ANTÓNIO DA CUNHA MAGALHÃES, O «MAGALHÃES DAS FERRAGENS»
Este cidadão tem um nome muito comum em Lousada: António da Cunha Magalhães. Mas também é senhor de uma singularidade absolutamente única e digna do maior realce. O popular «Magalhães das Ferragens», teve no dia 21 de Junho uma festa em sua honra, pelos 50 anos de empresário. Dias antes tinha completado 88 anos de vida e continua a desempenhar trabalho na sua firma de ferragens. Este notável empresário não teve uma juventude fácil, mas dedicou-se sempre ao trabalho de alma e coração e teve o merecido sucesso.
É natural da freguesia de Lousada – São Miguel, onde deixou de viver aos nove meses, quando a sua mãe, tendo ficado viúva, deixou a Quinta de S. Miguel e foi viver para Romariz, em Meinedo, onde era leiteira.
Fez a escola primária em Romariz e recorda que o seu primeiro trabalho surgiu aos 8 anos, quando no final da escola foi “guardar melões no campo da Quinta dos Albertos, no lugar de Casais, da freguesia de Meinedo, onde dormia numa barraca de palha”.
Quando terminou o ensino primário, aos 10 anos, foi trabalhar como pedreiro, “a ganhar dois tostões e meio por dia, o que na moeda atual corresponde a um cêntimo e vinte cinco”, declara António Magalhães com precisão.
Da infância recorda também que “aos domingos, a mãe dava-lhe um escudo para comer uma isca de bacalhau e beber um copo de vinho no final da missa”.
Algum tempo depois, decidiu adotar a arte de tamanqueiro: “aprendi durante seis meses com o «Manquinho», de Romariz, a quem tive de pagar trezentos escudos pela formação”. Terminada a aprendizagem desse ofício, “o sr. Chico Neto emprestava-me dinheiro para comprar madeira para fazer os tamancos por conta própria”. Assim que lhe vendia o que produzia, pagava o que lhe devia. Também trabalhou como tamanqueiro para os Taipas, de Freamunde, fazendo o percurso a pé até lá e para casa.

Confessa que apesar de muito trabalhador “era um rapaz um pouco travesso, que gostava de pregar partidas e fazia um buraco no caminho, tapava com tojos e quem passasse caía no buraco” e com um sorriso lembra que chegou a “roubar fruta nos pomares para comer”.
Ainda sobre a infância, releva que “muitas vezes andava com os calções sem botões, porque os arrancava para jogar ao botão com os amigos”.
Em 1957, portanto com 16 anos, decidiu ir trabalhar para o Porto, na firma Daniel Gonçalves, na Rua de Santo Ildefonso, nº 252, que curiosamente é o mesmo número da porta das Ferragens Vale do Sousa, que fundou em 1993 com os filhos. “Ainda me recordo que o número e telefone da firma era 23510”, declara. Ia no comboio das seis da manhã e levava a marmita com o almoço, que a mãe cozinhava de madrugada.
Essa fase da vida e António no Porto está repleta e episódios e histórias. “Uma vez que chegava ao Porto muito cedo, tinha de aguardar pelas 9 horas para que o estabelecimento abrisse e, como não tinha dinheiro para ir ao café, esperava na rua. Para aquecer a marmita, pedia que o fizessem numa tasca que havia na Rua de Santo Ildefonso, onde o aluguer da mesa era a troco de comprar um copo de vinho”, relata com especial vivacidade. Uma vez mais chama a atenção para o vencimento que auferia nessa altura: “tinha um salário de 650 escudos, que equivale a cerca de 3,25€”.
Entretanto, foi convidado para trabalhar num armazém na Rua do Almada, onde foi ganhar um salário de 950 escudos. Mas nunca se resignou com o que tinha e procurou sempre melhor. “Concorri a um emprego em Fafe e, para ir à entrevista, pedi a um primo se me levava de mota, mas tive de pagar uma multa de 30 escudos porque a mota não podia levar duas pessoas. A entrevista correu bem e fui ganhar 1.250 escudos em Fafe. Para ir trabalhar, deslocava-me de bicicleta até Felgueiras, onde apanhava a carreira até Fafe”, descreve António Magalhães, que mais tarde comprou uma mota por 300 escudos.
Em 1962, com 25 anos, muda-se para a firma Augusto Dias & Cª, Lda., na Rua de S. João, nº 126. Também daqui se recorda dos números de telefone: 22331 e 22332. “Já ganhava 1600 escudos e o eu patrão, o Sr. Cassiano, percebendo que eu era um bom funcionário, pois, embora a hora de entrada fosse às nove horas, começava às oito porque chegava cedo ao Porto, todos os meses, no dia de pagamentos, lhe apertava-me a mão e dava 300 escudos por fora, sem o conhecimento, quer dos sócios, quer dos colaboradores”, afirma com orgulho.
Com tanta experiência desde muito novo, acabou por reunir bases para a abertura do seu próprio negócio Estabeleceu-se em Romariz, Meinedo, em 1975, com a designação comercial “Ferragens Romariz”, e dedicou-se à revenda, tendo clientes em Penafiel, Paredes, Valongo, Paços de Ferreira e Lousada.
Fazia as entregas numa carrinha Bedford cuja matrícula era BT-12-88. Como curiosidade diz que “ao fazer uma entrega nessa carrinha, em Ermesinde, numa passagem de nível sem guarda na Travagem, foi colhido por uma locomotiva em manobras e apenas sobreviveu porque, com o impacto, foi projetado da viatura”. Firma que o acidente foi notícia na televisão e jornais.
Passados dois anos, alargou o negócio e abriu uma loja ao público por baixo da escola de Meinedo, junto à estação, que manteve em funcionamento até 1996, quando se transferiu para a Vila e Lousada.
Nas viagens para o Porto conheceu aquela que viria a ser sua esposa. Ambos viajavam todos os dias para trabalhar: Conceição como enfermeira e ele como empregado de armazém. Foram apresentados por uma amiga comum. Do casamento resultou terem duas raparigas e um rapaz.
Nos dias de hoje continua a lidar com clientes. Dentre estes salienta o mais antigo: a Câmara Municipal de Lousada. “Ainda hoje tenho amigos que eram meus clientes em Meinedo, tais como o Sr. Magalhães do café, o Costa Alentejano, o Picheleiro Latas e tantos outros”, indica.
Foi muitas vezes convidado para fazer parte de associações ou partidos políticos, mas nunca aceitou por falta de disponibilidade, pois a empresa tomava-lhe muito tempo, e porque teve sempre por princípio que um comerciante não pode ter partido, clube de futebol ou religião.
O negócio nunca foi exclusivo da atividade pessoal de António Magalhães. Sempre gostou da lavoura e tem uma uma horta onde nada falta e cria animais como patos, galinhas, coelhos, porcos. No verão, levanta-se cedo para regar os seus “mimos”.
Durante longos anos, ele e a esposa chegaram a fazer o cultivo do linho e trabalhar todo o seu círculo de produção, com o culminar de uma grande festa em setembro, a Espadelada, que ficou famosa em Lousada.
Este é um dos muitos resumos possíveis da perseverante e rica vida de António da Cunha Magalhães, cujo lema principal de vida é “um pobre nem quieto nem calado”.














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