É comum ouvir que uma população envelhecida vai disparar os custos com a saúde. Mas esse raciocínio linear ignora realidades fundamentais. Mais longevidade não significa, por si só, faturas hospitalares mais pesadas: o perfil de gasto depende sobretudo do controlo das doenças crónicas e da eficiência do sistema, não apenas da idade dos doentes.
Os idosos não são apenas “consumidores” de cuidados. Muitos prestam apoio informal a familiares, ajudam na educação de netos ou mantêm-se ativos em voluntariado — funções sociais e económicas de enorme valor, mas quase sempre invisíveis nas contas públicas. Desconsiderar essas contribuições alimenta um discurso que reduz os mais velhos a meros ônus orçamentais.
Outro mito é que o grosso da despesa ocorre no fim da vida, com procedimentos “fúteis” em doentes terminais. Estudos mostram que ressuscitações e tratamentos invasivos em fases finais não geram poupanças significativas. A verdadeira economia está na gestão precoce e continuada de patologias como diabetes, hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crónica e insuficiência cardíaca, prevenindo complicações e internamentos evitáveis.
Também não é apenas o avançar da idade que explica o aumento das contas com saúde, mas sim os gastos concentrados nos últimos anos de vida — em qualquer faixa etária. E parte desses custos redundantes decorre da fragmentação do cuidado: quando primário, hospitalar e continuado não comunicam, desperdiçam-se recursos e sacrificam-se doentes e cuidadores.
O futuro exige uma abordagem holística: reforçar os cuidados de saúde primários, criar redes integradas de suporte e focar na geração de valor clínico e social. Só assim Portugal construirá um sistema sustentável, que reconheça o papel dos idosos como mais do que beneficiários passivos, e garanta a todos — jovens ou velhos — uma atenção eficaz, compassiva e economicamente responsável.













Comentários