UMA PROFISSÃO EM VIAS DE EXTINÇÃO
Quatro vezes por ano recebemos a visita de Domingos Manuel, em Lousada. Nasceu em Évora há 63 anos, mas vive em Campanhã (Porto). Vem para esta região afiar facas, tesouras, sabes, espadas, tudo que tenha lâmina. Desloca-se do Porto numa carrinha-caravana, que estaciona em Felgueiras e dali parte diariamente na sua bicicleta equipada com as pedras de amolar e o respetivo engenho mais a mala dos apetrechos. E de bicicleta percorre o Vale do Sousa e Terras de Basto.
A profissão de amolador já tem poucos executantes em Portugal. São poucos os profissionais que deambulam de terra em terra para exercer este ofício. Essa figura tradicional ainda aparece em Lousada de quando em vez, fazendo-se anunciar aos clientes tocando uma gaita de beiços, também conhecida como gaita de amolador, instrumento da espécie das flautas de Pã, utilizada também pelos capadores. Esse som ecoa pelas ruas de Lousada pelo menos uma vez em cada estação do ano, quando Domingos Manuel surge na sua bicicleta adaptada com engenho onde amola facas e tesouras. Mas presta-se a mais reparações.
“Desde muito pequeno que segui o exemplo da família e aprendi a afiar alicates, facas, tesouras de costura ou de podar, e outros objetos de corte, bem como arranjar varetas de guarda-chuvas ou até panelas”, afirma o alentejano Domingos Manuel. Mas o ofício está a desaparecer.
“Era uma arte transmitida de geração em geração, mas já ninguém quer andar ao sol ou à chuva de porta em porta”, lamenta o afiador. A clientela é cada vez menor “porque quando a faca não corta bem, compram uma nova; não se valoriza e estima o que se tem, nestes tempos de modernidade tudo é descartável, preferem deitar fora um guarda-chuva do que mandar compor uma vareta”, desabafa este trabalhador ambulante.
Ainda assim, tem clientes certos em todas as localidades por onde passa. Mora no Porto, de onde vem numa carrinha apetrechada com os pertences para uma ou duas semanas. Estaciona a carrinha e parte dali diariamente para uma localidade diferente, voltando quando o sol se põe, para ali pernoitar. “Vou até Lousada, Penafiel, Vila Meã, Lixa, Terras de Basto, e outras”.
A bicicleta serve de transporte dali para outras localidades. Mas é também uma oficina móvel: o amolador apoia a roda traseira da bicicleta num tripé e depois ata-lhe uma correia, que une à pedra de amolar. E, conforme vai pedalando, a pedra começa a girar e assim amola os utensílios.
Domingos Manuel esteve em Lousada neste mês e ainda antes do final do ano deve voltar. “O tempo tem que ajudar porque é duro andar nisto à chuva”, diz o amolador, que vai resistindo e persistindo numa prática que teima orgulhosamente em manter-se viva.














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