas e caladas, mas ela foi uma líder, deu a cara, contra o infortúnio que aconteceu. “Não considero que tenha sido eu quem «bateu o pé», mas tive consciência desde o início de que não podíamos ficar paradas perante uma situação tão injusta. Incentivei as minhas colegas a avançar, a não se calarem. Fui a primeira a tomar a iniciativa de marcar uma consulta com um advogado, para compreender os nossos direitos diante de atrasos salariais e da ausência de comunicação da entidade patronal”, explica esta cidadã.

A partir dali, a palavra espalhou-se, “e acabei por ser nomeada porta-voz do grupo. Apesar de, por vezes, ser exigente ter de explicar tudo a toda a gente, sempre tive gosto em ajudar e, de certa forma, liderar. Esta experiência tornou-me mais ativa, mais informada e consciente”, refere Marina. “Houve pessoas que passaram mal por causa dos despedimentos. Muitas colegas vivem sozinhas e dependem inteiramente daquele salário. Chegaram a ter dificuldade em pagar rendas e prestações”, e admite que no seu caso “foi também desafiante, pois tenho uma filha em idade escolar e um bebé pequeno, e naturalmente o impacto foi sentido”.

Afirma que teve “a sorte de contar com o apoio do meu marido, que trabalha fora do país e fez um esforço redobrado, aumentando a carga horária para garantir o sustento da nossa família e também contar sempre com a ajuda da minha família e o meu padrasto”.

Assinala que esta foi a primeira vez que se envolveu numa causa coletiva. Reconhece que “o Bloco de Esquerda mostrou-se muito presente desde o início. Houve pessoas que se destacaram pelo acompanhamento e solidariedade constantes como por exemplo a Mariana Mortagua, Marisa Matias e Helga Gonçalves, que procuraram sempre ouvir-nos, esclarecer dúvidas e dar visibilidade à nossa situação através da comunicação social. A sua intervenção consistiu, sobretudo, em dar vozpública à nossa luta”.

Marina Silva e família.

FUTURO CONTINUA INCERTO

De certa forma tomou contacto de perto com a política e os partidos. “Foi nesta fase difícil que tive a oportunidade de conhecer algumas das pessoas envolvidas e reconhecer o seu empenho. Isto deve se tudo através da Alzira Carvalho, que foi trabalhadora da Zenaide, em Penafiel, onde o patrão é o mesmo da nossa fábrica

Falando sobre a sua situação atual “neste momento, a nossa vida está suspensa — parada, sem direção. Continuamos vinculadas a uma empresa da qual nem sabemos se está oficialmente aberta ou fechada. Há processos a decorrer, mas tudo avança de forma extremamente lenta,e isso deixa-nos numa incerteza angustiante. Vivemos num limbo: não podemos seguir em frente, mas também não conseguimos voltar atrás. Não sabemos o que nos espera, nem por quanto tempo esta situação se vai arrastar. É muito difícil viver assim, sem perspetivas, sem respostas claras”, lamenta a operária.

“O mais frustrante é saber que não podemos aceitar nenhum novo emprego com contrato, porque isso pode fazer-nos perder os direitos pelos quais ainda lutamos. Sentimo-nos presas — de mãos atadas — enquanto o tempo passa e a vida continua lá fora”, afirma com bastante pesar e acrescenta que “essa espera, esse vazio, esse sentimento de impotência… custa muito. Não sei bem como explicar tudo isto, porque parece que nem nós conseguimos compreender como é possível que estejamos assim, esquecidas num processo que não tem fim”.


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