Que tempos curiosos estes em que vivemos. Nunca houve tanto acesso à informação, tantos livros de autoajuda, tantos vídeos motivacionais a prometer iluminações instantâneas em três passos. E, ainda assim, parece que estamos todos um bocadinho perdidos. Fala-se cada vez mais de ansiedade, de stress, de vazio. As redes sociais estão cheias de gente com vidas cheias de propósito, ou, pelo menos, cheias de filtros. E quem está deste lado do ecrã começa a perguntar-se: “E o meu? Será que vem com rastreamento ou tenho de o encontrar sozinho, tipo pacote extraviado dos CTT?”
Foi neste cenário, um misto de excesso de estímulo e falta de rumo, que comecei a pensar no sentido da vida. Não o das grandes religiões, nem o dos manuais de filosofia do 11.º ano, mas sim o nosso, o mais pessoal. O que se pode construir numa terça-feira à tarde, entre trabalhos por entregar e chá morno. E é sobre isso que é esta crónica: sobre a busca de um sentido sem mapa, sem bússola, e com a leve suspeita de que, se calhar, a coisa até funciona melhor assim.
Será que passamos tanto tempo à procura de sentido que nos esquecemos de viver? Meus amigos, a resposta é tão mais fácil e curta que a pergunta: Sim. Mas, porquê?
Quando me deparo com esta pergunta, gosto de pensar, mesmo que pareça simplista, que “o sentido da vida é viver até morrer”. Parece pouco. Parece simples demais, quase desleixado. Mas não é. É talvez das frases mais sérias que já me ocorreram. Porque tira o peso dos ombros e põe-no nos pés, onde ele devia estar: na caminhada. Não diz que há um destino, nem que tudo acontece por uma razão mística. Diz só que estamos aqui, por um tempo limitado, e que viver, realmente viver, já é, por si, tarefa suficiente. E digna.
Viver até morrer é mais do que passar o tempo. É sentir. É errar, rir, perder, cuidar, dançar músicas que nos envergonham e chorar em silêncio no duche. É olhar para o lado e perceber que há outras vidas a acontecer ao mesmo tempo. E que, de vez em quando, podemos tocá-las, ou ser tocados por elas, e isso, por um instante, faz com que tudo pareça fazer sentido, mesmo que não faça.
O existencialismo, essa filosofia que cheira a cigarro e a noites mal dormidas, diz precisamente isso: que a vida não vem com manual de instruções. Que existimos primeiro e só depois inventamos quem somos e o que fazemos com isto. É perturbador? Sem dúvida. Mas também um bocadinho maravilhoso? Também.
Porque, se não há sentido traçado de antemão, então temos carta branca para inventar o nosso. Pode ser fazer bolos. Pode ser cuidar de uma avó que já confundiu o comando da
televisão com o telemóvel três vezes hoje. Pode ser rir com os amigos até doer a barriga. Pode ser acordar todos os dias e tentar ser só um bocadinho menos idiota do que ontem.
Talvez o sentido da vida não seja um destino, mas um estilo. Um modo de andar por cá. E se é para andar por cá, que seja com sentido de humor, com um toque de ironia, com um café na mão e, quando possível, com alguém ao lado que nos faça esquecer que não sabemos ao certo para onde vamos, mas que nos faz gostar da viagem.
Alice Santos
Estudante













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