Aos 38 anos, Maria Emília de Sousa Carvalheiras, natural de Nespereira (Lousada), tomou a responsabilidade de zelar pelo altar do Sagrado Coração de Jesus, da Capela do Senhor dos Aflitos. Cinquenta anos depois, com 88 anos de idade, é a mais antiga zeladora do principal templo da Vila de Lousada. Em entrevista, recorda as suas antecessoras naquele cargo, os trabalhos em que se mete uma zeladora, as promessas pagas em flores pelos fiéis e s ocasiões especiais, sobretudo em casamentos e na procissão da Festa Grande.
As flores estiveram sempre presentes na vida de Maria Emília de Sousa Carvalheiras. Desde muito nova, na freguesia de Nespereira, cresceu rodeada de canteiros e jardins. “Quando vim trabalhar para a Vila, na casa da Gracinha Alves e do Sr. Adão Moreira, esse gosto e convivência com jardins continuou, pois nessa casa havia muita dedicação às flores e plantas” a cujo facto não era estranho o facto de Graça Alves ser zeladora de um altar na capela que ficava a dois passos.
Quando casou, em 1963, Maria Emília passou a cultivar as suas próprias flores. “Quando eu e o meu futuro marido estávamos a ver terreno no lugar do Picoto, para construir casa, uma preocupação foi que tivesse espaço para horta e para jardim. A horta ficou na parte de trás e à frente da casa cultivamos jardim”, recorda a viúva de Luís Afonso Carvalheiras, recentemente falecido.
“As minhas flores preferidas eram as dálias. Eu tinha varias qualidades. É uma flor que dura muito e é bonita. Também gosto dos gladíolos”, revela a zeladora.
Com essas flores ornamentou muitas vezes o altar do Sagrado Coração de Jesus. Isso começou em 1975, “quando a empregada da falecida filha do Dr. Hermano, da Casa dos Patos, deixou de puder zelar pelo altar e pediu-me para eu a substituir”.
Conta que, certo dia, “no tempo do padre António Sousa, reparei que o altar estava por assear há duas semanas. Ele disse que a Carminha (Maria do Carmo) estava doente. Fui falar com ela, com intenção de ajudar por uma ou duas semanas. Eu tinha quatro filhos e receava que não tivesse tempo para cumprir com a responsabilidade por mais tempo”.
Mas tudo se proporcionou nesse sentido. “A Carminho convenceu-me a ficar zeladora efetiva quando me disse que o Sagrado Coração de Jesus ajuda muito na vida de quem trata dele”, refere a Emilinha.
Falando os afazeres que tal ocupação implica, diz que não se trata só de colocar flores. “É preciso tratar das toalhas, algumas muito antigas e em linho, dos castiçais e das jarras, enfim, dá muito trabalho. Mas também é muito recompensador para quem tem fé e devoção”, acrescenta.
Para esta longevidade como zeldora, Maria Emília aponta vários fatores: “É como tudo, é preciso gostar do que se faz”.
FESTA GRANDE É O PONTO ALTO

Da fase inicial, há 50 anos, lembra-se que teve “muita ajuda de várias pessoas que gostavam deste ltr em especial. Uma delas era a dona Rosinha Neto, da Ourivesaria, que tinha os gladíolos mais bonitos de Lousada”.
Eram tempos difíceis para conseguir flores “porque não havia floristas e o que se cultivava nem sempre era suficiente para as necessidades”.
A propósito, recorda que a primeira florista que abrir foi na rua Visconde de Alentém, precisamente ao lado da residência onde agora vive. “A rua Visconde foi sempre muito bairrista, com pessoas muito interessadas no bem da terra. A rua Santo António também”, acrescenta a Emilinha, que é também ela muito conhecida pelo seu bairrismo.
Muita da sua motivação vem desse gosto pela defesa da localidade. “Nós as zeladores queremos que os habitantes de Lousada e principalmente os visitantes gostem da nossa igreja e se sintam bem recibos com o melhor zelo e decoração possíveis”, declara.
Também as zeladoras lhe merecem apreço e elogios pelo trabalho que desenvolvem nos altares do Imaculado Coração de Maria e da Nossa Senhora do Rosário, assim como do Altar-Mor. “Conheci todas as zeladoras dos últimos 50 anos e recordo com saudade sobretudo as que já partiram, como a Lucinha Barbosa e a sua mãe, a Nininha Gorgel e a Aninhas”, confessa Maria Emília.
Nesta época do ano, está com o pensamento absorvido pelos cuidados a ter na preparação do altar e do andor para a Festa Grande que se avizinha. “É a altura mais importante do ano e há um esmero e atenção ainda maiores”, conclui.













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